Eles estavam perdidos há um ano e um dia, sem o que comer nem beber. A situação requeria o sacrifício humano, o abate de alguém para ...

Pelos mares e males do desdém

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Eles estavam perdidos há um ano e um dia, sem o que comer nem beber. A situação requeria o sacrifício humano, o abate de alguém para que de suas carnes se alimentasse a tripulação em busca da sobrevivência. Lançaram-se os dados e a má sorte caiu sobre o Capitão da velha nau. Em desespero, este pediu para o Gajeiro subir ao ponto mais alto do mastro à procura da Espanha, ou das areias de Portugal, o que foi feito sem sucesso.

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Arte: Almada Negreiros, 1943-44
Com as espadas já próximas do pescoço, o chefe apelou aos comandados por uma segunda busca de terra firme onde todos pudessem desembarcar. E o Gajeiro desceu com boas-novas. Contou que viu um sítio e, nele, três meninas: uma a cozer, outra a fiar e a última, a caçula, a chorar. De pronto, o Capitão identificou nesse achado irreal, enganoso, suas três filhas. Em júbilo, ofereceu a mais nova ao Gajeiro que, por sua vez, recusou o casamento. E rejeitou, ainda, um cavalo branco de enorme valor dado em troca do casório. Não quis sequer a nau valente e acostumada à travessia de mares tenebrosos.

A pergunta fez-se inevitável: “O que queres, então, Gajeiro?”. Resposta estarrecedora: “Comandante, eu sou o Diabo. O que quero é tua alma. Só assim chegarás ao porto”. Esconjurando o Coisa Ruim, o Capitão preferiu pular nas águas profundas: “Minha alma eu dou a Deus e, o meu corpo, dou ao mar”. Neste exatíssimo momento, um Anjo apareceu para salvá-lo da morte, enquanto Satanás sumia num estouro.

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Detalhe do tríptico "Lá vem a Nau Catarineta que tem muito a contar", do pintor português José de Almada Negreiros, instalado na Estação Marítima de Alcântara, em Lisboa. ▪ Fonte: Wikimedia
Revi tudo isso, dois dias atrás, no canal que exibia “Lunário Perpétuo”, o espetáculo com o qual o admirável Antonio Nóbrega celebrou, em 2002, seus 30 anos de música, dança e teatro. “O Romance da Nau Catarineta”, a parte que mais me encanta, estava inteirinho, ali, no espetáculo que mistura elementos ibéricos e brasileiros.

No DVD dirigido por Walter Carvalho – que possuo e não mais sei por onde anda – Ariano Suassuna faz as apresentações do artista, de seu talento, seus ritmos e propósitos. Ambos caminharam juntos no Movimento Armorial, o projeto que,
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em 1970, iniciou a busca por uma arte erudita a partir das raízes da cultura nordestina. Nada escapou desse esforço: cordel, cantigas, folguedos, cinema, teatro, xilogravura, artes plásticas e por aí vai...

Vamos, porém, àquilo de que mais gosto no show de duas horas em que Antonio Nóbrega incluiu peças como “O Rei e o Palhaço”, “Ponteio Acutilado” e “A Morte do Touro”.

Não estará sozinho quem note semelhanças entre os enredos da Nau Catarineta e de “A Odisseia”, de Homero, o poeta da antiguidade. Nos dois casos, Ulisses e o nosso Capitão empreendem travessia marítima longa, arriscada e dolorosa de volta para casa. Cada qual, a seu modo, enfrenta a exaustão, o sobrenatural, as tentações. Ulisses, o herói épico, retorna da guerra de Troia. O condutor de “A Barca” – como também é conhecida a peça do romanceiro ibérico com sobrevida nordestina na Paraíba e, dizem, em Alagoas – fantasia os primórdios das grandes navegações.

Nau Catarineta de Cabedelo
Pesquisa quase imediata sobre o assunto conduziu-me à Nau Catarineta comandada por uma mulher, Dona Lia Cunha, em Mandacaru, zona norte de João Pessoa. Entrevistada por canal de tevê, ela falou das origens portuguesas e espanholas do folguedo.

