Prometeu encontra-se cravado a ferros em uma escarpa da Cítia, sofrendo a punição ordenada por Zeus e executada por Hefestos, sob a s...

Prometeu acorrentado: sofrimento e libertação

mitologia zeus prometeu acorrentado
Prometeu encontra-se cravado a ferros em uma escarpa da Cítia, sofrendo a punição ordenada por Zeus e executada por Hefestos, sob a supervisão de Poder e de Violência, duas divindades do séquito de Zeus, filhas de Estiges (Hesíodo, Teogonia, v. 385 e 400-401).

A desventurada Io, ainda sob a forma de novilha, já ouviu o relato acerca de suas errâncias passadas e futuras, bem como teve ciência de que, passadas treze gerações após dar à luz Épafo, em Canopo, no delta do Nilo,
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O pequeno e forte HérculesJ. Reynolds, 1785, Museu Hermitage, S. Petersburgo
nascerá o ínclito herói Hércules, que libertará Prometeu de seu castigo. Voltando a ser perseguida pelo aguilhoamento do tavão, em que se transformara Argos, após ter sido morto por Hermes, a infeliz jovem debanda em novas errâncias, de modo a cumprir o seu destino, encerrando a sua participação na peça.

O Coro, por sua vez, já expressou o seu último canto coletivo (Terceiro Estásimos, v. 887-906), traduzindo uma advertência sobre o perigo de o mortal ou o imortal desconhecerem os seus limites, penetrando, assim, no perigoso campo da desmedida, a hybris (ὕβρις), tão temida no mundo grego, quanto é caro o reconhecimento da medida, o métron (μέτρον). O chefe do Coro, o Corifeu, ensaia um diálogo com Prometeu, sob a forma de uma esticomitia, em que, verso a verso, a obstinação de Prometeu de se insurgir contra Zeus e a advertência do Corifeu a lhe pedir cautela vão moldando os últimos instantes da peça, com o Coro a preparar a sua saída de cena. Estamos no Êxodos (v. 907-1093), momento final da tragédia, em que o páthos (πάθος), o sofrimento, tende a se exacerbar.

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A tortura de PrometeuGioacchino Assereto, S.XVII, Musée de la Chartreuse de Douai, França.
Estamos, claro, falando da peça Prometeu acorrentado, de Ésquilo, um dos momentos mais impressionantes da tragédia ática, em que a desmedida não ocorre apenas do lado de quem está sendo punido. Ela é proveniente, também, da parte de quem pune. Ésquilo compõe, portanto, uma perfeita aporia, tendo em vista que não há solução possível, quando os dois lados envolvidos em alguma questão se mostram obstinados e não querem abrir mão de suas convicções. O resultado é desastroso, ruinoso, provocando a desventura (δυστυχία), uma das características fundamentais da tragédia grega, cuja finalidade não é a morte, mas o sofrimento, como uma forma dolorosa de aprendizagem. Morrer é fácil e banal; aprender é a dificuldade que se apresenta no caminho do mortal, desconhecedor dos seus limites,
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Prometeu é acorrentado por HefestosD. Baburen, 1623, Rijksmuseum, Amsterdã.
conforme a máxima do Deus Apolo, insculpida no pórtico do seu templo, em Delfos: Conhece-te a ti mesmo (γνώθι σεαυτόν).

Quando tudo parece terminado, com a punição consolidada e explicadas as razões de ela ocorrer, surge o deus Hermes, o matador de Argos, com um discurso ameaçador a Prometeu. O Titânida, no entanto, mantém a sua decisão de não baixar a cabeça e de não amenizar o seu discurso contra a tirania de Zeus. Não temendo Zeus, por ter um trunfo contra ele, Prometeu se dá o direito de ironizar Hermes, rebaixando-o da condição altaneira de “mensageiro de Zeus” (Διός ἄγγελος), um dos seus epítetos, à de “o recadeiro de Zeus” (Διὸς τρόχιν, v. 941), um simples preposto, moleque de recados; de uma divindade de uma complexidade ímpar no Olimpo, a mero “servente do novo tirano” (τὸν τοῦ τυράννου τοῦ νέου διάκονον, v. 942).

Novas punições virão, como a águia a ser enviada para comer o fígado de Prometeu, órgão que tende a se renovar, tornando-se um suplício diário ao Titânida. Ave dedicada a Zeus, chamada por Hermes, com propriedade, “o cão voador de Zeus” (Διὸς πτηνὸς κύων, v. 1020-1021).

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PrometeuT. Rombouts, S.XVII, Museu Real de Belas Artes, Bruxelas.
Sabendo o prenúncio do novo suplício, Prometeu reconhece aquele mais imediato: a queda sobre si da montanha escarpada, na qual se encontra agrilhoado, soterrando-o, levando um longo período de tempo para soerguer-se. Encerra-se a peça. Lamentavelmente, não chegaram até nós as duas outras que formavam a trilogia esquiliana – Prometeu porta-fogo e Prometeu liberto.

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Hermes zomba de PrometeuD. Baburen, 1623, Rijksmuseum, Amsterdã.
O que importa nesse momento, o Êxodos, que marca a retirada dos personagens de cena, encerrando a peça, é o modo sutil da construção do diálogo entre Hermes e Prometeu. O deus mensageiro, vendo que Prometeu não se verga às ameaças, parece não levar em conta o conhecimento antecipado do Titânida, que faz jus a seu nome: Prometeu, o que tem ciência antes (Προμηθεύς, de προ, antes, e μανθάνω, ter ciência, conhecer).

