Volto de viagem e entro aos poucos na rotina. Melhor seria dizer: deixo que a rotina entre em mim, pois rotina não é coisa que se procure....

Elogio da rotina

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Volto de viagem e entro aos poucos na rotina. Melhor seria dizer: deixo que a rotina entre em mim, pois rotina não é coisa que se procure. Ela se impõe e nos envolve, com seus tentáculos lerdos e brancos. Ou com a força de um bicho doméstico e inevitável, que nos acua todo o tempo. Ainda não encontrei ninguém que dissesse: “Busco ou, pelo menos, aceito a rotina; os atos simples e repetidos do dia a dia me satisfazem”. Pelo contrário. Todos querem o diferente e o inusitado, embora diariamente tropecem na armadilha do mesmo e do igual.

Aproveito e faço filosofia barata: viver é repetir-se e jamais decorar o papel. Querem melhor signo de repetição do que a rotina? Mas o que é a rotina, enfim? Digamos que ela seja o acaso em preto e branco. A fatalidade do esperado, do conhecido. Sendo o total oposto da aventura, ela nos esmaga pelo óbvio e pelo já sabido.
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Estamos biblicamente condenados a nos repetir, conforme está no Eclesiastes: “Nada de novo sob o sol”. Pelo jeito, a nossa aurora foi um clarão previsto, com data marcada para o começo e o fim. Viver é seguir um esquema biológico. Na natureza tudo é rotina, tudo é igual. A não ser quando ocorre uma mutação, que é antes um fenômeno de teratologia. Mesmo o organismo mutante, porém, logo se reenquadra nas leis cósmicas.

Mas a rotina não é esse estorvo que dizem, e vou mais além: é graças a ela que se realizam as grandes conquistas humanas. Pode-se concebê-la como uma versão pragmática do tédio. Ao mesmo tempo que transforma o tédio em ação, a rotina o desarma e o doma. O melhor do que produzimos resulta do esforço e da prática repetida. O melhor do que sentimos decorre da exposição, por um longo tempo, a um mesmo e recorrente estímulo. Sem a rotina, nada perceberíamos do mundo; seríamos uns amadores de nós mesmos, uns ignorantões acerca da natureza e do cosmo.

Como somos românticos incuráveis, tendemos a só atribuir os grandes feitos humanos a impulsos de transgressão e aventura. E não levamos em conta o quanto houve neles de persistente e rotineiro.
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A começar pela nossa desobediência original, tipificada no gesto de Adão. Só se enfatiza que ele, tentado, comeu o fruto. Ninguém refere o paciente e rotineiro trabalho de Eva, que levou anos para convencer o parceiro de que comer a maçã era mesmo bom. Adão desconfiava, e com razão: nunca tinha experimentado. Não fosse a perseverança da mulher, teríamos ficado para sempre no Paraíso – o que significa dizer: no mesmo nível dos bois, dos camundongos e das cabras.

As grandes descobertas humanas são obra da rotina. Ou será que o lampejo dos gênios ocorre sem um processo de maturação que leva dias, meses, anos? Newton intuiu a lei da gravidade vendo cair uma maçã – disso todos sabem. Mas o que ele fazia debaixo de uma árvore às duas horas da tarde? Devia estar entediado com o dia a dia. E se naquele instante teve a súbita revelação, quantas tardes não passou, rotineiramente, pensando sobre a queda dos corpos?

O mesmo se pode dizer de Galileu, que tanto amava a rotina quanto com ela se aborrecia. Ele só era tão guloso dos céus porque, em certos momentos, o cotidiano lhe parecia extremamente chato. Então aperfeiçoou o telescópio para ver o mais longe possível, afastando-se espiritualmente do açougueiro, dos credores e dos vizinhos.

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Mas deixemos de lado os gênios e pensemos em nós, que nada descobrimos de original e que, no mais do tempo, vivemos um cotidiano sem lampejos nem mutações. O comum é maldizermos o dia a dia e invejar os que têm dinheiro para renovar os hábitos e as posses, condimentando a vida com o diferente e com o exótico. Eles seriam os felizes – no entanto, vez por outra se matam. Talvez não suportem o excesso de um cotidiano cuja fartura enxota o sonho, o humilde desejo de outra coisa.

Ah, bom mesmo é sair da rotina para depois voltar a ela. E reencontrar em seus domínios discretos, longe da vertigem e do barulho, a inteireza simples que gratifica o espírito. Parodiando Vinicius, eu diria que a rotina é a arte do reencontro. E sua maior justificativa está em que não se pode amar o novo, o inédito. Não se pode amar o que não se conhece.

Rotina é exercício de amor.

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  1. Sensacional, caro professor! E como diria Aristóteles, "Nós somos o que fazemos repetidamente."

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