Já tivemos morticínio em massa, em circunstâncias mais adversas, mas nunca como este. Tivemos flagelos com seu pico em 1877, fartamente nar...

À espera do Te Deum

gonzaga rodrigues te deum esperanca pandemia corona ambiente de leitura carlos romero

Já tivemos morticínio em massa, em circunstâncias mais adversas, mas nunca como este. Tivemos flagelos com seu pico em 1877, fartamente narrado oral, artística e eruditamente. Com lances horripilantes, qual o de se sacrificar um ente da família para matar a fome dos demais. Coisas do Ceará, que também são nossas. Mas sempre restando um caminho ou um privilégio de resguardo, seja pelo clima, o do antigo brejo, ou pelo estrato social e econômico.

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Agora, quanto mais riqueza, menos gente tem de ir a Orlando, ao Oriente, aos mais tentadores destinos turísticos e negociais do mundo. O vírus, como o vento, não tem distinguido classes, mesmo que castigue de arrastão os mais expostos, que saem de camisa aberta sob os riscos da extrema necessidade.

No cólera, que através de dois séculos tem sido a nossa referência mais pavorosa, morremos 10 por cento dos 300 mil habitantes de então. Notabilizaram-se os benfeitores da higiene pública com a feitura de cemitérios. Nossa Igreja da Misericórdia não cabia no calcário de seus paredões os ossos dos religiosos mais ilustres; os da pobreza não há registro, salvo no Piancó onde já existia um cemitério feito sob o pálio de um frei Serafim; o de Soledade, inspirando o nome do lugar, teve a mão do padre Ibiapina. Houve qualquer coisa do gênero na notícia que Wilson Seixas dá de Pombal.

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As providências não eram muito diferentes das de hoje, quando o mundo dispõe de riqueza além do ouro para explorar a lua, os planetas, mesmo que se mate um negro como não se mata um porco, isto na nação mais rica de ciência e tecnologia. Um pavor de crime por uma ninharia certamente relegada se não fosse pela cor do delinquente.

Nunca imaginei enfrentar esta experiência depois de 87 anos de outras mazelas minhas e do meu povo. Os números da gripe espanhola e da febre amarela não ficam para trás, é certo. Mas a urbanização, hoje de 70 por cento da população, acabou com o isolamento natural da população rural. A vida geral e econômica era efetivamente agrícola, de densidade populacional rarefeita, morrendo-se mais de morte morrida, com os surtos da peste passando mais por longe. Se não havia médico rural também não havia urbano: o cólera nos pegou com 3 médicos e 2 acadêmicos. Foi quando Abdon Milanez ganhou fama, ao lado de um Poggi, um ascendente da Arnaldo da Beira Rio. Como agora, também não se contava com vacina, com nenhuma terapia de farmácia, só as de botica e os antifebris do mato ajudados pelo banho quente. O cólera matou no Estado o equivalente à população da capital.

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O relatório do presidente Pinto e Silva à Assembleia provincial, documento que por si só bastaria para guardar a memória de um condutor de povos que não nos pertencia (eles sempre vinham de fora) intima-nos a considerar, e bem, o esforço com que a Paraíba vem enfrentando a peste de hoje. Governador, prefeitos, secretários de Estado não só com a mesma máscara preventiva como, a dois metros dos nossos repórteres, também entregues sem trégua e corajosamente no mesmo empenho solidário.

O cólera, vindo do Pará e nos empestando através de Goiana, alastrou-se a partir de março e, já em maio, o presidente Pinto podia fechar com esse desafogo: “....a epidemia se acha quase extinta em todos os municípios, motivando todos, todos, homens livres e escravos, a celebrarmos a vida num grande e fervoroso Te Deum.”

Não merecemos menos, iremos ouvir de doutor João Azevedo e seus fiéis secretários a mesma clarinada para o Te Deum à vida e ao trabalho.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL
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