Afinal, quem, dentre os meus, pegou e não devolveu o dvd com “American Graffiti”, o filme há muito exibido no circuito nacional de cinemas ...

Quero meu filme

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Afinal, quem, dentre os meus, pegou e não devolveu o dvd com “American Graffiti”, o filme há muito exibido no circuito nacional de cinemas como “Loucuras de Verão”?

A propósito, por que as casas exibidoras teimam em buscar bilheterias com títulos idiotas? Duvidam da inteligência do distinto público? “Grafite Americano” falaria menos ao interesse e sentimento dos compradores de ingresso?

E pensar que a tradução literal remeteria a ambientes, situações e costumes perdidos em recantos da memória. Traria, além do mais, sopros da juventude a velhos corações. Losartana por emoção não seria uma boa troca?

O filme saboroso que George Lucas rodou em 1973, em apenas 29 dias, com orçamento pífio, fala disso: do fim da adolescência e das incertezas às vésperas da vida adulta, viva-se onde viver, fale-se inglês, ou não.

Conta das indecisões de quem busca uma carreira acadêmica, dos temores de quem se prepara para enfrentar o mundo, das primeiras namoradas e dos últimos bailes. E assim o faz sob a direção segura, competente, do moço recém-saído do cargo de assistente de Francis Ford Coppola.

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A narrativa, situada em 1962, na californiana Modesto, é caudalosa, plena de histórias paralelas todas amarradas por um achado, um estalo, um eureka: a trilha sonora e a voz de Lobisomem (Wolfman Jack), o famoso locutor em seu próprio papel, ali, no rádio dos carros de todo mundo.

E tome Bill Haley, The Platters, Del Shannon, Chuk Berry, Fats Domino, Beach Boys, Flash Cadillac, Flamingos e que tais. E tome as baladas dos anos de 1950, início dos 60, que muitos de nós, disco na vitrola, solfejávamos na dancinha, cheek to cheek, com a menina do bairro.

Melodias fáceis, bobas, para as quais em público torcemos o nariz desde as passeatas contra a ditadura. Letras estúpidas, com a profundidade de ginasianos, com as quais a saudade teima, agora, em me envergonhar.

Falo da trilha sonora, não do filme, um sucesso de público e de crítica responsável pelo lançamento universal de expressões do cinema como Richard Dreyfuss, Harrison Ford, Paul Le Mat e Suzanne Somers.

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Falo em ter nos braços a menina Laurie (Cindy Williams), ao som de “Smoke get is in your eyes”. Ela chorosa, raivosa e a me beliscar o pescoço no baile da escola, um dia antes do meu propósito de partir para uma universidade do Leste. É o que, neste momento, me imbeciliza.

Mas, septuagenário, quase no limite da inimputabilidade, eu me permito a confissão: Ando doido por tudo isso.

E quero o meu filme de volta.


Frutuoso Chaves é jornalista
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