No fim do século XVIII os Tapuias ainda cruzavam o Agreste da Paraíba, fugindo da seca e dos bandeirantes. Os tropeiros também cruzavam ess...

As orações de Luzia

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No fim do século XVIII os Tapuias ainda cruzavam o Agreste da Paraíba, fugindo da seca e dos bandeirantes. Os tropeiros também cruzavam essas terras, e viviam assustados. Cada curva do caminho guardava a possibilidade de uma emboscada. Para se prevenirem contra os ataques dos ferozes Tapuias e Tarairiús, os viajantes, na maioria das vezes, andavam em grupo, geralmente acompanhados por uma pequena guarda. Contudo, para os mais destemidos, a própria tropa já bastava.

Curimataú - Anno de 1797
O grito vinha da estrada. A voz era do velho Eugênio. Montava uma besta magra, a galope, mão esquerda segurando o chapéu; a outra puxava as rédeas, de lado, para conter a pressa. Apeou-se e correu para os degraus da casa, e já ia subindo, mas Luzia surgiu no alpendre.

- O que aconteceu, seu Eugênio?
- Negro Zica... – disse ofegante.
- O que tem ele?
- Eu vinha subindo a ladeira, escutei aquela voz fraca... ele tava arriado no capim, no pé da cerca...
- E Antônio?
- Não estava com ele.
- Não? Ah meu Deus! Me leva lá...
- É melhor pedir ajuda, D. Luzia. O negro está muito ruim, mal respira... Talvez nem esteja mais vivo...
- O que houve?
- Disse que encontraram uns Tarairiús, coisa de quatro léguas daqui e que houve reação, mas os índios fizeram uma barreira.
- Me leva lá, homem! - disse apreensiva. E foi preciso sacudir-lhes os braços para ele se mover.

Correram lá, encontraram o escravo ainda respirando; tinha um pedaço de flecha nas costas.

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- O que houve, Zica?
- Tarairiús, Tarairiús D. Luzia – disse ofegante.
- E Antônio?
- Ferido, no ombro, mas acho que não há de ser grave... – Fez um esforço para respirar. Continuou: - A gente se abrigou numa pedreira... Seu Antônio escreveu... alguma coisa para a senhora.

Com esforço retirou um papel do bolso. Soltou um gemido ao estender o braço.

- Quando pensamos que os índios tinham fugido, ele me... mandou. Eu corri muito, acabaram me acertando.

Ela pegou a folha de poucos linhas, correu os olhos sobre a escrita manchada de sangue. Negro Zica engolfou uma gosma encarnada, revirou os olhos. Luzia apavorou-se:

- Zica? Ah meu Deus! Eugênio, vá buscar ajuda... Zica, vamos te levar pra minha casa... Você vai ficar bom.

- Não, D. Luzia... não... precisa...

Zica morreu ali, antes mesmo de terminar a frase.

O moço era bonito, educado, falante. Vinha de passagem para as terras do Sertão. Tinha pressa, comércio por lá. Naquele dia decidira investir por aquela rota que, tivera informação, devia ser menos arriscada.

Era quase noite quando subiam a Serra da Lagoa de Cuité. A tropa estava exausta. Tinham feito viagem extensa, puxada, com sol esturricante, os homens sempre atentos pelo receio de emboscada. Precisavam de comida e descanso. O dono da pousada sabia que iam chegar antes do anoitecer. Por isso, subir a ladeira do povoado era tudo o que os homens desejavam.

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Antônio avistou a primeira habitação, ficava na entrada do povoado. Uma casa de duas águas, caiada, varanda com flores decorando a fachada. Passava em frente quando viu aquela moça esguia, de belas feições, olhos grandes e intensos.

Ele ficou tão impressionado que não conseguiu pensar em outra coisa durante a longa viagem ao Sertão.

Por todo o caminho ele pediu proteção, e na volta também pediu a graça de chegar à Lagoa de Cuité a tempo de assistir a missa do domingo e de ver aquela moça outra vez.

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De longe ouviu o sino tocar. Fechou os olhos, agradeceu. Tinha chegado a tempo. Entrou na Capela. Embora a missa ainda não tivesse começado, havia dezenas de pessoas ali. Olhou para todas elas. Sentiu o coração apertar ao perceber que nenhuma daquelas pessoas era a moça da casa de duas águas. Repentinamente seus olhos se voltaram para o oratório, ao lado do altar.

Ela estava de joelhos, sobre um degrau, diante da Imagem de Nossa Senhora das Mercês. Ficou imobilizado por um instante, preso àquela cena. Quis correr e abraçá-la, curvar-se e agradecer à Santa. Mas conteve o ímpeto. Depois pensou consigo, “ E se tivesse de fazê-lo, o que viria primeiro? A moça ou a Santa?“ Não houve tempo para se arrepender de tamanha blasfêmia porque o padre surgiu e começou a celebração.

Ele se acomodou num dos poucos lugares restantes, mas os olhos continuaram lá. Ela terminou a reza e se benzeu. E quando o viu, sobressaltou-se, quase a ponto de chamar a atenção dos presentes.

Quando acabou o sermão, as pessoas deixaram a Capela; restaram os dois, além do silêncio. Ele se levantou e acercou-se do altar. Diante da Imagem, agradeceu. Ela continuou onde estava, contemplando-o. Então ele se aproximou e estendeu-lhe a mão:

- Muito prazer. Me chamo Antônio.
- Me chamo Luzia. Estás voltando do Sertão... Eu sei... O dono da pousada. Ele falou... Também disse que voltarias por essas bandas.
- É verdade. Gostei desse lugar. Acho que encontrei um bom motivo para fazer esse caminho.
- Que bom – disse.

