Quem já fez ou faz análise saberá apreciar esse livro. E também os leitores que, sem terem deitado no divã, gostam de boas histórias dotada...

Psicanalistas e seus pacientes favoritos

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Quem já fez ou faz análise saberá apreciar esse livro. E também os leitores que, sem terem deitado no divã, gostam de boas histórias dotadas de inegável interesse humano. Refiro-me à obra "Seu paciente favorito – 17 histórias extraordinárias de psicanalistas", da jornalista francesa Violaine de Montclos, recentemente publicada no Brasil pela Editora Perspectiva.

Sabe-se que os psicanalistas aparentam uma certa frieza profissional perante os analisandos, como se fossem imunes – e até mesmo insensíveis - aos dramas e problemas que diariamente ouvem, um atrás do outro, no consultório. Isto naturalmente faz parte do distanciamento que deve haver entre os dois sujeitos da análise,
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o psi e o paciente, de modo a evitar que uma eventual e indesejada intimidade entre ambos possa atrapalhar o bom andamento do trabalho terapêutico. O pitoresco livro da autora francesa vai provar que as coisas não são bem assim.

Realmente. As 17 histórias narradas demonstram, em pequena amostra, o que, imagino, deve ser regra entre os profissionais da psicanálise, ou seja, que os analistas, aparentemente distantes, aqui e acolá, são profundamente tocados – e afetados – por algum paciente específico, por razões as mais diversas. E mais: não raro, o processo de cura do analisando implica na solução concomitante de algum problema pessoal do próprio analista, muitas vezes problemas a que o psi não teria acesso sem a provocação proporcionada pelo caso individual do paciente. Vejam só.

Os relatos constantes do livro são os mais diferentes entre si, unindo-os apenas o fato de que são experiências concretas de profissionais respeitados e com bastante prática no ofício, o que, por si só, confere credibilidade às narrativas. Darei apenas uma rápida ideia das mesmas, para que o interesse de eventuais leitores permaneça aguçado.

Robert Neuburger conta o caso de Youri, um milionário dividido entre dois amores, sua mulher, que está com câncer, e sua amante. Um drama banal. Mas tem mais: Youri é um adúltero contumaz. Costuma apaixonar-se por mulheres, sempre acaba se cansando delas e então as abandona, com sofrimento mútuo. É quando, sentindo-se culpado, cobre as amantes com muitos presentes, como uma forma de compensar o abandono. Nas sessões, surge a revelação de que a fortuna de Youri é fruto de uma herança recebida de um tio rico, tio esse que o escolhe com herdeiro entre vários sobrinhos, encarregando-o de cuidar dos outros, os não escolhidos. E é essa eleição, essa sua “sorte”, em detrimento de outros, que lhe causa angústia e sentimento de culpa. É a verdadeira questão que Youri, sem saber, quer ver resolvida pelo analista,
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o qual, compreendendo-a em suas verdadeiras dimensões e consequências, dela toma consciência, expondo-a analiticamente não só ao analisando mas também, para surpresa sua, a si mesmo.

Neuburger, que tem 75 anos quando encontra Youri pela primeira vez, vê-se remetido para sua própria história familiar a partir dos relatos de seu inusitado paciente. Em 1939, na Alemanha, pouco antes de seu nascimento, o avô paterno do analista suicida-se. É mais um judeu que escolhe morrer a ser preso pelos nazistas. No mesmo ano, uma irmã do pai de Neuburger, para poder fugir, entrega ao irmão dois filhos para sua guarda provisória. Nesse ínterim, a mãe do analista fica grávida dele e aí surge o dilema: como não pode cuidar ao mesmo tempo dos dois sobrinhos e do filho recém-nascido, ela entrega o sobrinho mais novo a uma entidade que cuida de crianças judias. Pouco tempo depois, esse jovem sobrinho será deportado e morrerá num campo de concentração alemão, enquanto nosso analista, por conta dessa escolha materna, dessa verdadeira “loteria” da vida, sobreviverá.

Mas, como não poderia deixar de ser, o fará com imensa culpa, a mesma que acomete Youri, por ter sido escolhido pelo tio rico no lugar de seus primos. Ambos, Youri e Neuburger, não se perdoam – e sofrem – por terem, cada qual a seu modo, tomado o lugar de outros. Foi preciso então desvendar o drama de seu paciente para que o analista simultaneamente desvendasse o seu. Na verdade, enquanto Neuburger ajudava na cura de Youri, este, sem desconfiar, contribuía para a cura de seu benfeitor. Mistérios da psicanálise.

O livro conta histórias desse tipo, em que analistas e analisandos aprendem e se enriquecem reciprocamente, revelando que toda análise, assim como a própria vida, é sempre uma arte do encontro, como diria o poeta Vinícius, encontro que, naturalmente, exige abertura de cada um para o “Outro”, segredo último de toda convivência humana que se pretenda minimamente sábia, construtiva - e feliz.


Francisco Gil Messias é cronista e ex-procurador-geral da UFPB
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