Sou o que se pode chamar de frutófilo desde a infância. Muito antes de a ciência enfatizar que fruta é bom para a saúde e pode ser consumid...

Psicanálise das frutas

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Sou o que se pode chamar de frutófilo desde a infância. Muito antes de a ciência enfatizar que fruta é bom para a saúde e pode ser consumida à vontade, eu já era um consumidor voraz de mangas, sapotis, laranjas e que tais. Comia-as ou chupava-as não por dever, mas pelo gosto de saboreá-las. Hoje me ocorreu indagar se não haveria algum tipo de correlação entre a preferência por certo tipo de fruta e a personalidade do indivíduo.

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Acredito não ser à toa que o sujeito prefere, por exemplo, jaca a damasco. Ou caju, a maçã. Mas comecemos pela fruta mais popular entre nós e, curiosamente, a mais carregada de simbologia: a banana.

Seu formato tem inegáveis contornos fálicos – daí que certos homens, por machismo, neguem que gostam dela. A psicanálise já observou o potencial erótico dessa fruta, que necessita ser despida para poder ser comida. Descascá-la é como proceder a um strip-tease, o que talvez explique a expressão de prazer com que muitos dão a primeira dentada.

Abacaxi e sobretudo jaca são preferidos pelas pessoas aguerridas, que não se assustam com desafios e sabem que a todo prazer corresponde um trabalho – nem que seja o de descascar e mastigar aquilo de que gostam. Caju é para os espíritos sisudos, que encaram a vida com adstringente compenetração. Fala-se também da ligação entre essa fruta e o alcoolismo, havendo quem diga que muitos se viciam em aguardente ou absinto apenas para chupar caju e, com isso, tirar o ranço da bebida.

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A maçã continua sendo o fruto proibido, mas não pelas razões apontadas na Bíblia – e sim pelo preço. Liga-se, então, aos espíritos aristocráticos e desdenhosos, que têm sobre o comum dos homens a vantagem de poder comprá-la (sobretudo a argentina). A uva, certamente por sua ligação com Baco (que era, como sabem, um deus enxerido), terminou se associando a um erotismo discreto e frívolo. Não é à toa que a mulher jovem e bonita é chamada de uva. Pela opulência da forma, no entanto, uma pera seria a metáfora mais apropriada.

Enfim, em sua doçura ou amargor, as frutas são adequadas simbolizações dos seres humanos. A diferença é que, ao contrário deles, sempre fazem bem. E agora me deem licença que eu vou terminar o meu caqui.


Chico Viana é doutor em teoria literária, professor e escritor
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