Nosso folclore não sobreviveria sem a resiliência dos que habitam as zonas pobres e periféricas deste País imenso, injusto e desigual.
Não havia gente jovem entre os 30 participantes do grupo de idosos que então se reunia, numa sexta-feira, no Centro Social Urbano do bairro, embora a mestra se dispusesse a ensinar modinhas e passos de danças a todos, independentemente de gênero e idade. “Ô, moça bonita, chegue à janela ver meus marinheiros chamando quando vão para a guerra”, cantou ela à frente de mulheres e homens fardados. Alguns tinham espadas nas cinturas. O trio de músicos portava violão, banjo e pandeiro.

Não custa crer em que Dona Lia enfrente, em certa medida, o infortúnio do Capitão encarnado por Antonio Nóbrega. Afinal, ela e os seus há muito atravessam
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Arte: Almada Negreiros, 1943-44
os mares e males da desconsideração e do descaso institucionais onde têm morrido por inanição manifestações populares sem as quais um povo inteiro perde muito da sua identidade e da sua alma.

Não será diferente o padecimento da maior e mais famosa das nossas Naus Catarinetas: aquela conduzida em Cabedelo, cidade portuária, pelo mestre Tadeu Patrício. Ali, também resistindo a dificuldades políticas e financeiras, os participantes ensaiam e apresentam suas dramatizações na Fortaleza de Santa Catarina com roteiros em muitos aspectos seculares. Nascido nas terras secas do Cariri, Tadeu tem-se dedicado à preservação de cantos, danças e enredos aqui desembarcados no Século 18 e adaptados, inevitavelmente, ao cenário, à história e aos costumes tropicais, no transcurso do tempo. Sua Nau tem Dom João VI, tem padre e tem cordões de oficiais e marinheiros, num total de 40 pessoas.

Apresentação da Nau Catarineta de Cabedelo, com a regência do mestre Tadeu Patrício, na festa de São João em João Pessoa (2008), e no dia do Folclore na fortaleza de Santa Catarina em Cabedelo. ▪ Fonte: YT Lilia Tandaya.
“As dificuldades existem, mas a gente persiste em levantar a bandeira da cultura popular, porque esta é a paixão de todos os brincantes”, eu o ouvi dizer isso em vídeo produzido, há quatro anos, pelo Balaio Nordeste, uma associação sem fins lucrativos criada em João Pessoa. O mesmo vídeo deixou-me informado de que a Nau Catarineta conduzida por Tadeu é Patrimônio Cultural e Imaterial de Cabedelo por lei municipal de 2013. E é a única em seu gênero a possuir um elemento feminino cênico, a Saloia.

Imaterial e quase invisível, digo eu, ao sugerir que tamanho espetáculo também suba nos palcos de junho e dezembro, ao menos nestes,
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Arte: Almada Negreiros, 1943-44
para o conhecimento das plateias enormes concentradas nos arraiais e shows natalinos feitos, conforme a época, de forró e cantores famosos, com ou sem batina.

Se assim não for, perderemos uma das mais lúdicas manifestações do folclore brasileiro. Lembremos de que elas ocorrem, cada vez menos, noutros pontos do País com modificação de nomes e tramas. Pode vir a ser Marujada, Chegança, ou Fandango. O descaso oficial, em todos esses casos, vai além da falta de verbas, pois envolve o desestímulo e um silêncio institucionais quase planejado.

Nosso folclore, acentuemos, não sobreviveria sem a resiliência dos que habitam as zonas pobres e periféricas deste País imenso, injusto e desigual. Dança, desde sempre, sobre os escombros dos orçamentos. É tratado como adereço exótico enquanto se esvaem, mais e mais, nossas tradições e nosso saber ancestral. Até quando?

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  1. Anônimo6/2/26 06:54

    Oportuno, informativo e belo o seu texto, Frutuoso. É o cronista cumprindo a sua missão. Parabéns. Francisco Gil Messias.

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    1. Anônimo6/2/26 09:09

      Sempre Grato, Gil. - Frutuoso.

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