No verão tudo se acasala. Isso é um lugar comum. Saía de casa de mãos dadas com Carlos para a nossa caminhada antes das 7 horas da noite,...

Réquiem para uma paloma gris

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No verão tudo se acasala. Isso é um lugar comum.

Saía de casa de mãos dadas com Carlos para a nossa caminhada antes das 7 horas da noite, ainda com o parque aberto, porque o sol batia a montanha pelas costas, mas ainda estava longe de chegar ao seu poente pacífico.

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Percebi o peso e a sombra no galho da árvore em frente da casa, algo que me pareceu ser uma grande ave. Olhei para o lugar de onde vinha o barulho e antevi pelas folhas do velho carvalho duas pombas cinzas, que se acompanhavam. Arrulhavam uma em um galho e outra em outro. Mostrei para Carlos o que havia visto e ele me disse que pareciam perdizes. Me enterneci com a imagem de dois casais que saiam a passear, nós e as duas palomas, ou perdizes. Procurei o ninho, porém não o encontrei. Pensei que elas estivessem então de passagem e que não as veria mais.

Estava no escritório no começo da manhã do dia seguinte, lendo os jornais no computador. De repente um som duro e sólido, e um piado doído e terminal. Uma pancada que senti na parede pelo lado de fora da casa, acima da janela de onde eu estava, precisamente no andar de cima. Quis por um momento não acreditar que poderia ser um pássaro confundido no seu voo e que tivesse encontrado o obstáculo do vidro a sua frente para se despedaçar.

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Sobressaltada, aflita, corri para a porta da frente, abri, e procurei ver o que havia acontecido. Do lado direito, perto da porta externa do escritório, vi no chão ainda se movendo uma paloma cinza. Gritei: veja o que aconteceu! A paloma se confundiu com o reflexo da janela e voou para a morte. Que coisa triste! Carlos veio acudir, porém decretou que a paloma estava morta e que não havia nada que pudéssemos fazer, deveríamos retirá-la daí, removê-la para outro lugar, numa sacola, para que pudéssemos colocar no depósito de detritos, e que o caminhão de recolha a levasse. Assim foi feito.

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Algum tempo depois, no meio da manhã, escutávamos o canto da sua parceira chamando de volta o seu par. Não parava , u-ru-ru-ru-ru-u, u-ru-ru-ru-ru-u, u-ru-ru-ru-ru-u... ritmado e frequente. Já sabíamos que ele não atenderia a seu chamado, mas a parceira insistia em seu canto de chamavio (assovio de chamado peculiar somente aos pássaros). O dia foi ficando comprido. O canto triste e solitário da paloma que jamais seria acudida parou a atmosfera do lugar. Tudo era seu e de seu canto.

Ainda é tarde e o canto continua produzindo sua tristeza, e era somente um voo de verão, espraiado em um reflexo letal.


Ana Elvira Steinbach Torres é doutora em ciências humanas e professora
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