Eu era um pirralho no bairro do Miramar quando chegou a notícia de que todo mundo deveria voltar para casa e procurar um esconderijo, p...

Nossos heróis esquecidos

cronica reminiscencias infancia herois
Eu era um pirralho no bairro do Miramar quando chegou a notícia de que todo mundo deveria voltar para casa e procurar um esconderijo, preferencialmente embaixo das camas, porque iria acontecer a explosão de um caminhão cheio de gasolina que estava em chamas no centro da cidade. Pelo menos é disso que lembro. À noite, com a chegada dos nossos pais vindos do trabalho, soubemos do fato.

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Em um posto de gasolina que havia no centro da cidade, um caminhão transportando combustível começou a descarregar quando chamas o envolveram. Não lembro a origem do fogo e sequer lembro se o herói da história foi o próprio motorista do veículo ou algum passante. O certo é que alguém mais afoito assumiu a direção do caminhão em chamas e o mergulhou na lagoa. Este é o fato, pelo menos até onde me lembro. Isso realmente ocorreu dessa maneira? Qual era o nome do herói? Onde está a estátua em sua homenagem ou uma rua com seu nome?

Outro herói, esse identificado, é Iran Mamede, da minha reca de maloqueiros do Miramar. Naquela terrível tragédia da lagoa, onde dezenas morreram afogados, consta que Iran mergulhou e salvou muitas vidas. Esses são fatos contados até hoje no Miramar. Nunca encontrei um desmentido. Iran nadava bem; éramos da mesma equipe de natação do clube Cabo Branco. Na época da tragédia eu morava no Rio de Janeiro e não pude acompanhar a história, mas, tempos depois, procurei me informar através de amigos comuns, já que Iran viajara e estava trabalhando como mergulhador (da Petrobrás?).

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Devo confessar que eu morria de medo de reencontrar Iran. É que, quando pirralhos, tivemos um desentendimento numa pelada de futebol e fomos às vias de fato em frente à igreja do Miramar. Cercados pelos amigos que incentivavam a briga, dei o primeiro murro e algumas almas caridosas separaram a confusão, porque eu, com certeza, iria levar uma tremenda surra. Mas, como naquela época quem dava o primeiro murro “ganhava”, passei a gozar da fama de bom de briga. Na verdade, eu vivia me escondendo todas as vezes que avistava Iran.

Passados muitos anos, estava na calçadinha de Tambaú quando um verdadeiro armário de músculos me abordou:

“— Lembra de mim? Iran, do Miramar.”

Imediatamente dei-lhe um abraço de urso e não larguei até sentir que ele estava relaxado. Graças a Deus, não lembrava daquele lamentável equívoco que eu cometera tanto tempo atrás. O que, para muitos, foi uma demonstração de afeto meu, na verdade era uma tentativa tosca de não deixar Iran devolver aquele maldito murro. Deu certo.

Cadê a estátua do meu amigo Iran?

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