A música transcende os sentimentos e a racionalidade humana. Trata-se de uma linguagem universal, capaz de expressar identidades colet...

Música erudita: dignidade humana e social

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A música transcende os sentimentos e a racionalidade humana. Trata-se de uma linguagem universal, capaz de expressar identidades coletivas e de conectar indivíduos por meio de experiências compartilhadas. Nesse sentido, a música erudita — também chamada de música clássica — contribui para a construção do pertencimento cultural, pois está intrinsecamente ligada à formação histórica, social e estética de diversas sociedades. Ela molda não apenas o gosto artístico, mas também um imaginário coletivo que conecta os indivíduos à sua ancestralidade e à dignidade.

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Degas
Ao longo da história, a música erudita e seus compositores desempenharam uma função relevante como instrumentos de expressão religiosa, política e filosófica. Presentes em palácios, igrejas, universidades e teatros, essas obras contribuíram para a formação de identidades nacionais e regionais, funcionando como símbolos de continuidade e estabilidade cultural. Além disso, exercem uma prática pedagógica e formadora, estimulando uma escuta atenta e o contato com estruturas sonoras complexas, que exigem interpretação, reflexão e imaginação. A formação musical clássica, portanto, favorece o desenvolvimento de cidadãos mais críticos e conscientes de sua inserção histórica e de seu papel social.

O filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão Theodor W. Adorno (1903–1969), integrante da Escola de Frankfurt, estudou profundamente o impacto da música na sociedade, especialmente da música erudita. Em sua obra Introdução à Sociologia da Música (1964) e em outros ensaios, Adorno argumenta que a música de concerto possui um potencial emancipador, pois desafia o ouvinte a romper com a passividade imposta pela cultura de massa. Para ele, uma sinfonia, um concerto ou uma música de câmara são
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Theodor Adorno Editora Ubu
formas de resistência ao pensamento simplificado e ao consumo acrítico promovido pela indústria cultural. Defendia, assim, a democratização do acesso à música erudita, por considerar que ela contribui para a formação de sujeitos autônomos e críticos.

Sob essa perspectiva, a música erudita atua como um processo ativo na formação do pertencimento cultural. Ela transmite valores, tensões históricas, concepções de mundo e modos de vida, permitindo ao indivíduo situar-se com mais referências culturais. Além disso, reconhece-se a música como patrimônio cultural da humanidade, passível de apropriação, interpretação e ressignificação.

Importa destacar que esse pertencimento cultural gerado pela música clássica é universal — pertence a todos. O ensino de música, por meio de projetos sociais, tem o poder de promover a inclusão social ao legitimar a diversidade, interagir com outras culturas e revelar sua vitalidade e capacidade de reinvenção. Nesse processo, compositores contemporâneos têm incorporado ritmos africanos, latino-americanos, indígenas e orientais à linguagem da música de concerto, criando fusões que expandem o sentido de pertencimento cultural e promovem uma unidade na diversidade. Assim, a música erudita torna-se um espaço simbólico de encontro entre diferentes identidades culturais.

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Merle Locke
A escuta e o estudo da música clássica também promovem uma educação estética essencial para a formação humana integral. Em tempos marcados pelo imediatismo, pela superficialidade e pelo consumo excessivo de conteúdos culturais descartáveis, a experiência da audição em concertos convida à pausa, à contemplação e à valorização da complexidade.

Nesse sentido, ela contribui para o desenvolvimento de uma cultura do respeito e da alteridade — enraizada na tradição, mas aberta à inovação e à diversidade. Como demonstrou Adorno, a música erudita tem o poder de promover a emancipação e a crítica social, desde que seu acesso seja ampliado e seu valor reconhecido como parte do patrimônio coletivo. Ao formar cidadãos mais conscientes, sensíveis e conectados à história e à arte, a música erudita contribui para a construção de sociedades mais justas e para o fortalecimento dos valores socioafetivos e dos vínculos sociais.

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  1. Temos falta no Brasil (e talvez em Portugal também) de uma educação musical institucionalizada, de modo a formar apreciadores da música erudita. Isto diz muito sobre nós, brasileiros - e sobre a educação que recebemos. Parabéns, Klebber. Francisco Gil Messias.

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