Eles estavam perdidos há um ano e um dia, sem o que comer nem beber. A situação requeria o sacrifício humano, o abate de alguém para que de suas carnes se alimentasse a tripulação em busca da sobrevivência. Lançaram-se os dados e a má sorte caiu sobre o Capitão da velha nau. Em desespero, este pediu para o Gajeiro subir ao ponto mais alto do mastro à procura da Espanha, ou das areias de Portugal, o que foi feito sem sucesso.
Arte: Almada Negreiros, 1943-44
A pergunta fez-se inevitável: “O que queres, então, Gajeiro?”. Resposta estarrecedora: “Comandante, eu sou o Diabo. O que quero é tua alma. Só assim chegarás ao porto”. Esconjurando o Coisa Ruim, o Capitão preferiu pular nas águas profundas: “Minha alma eu dou a Deus e, o meu corpo, dou ao mar”. Neste exatíssimo momento, um Anjo apareceu para salvá-lo da morte, enquanto Satanás sumia num estouro.
Detalhe do tríptico "Lá vem a Nau Catarineta que tem muito a contar", do pintor português José de Almada Negreiros, instalado na Estação Marítima de Alcântara, em Lisboa. ▪ Fonte: Wikimedia
No DVD dirigido por Walter Carvalho – que possuo e não mais sei por onde anda – Ariano Suassuna faz as apresentações do artista, de seu talento, seus ritmos e propósitos. Ambos caminharam juntos no Movimento Armorial, o projeto que,
Vamos, porém, àquilo de que mais gosto no show de duas horas em que Antonio Nóbrega incluiu peças como “O Rei e o Palhaço”, “Ponteio Acutilado” e “A Morte do Touro”.
Não estará sozinho quem note semelhanças entre os enredos da Nau Catarineta e de “A Odisseia”, de Homero, o poeta da antiguidade. Nos dois casos, Ulisses e o nosso Capitão empreendem travessia marítima longa, arriscada e dolorosa de volta para casa. Cada qual, a seu modo, enfrenta a exaustão, o sobrenatural, as tentações. Ulisses, o herói épico, retorna da guerra de Troia. O condutor de “A Barca” – como também é conhecida a peça do romanceiro ibérico com sobrevida nordestina na Paraíba e, dizem, em Alagoas – fantasia os primórdios das grandes navegações.
Nau Catarineta de Cabedelo
Nosso folclore não sobreviveria sem a resiliência dos que habitam as zonas pobres e periféricas deste País imenso, injusto e desigual.Não havia gente jovem entre os 30 participantes do grupo de idosos que então se reunia, numa sexta-feira, no Centro Social Urbano do bairro, embora a mestra se dispusesse a ensinar modinhas e passos de danças a todos, independentemente de gênero e idade. “Ô, moça bonita, chegue à janela ver meus marinheiros chamando quando vão para a guerra”, cantou ela à frente de mulheres e homens fardados. Alguns tinham espadas nas cinturas. O trio de músicos portava violão, banjo e pandeiro.
Não custa crer em que Dona Lia enfrente, em certa medida, o infortúnio do Capitão encarnado por Antonio Nóbrega. Afinal, ela e os seus há muito atravessam
Arte: Almada Negreiros, 1943-44
Não será diferente o padecimento da maior e mais famosa das nossas Naus Catarinetas: aquela conduzida em Cabedelo, cidade portuária, pelo mestre Tadeu Patrício. Ali, também resistindo a dificuldades políticas e financeiras, os participantes ensaiam e apresentam suas dramatizações na Fortaleza de Santa Catarina com roteiros em muitos aspectos seculares. Nascido nas terras secas do Cariri, Tadeu tem-se dedicado à preservação de cantos, danças e enredos aqui desembarcados no Século 18 e adaptados, inevitavelmente, ao cenário, à história e aos costumes tropicais, no transcurso do tempo. Sua Nau tem Dom João VI, tem padre e tem cordões de oficiais e marinheiros, num total de 40 pessoas.
Apresentação da Nau Catarineta de Cabedelo, com a regência do mestre Tadeu Patrício, na festa de São João em João Pessoa (2008), e no dia do Folclore na fortaleza de Santa Catarina em Cabedelo. ▪ Fonte: YT Lilia Tandaya.
Imaterial e quase invisível, digo eu, ao sugerir que tamanho espetáculo também suba nos palcos de junho e dezembro, ao menos nestes,
Arte: Almada Negreiros, 1943-44
Se assim não for, perderemos uma das mais lúdicas manifestações do folclore brasileiro. Lembremos de que elas ocorrem, cada vez menos, noutros pontos do País com modificação de nomes e tramas. Pode vir a ser Marujada, Chegança, ou Fandango. O descaso oficial, em todos esses casos, vai além da falta de verbas, pois envolve o desestímulo e um silêncio institucionais quase planejado.
Nosso folclore, acentuemos, não sobreviveria sem a resiliência dos que habitam as zonas pobres e periféricas deste País imenso, injusto e desigual. Dança, desde sempre, sobre os escombros dos orçamentos. É tratado como adereço exótico enquanto se esvaem, mais e mais, nossas tradições e nosso saber ancestral. Até quando?










