Ausente das ruas desde o início de março, quando se deu a posse do professor Milton Marques na Academia, e como tudo hoje corre mais que d...

Escritas, as coisas não acabam

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Ausente das ruas desde o início de março, quando se deu a posse do professor Milton Marques na Academia, e como tudo hoje corre mais que depressa, não faço ideia, neste dia da cidade, como anda o projeto da Prefeitura para o rio Sanhauá. Torcia por ele sem conhecer os detalhes. Mas como sempre desejei refazer o caminho que foi a rota, sem alternativa, da navegação da história, do comércio, do rei e dos primeiros presidentes republicanos que para aqui se botavam, acompanhei ansioso o andamento dessa reincorporação do Sanhauá à paisagem útil e viva da cidade.

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E lendo a firmeza de Martinho Moreira, na crônica do último domingo, creditando esperança na sobrevida da Festa das Neves, - agora golpeada sem culpa do seu público, - fui bater, em espírito, numa janela de 1º andar da João Suassuna, as minhas esperanças de então a deslizarem turvas nas águas do rio. Nesse tempo (transição do governo de Flávio Ribeiro para o de Pedro Gondim) a janela onde me apoiei oferecia toda uma movimentação de comércio, de tráfego, de muitas portas e janelas abertas, além das torres de fé das igrejas. Mas só o rio de águas foscas, pouco sinuoso, monótono em seu destino, também sem emprego, só ele, sem pressa e sem idade, me atraía. Outro morador do mesmo andar também não tirava os olhos do rio. Mas esse era poeta, fluía em seu ambiente e se chamava Luiz Correia. Não era o meu caso, que pretendia chegar à colina, não pela praça dos poderes, mas sobretudo pela ideia de acrópole que o namoro com a leitura me apontava.

O que descia pelas águas do rio, além do olhar presente, procedera de outros leitos, das mais próximas ou distantes terras que a biblioteca de minha terra natal prodigalizava. Terra de Eudes Barros, de Manuel Tavares Cavalcanti, de José Saldanha de Araújo, de Analice Caldas, todos sem jamais tirar os olhos dos que subiram a colina e nela se espiritualizaram. Não precisa ser gênio, cintilar no firmamento como um Augusto dos Anjos, ser único. Só precisa deixar por mais algum tempo o registro de nossa vivência. Mais ainda nestes novos tempos, quando nem os ossos restam.

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Igreja N. S. Conceição (demolida em 1929)
Depois da crônica de Martinho, fui ao livro do coronel Coutinho, ele sem qualquer pretensão além da saudade, e fiz minha “alvorada”, que era, em seu tempo, o melhor da Festa das Neves. Festa que nenhum outro descreveu de forma tão comum e tão feérica. A catedral primitiva em ruínas, e saímos juntos carregando pedra e telha trazidas do rio, sob as ordens de fé do padre Francisco de Paula Melo Cavalcanti, o construtor, com o povo, do belo templo que é a Basílica de hoje. Vocês, devotos das Neves, guardaram o nome dele? E página após página, as luminárias de azeite de mamona - o fulgor mais das fogueiras que do borrão das tochas – levando-nos a uma festa inteiramente inédita aos meus olhos e à minha lembrança, não na General Osório e arredores, mas agora no largo da matriz que era a igreja da Conceição dos Jesuítas, que o grande presidente João Pessoa derrubou para reformar o palácio. Nem por isso a igreja acabou. Entrei nela ontem com o Coronel.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL
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