Como um acólito desprovido de raciocínio, Hermes despeja sobre Prometeu as ameaças de Zeus, advertindo-o, gravemente, sobre a sua obstinação, afirmando ser melhor Prometeu considerar a prudência, pois Zeus cumpre as suas ameaças. Fina é a ironia de Ésquilo, não alcançada sequer pelo Corifeu, ao aconselhar Prometeu a abandonar a firmeza das suas convicções e concordar com Hermes, por conta do poder de Zeus:

“Convence-te, a vergonha para o sábio é errar”
πιθοῦ, σοφῶι γὰρ αἰσχρὸν ἐξαμαρτάνειν, v. 1039

Zeus, que engoliu Métis, uma de suas esposas, e que tem dentro de si a sabedoria, por isso mesmo considerado como o que mais sabe (μητίετα, Teogonia, v. 56), erra tanto quanto Prometeu, embora o Coro e Hermes só percebam o erro do Titânida,
O conhecimento não só faz o poder mudar de mãos. Ele, sobretudo, determina a derrocada do arbítrio. Eis o porquê de Prometeu acorrentado ser a peça fundante da civilização ocidental.
procurando convencê-lo de calar-se e mostrar-se submisso a quem o oprime. Mantendo-se inabalável, Prometeu responde que Zeus pode fazer tudo, menos matá-lo, demonstrando que, diferente de Io, ele não teme o sofrimento atual nem os vindouros, pois sabe de sua libertação. A lamentação de Prometeu é mais por conta de sua exposição, o que ele considera uma ignomínia, do que por temer o sofrimento. E não se trata de arrogância fátua da parte do Titânida, filho de Jápeto, mas da altivez da convicção de quem luta contra o poder discricionário. Prometeu tem algo que Zeus não tem: o conhecimento antecipado dos fatos.
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Prometeu traz o fogo para a HumanidadeJ. Cossiers, 1637, Museu do Prado, Madri
E o conhecimento é libertador. Não é por outra razão que Prometeu é severamente punido, mas porque, com o fogo, ele levou o conhecimento ao homem, libertando-o do jugo dos deuses. É o conhecimento que fará ruírem divindades prepotentes, instaurando-se a civilização em seu lugar, daí a sua fala ambígua e sutil, na afirmação de que “os deuses não governarão por longo tempo” (δαρόν γὰρ ούκ ἄρξει θεοῖς, v. 940). Nem no tempo mítico, em que se passa a peça, nem na Atenas do tempo em que ela é encenada; nem os deuses olímpicos, nem os fabricados pelos homens que desejam o poder ilimitado. O conhecimento não só faz o poder mudar de mãos. Ele, sobretudo, determina a derrocada do arbítrio. Eis o porquê de Prometeu acorrentado ser a peça fundante da civilização ocidental.

A situação é, como já dissemos, de uma sutileza ímpar, tendo em vista que as advertências e ameaças de Hermes soam a Prometeu como uma ironia trágica. A prudência aconselhada ao Titânida (“não creias a arrogância jamais melhor que a prudência”, μηδ' αὐθαδίαν εύβουλιας άμείνον' ἡγήσηι ποτέ. 1034-1035), deveria ser, antes, praticada por Zeus, tendo em vista que o limite para Prometeu é o sofrimento, por maior que ele seja.
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ZeusJ.A.D. Ingres, 1810, Louvre, Paris.
Para Zeus, no entanto, o limite é a destituição do poder. Só Prometeu sabe o teor completo da profecia de Cronos que poderá derrubar o mais novo poder do Olimpo. Tendo visto caírem dois tiranos, Uranos e Cronos, Prometeu ironiza que poderá ver cair um terceiro, Zeus. Sendo o pai dos homens e dos deuses, o mais infame, poderá ser também o mais breve dos tiranos (αἴσχιστα καὶ τάχιστα, v. 959).

A partir da ironia de Prometeu, vemos que a situação se inverte: maior perigo corre Zeus, que impera sobre todos, do que ele, que se encontra acorrentado. A grande divindade, que tem o olhar mais amplo sobre os fatos (εὐρύοπα, Teogonia, v. 514), vê-se prisioneira de um condenado, submetido a grilhões; condenado que tem na sua firmeza e na sua altivez, diante do sofrimento, o instrumento necessário à sua libertação, como afirma na resposta a Hermes (v. 966-967):

Sabes seguramente que eu não trocaria/minha infelicidade por teu serviço mercenário.
τῆς σής λατρείας τὴν ἐμὴν δυσπραξίαν,/σαφῶς ἐπίστασ', οὐκ ἂν ἀλλάξαιμ' έγώ.

A liberdade de Prometeu, a liberdade tout court, é uma questão de tempo: o sofrimento ensina que tudo é passageiro, o que consolida a sua natureza libertária. Os homens comuns só têm que escolher entre enfrentar a desventura ou se entregar à vileza da servidão. Quanto aos tiranos e aos seus acólitos, restará a escolha entre a queda e a capitulação. O preço de se acharem eternos é a eterna humilhação.

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  1. Um texto pleno de lições atualíssimas, daí a eternidade dos gregos. Parabéns, Milton. Francisco Gil Messias.

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  2. Obrigado, Gil! Abraço!

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  3. Alexandre Pimentel30/8/25 15:43

    Eu acho que o texto não é sobre gregos nem sobre mitos.
    Parabenizo o autor pelo conhecimento e pela genialidade de escrever sobre assunto tão atual, sob o estilo "parabólico".
    Quem tem cérebro irá entender quem é o Zeus dessa "tragédia".

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    1. Assino embaixo, Alexandre. Quando tive a honra de prefaciar uma obra do professor Milton, mencionei essse estilo "parabólico" a que você se refere. Abraços

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