Quando o interior nordestino fazia parte de um mundo desconhecido, caravanas de aventureiros se entranharam à caça de riquezas e de mão de obra para tocar o serviço nas áreas conquistadas. O alvo eram os Tapuias, os Cariris e Tarairiús, além dos negros fugidos e refugiados em algum cabeço de serra. Antônio fez o inverso. Movido pelo ânimo da mocidade e pelo espírito mercantil, herança do avô paterno que era mascate em Olinda, comprou uma tropa de mulas e abriu um comércio na Parahyba. Reuniu meia dúzias de ajudantes, incluindo Negro Zica, deu armas a cada um e se aventurou mundo afora. As tropas carregadas de açúcar, tecidos e bebidas rumavam para o Agreste e Sertão; de lá traziam queijos, couros e charqueados.

Antônio contava sua história, Luzia ouvia admirada, sem desviar os olhos do seu aspecto aristocrático.

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Na tarde em que a tropa fora atacada, os homens seguiriam viagem para o Sertão, ele ficaria no povoado. Luzia o esperava, e sonhava com sua chegada. O noivado devia acontecer dois dias depois.

Agora ela estava ali, contemplando o nada. O destino se destroçara, o presente não ia além de um papel manchado de sangue e escrito com a pressa de quem se despede; restava-lhe o passado.

Ficou distante o tempo quando a família se mudou da Campina Grande para aquele lugar. Passou a infância brincando com os outros meninos, pescando, catando ninhos de sabiás, enxotando as cabras que ficavam à solta nos aceiros da vazante.

O dia mais feliz de sua vida foi quando a mãe chegou com um embrulho. Era um vestido para a quermesse da Capela.

Um mês antes da festa o pavilhão já estava armado, colorido com bandeirinhas. Depois a agitação contagiava o arraial. Avisados pelos tropeiros, moradores de lugarejos próximos chegavam já arrumados, uns trazendo redes que armavam nos galhos das árvores, outros se instalando na pousada ou em casa de algum conhecido.

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Mas a festa demorava a ocorrer. Era de tempos em tempos. Restava a feira, a missa, as novenas. Depois a vida mergulhava numa repetição de obrigações enfadonhas. A noite era triste e escura, as madrugadas vazias e silenciosas, os dias intermináveis.

Luzia tinha apenas nove anos de idade, mas ainda podia lembrar do momento em que o pai chegou em casa decidido a pegar a família e se mudar para o povoado. “Vamos embora amanhã!” E não disse mais nada. Descobriu mais tarde que o pai tinha sido jurado de morte por questões que ela nunca entendeu.

Ela olhou para o céu, agora cinzento e quase sem luz. No poente uma estrela já anunciava o anoitecer
O lugar não era tão promissor como dissera. Foi mesmo pela afinidade com o coronel Caetano Dantas Correia, que ofereceu proteção e serviço. “Há muito para se fazer para aquelas bandas. ” O Coronel era homem determinado. Um dia requereu, à Coroa, as terras da Lagoa de Cuité. A pedido de um sobrinho padre, edificou uma capela em homenagem à Nossa Senhora das Mercês, e por gosto próprio, doou meia légua de terras para formar o patrimônio da Santa.

O povoado era um aglomerado de dezenas de casas erguidas no entorno da Capela que tinha sino, janelas com varandas para o nascente e outras menores dispostas para a encosta verdejante. Aos domingos, habitantes da região se reuniam no arraial, trazendo criações e o que se produzia nas poucas áreas férteis da serra.

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A feira era o maior acontecimento do povoado. Antes mesmo do amanhecer comerciantes enfileiravam burros e mulas nas traves do sombreado do arvoredo. Descarregavam e espalhavam pelo chão, sobre esteiras de palha, suas mercadorias ou qualquer coisa que se podia vender. E não eram só eles, os tropeiros vindos do sertão ou da Campina Grande, que chegavam pelo anoitecer e se abrigavam na única estalagem do lugar, também ofertavam boa variedade de artigos, até mesmo o que era novidade na Capital da Província.

No começo da semana a rotina se alterava. Depois que os feirantes desapareciam as ruas ficavam desertas. Restava a sujeira que pouco a pouco era varrida pelos redemoinhos do início da tarde. Então tudo ficava triste. A solidão devorando as noites frias, as madrugadas vazias. Luzia queria um homem para lhe aquecer, dar amor, filhos, vida. E aconteceu.

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Foi numa tarde melancólica que aquele moço bonito passou em sua porta, olhou, foi embora, mas era como se não tivesse ido, porque ele continuou em sua mente, em sua noite, em seu coração.

Um vento morno varreu as folhas do aceiro, despertando-a daquelas lembranças e devolvendo-lhe o cenário de absoluta desolação: o caminho deserto, quase escuro e Negro Zica morto, amparado pelos braços do velho Eugênio.

E Antônio? Ele podia estar caído em algum lugar, morto como Negro Zica.

Mas a incerteza que consumia seu coração era a mesma que sempre acalantou o pranto dos amantes. Qualquer coisa em seu peito dizia que ele resistira e ia voltar.

Ela olhou para o céu, agora cinzento e quase sem luz. No poente uma estrela já anunciava o anoitecer. Agarrou-se a sua fé. “ As orações nos protegem”. Então pediu e confiou.

Mesmo assim o medo a dominava. E não era o medo daquele lugar desabitado, da escuridão e dos selvagens, era o medo do que roubava-lhe os sonhos, do que a impedia de viver e ser feliz.

Precisava voltar para casa. E tendo encontrado alguma força para caminhar, respirou profundamente e deu alguns passos. Foi quando o grito de Eugênio ecoou no meio do silêncio:

- Seu Antônio, seu Antônio!!

* (História inspirada em fatos reais)

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