O alimento da vaidade é a atenção, assim como o alimento do artista é o aplauso. O que seria da bailarina sem a plateia que se encanta com ...

Vaidade, tudo vaidade

celio furtado pintor paisagem

O alimento da vaidade é a atenção, assim como o alimento do artista é o aplauso. O que seria da bailarina sem a plateia que se encanta com seus movimentos? O que seria do palhaço sem a graça do riso? E o pintor, que consumiu uma eternidade para compor sua obra em troca do deleite da contemplação? Do mesmo modo é a vaidade, que depende do oxigênio da atenção para alimentar-lhe a infinda chama.

É o que se vê nesse momento tão singular por que passa toda a humanidade. De repente, o asfalto e as calçadas ficaram desertos. Pessoas até que saíram às ruas, mas a aparência ilusória ficou no cabide e no estojo da maquiagem. As regras de etiquetas e os ditos códigos de civilidade foram substituídos por outros, primários e mais humanos, como lavar as mãos e exercitar a compaixão e a humildade, além de compreender que ninguém é tão diferente, como se quis ou se imaginou.

Há quem diga que a vida sem vaidade é quase insuportável, sobretudo no mundo moderno. O cotidiano proporciona mais opções, o que demanda tempo, que pede pressa em tudo. Acontece que o estágio entre o nascer e o pôr do sol continua absolutamente o mesmo, desde a formação do planeta. Daí tanto estresse na atualidade.


detalhe de quadro do pintor celio furtado
Assim como a vaidade carece de mimos e afagos, requer tempo para arrumar-se. Preparação que demora uma vida para uma exibição de um minuto. Imaginemos esse tempo consumido com a família, os filhos, os pais, ou com pequenas tarefas ou atividades do dia a dia. Talvez pudéssemos melhor apreciar o que tanto custou para ser adquirido, mas que a rotina e a cegueira do encantar-se pelo novo deixaram perder a importância. É como mesmo diz a canção de Raul Seixas: “ ...há tantas coisas novas para conquistar, e eu não posso ficar aí parado”.

Para Aristóteles, controlar a vaidade é ter postura para caminharmos em direção à nossa realidade, a fim de entendermos o quanto imperfeitos somos. Sobre esse pensamento e preocupado com as próprias imperfeições, um famoso marqueteiro paulistano decidiu fazer a famosa peregrinação dos caminhos de Compostela, cujo trajeto demora semanas. A rota escolhida envolvia um trecho mais longo e enladeirado. Depois de dispensar o guia, ele colocou a mochila nas costas e pôs-se a seguir. No terceiro dia de caminhada estava exausto e tinha os pés inchados e cheios de bolhas. Ao anoitecer, do albergue, ligou para o guia. Conhecendo o quanto era vaidoso, este mandou abrir a mochila. E falou: “ Você não vai conseguir desse jeito, meu amigo. Sua bagagem está pesada! Livre-se do que não precisa!”

As crises sempre existiram, e ocorrem por ciclos. Assim como a chegada da chuva, depois da estiagem prolongada, e assim como o surgimento do sol, depois do inverno sombrio, o efeito delas é o renascimento das espécies, pois o que parecia cansado, revigora-se, e o que se fizera gasto e cego, afia-se e se enche de energia e vida.

Ao fim dessa pandemia teremos vivido muitas experiências, feito reflexões e abraçado oportunidades, e certamente renascidos num mundo novo, mais leve e menos desigual. E talvez tenhamos aprendido pequenas lições, como a que disse Honoré de Balzac: “ deixemos a vaidade aos que não têm outra coisa para exibir.”


Célio Furtado é artista plástico e cronista
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