Li ou ouvi que haviam depredado o monumento a João Pessoa, na praça de seu nome, e me apressei a conferir o estrago. Menino de grupo esc...

Sobre estátuas

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Li ou ouvi que haviam depredado o monumento a João Pessoa, na praça de seu nome, e me apressei a conferir o estrago.

Menino de grupo escolar do tempo que a professora saía dando aula com as estátuas, onde chego vou logo aos monumentos, às estátuas de rua, para só depois parar na igreja. Vi primeiro São Bento, quando desci aqui, porque fica na passagem, quase encostada à cabeça da ladeira que vem da Casa do Estudante. Precisava ser toupeira para não demorar a vista na bela igreja do leão.

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G. Romero
O monumento a João Pessoa é a mais robusta e harmoniosa das nossas esculturas. Falo por Mário Di Lascio. De uma força ou poder que o faz respeitado e intocado até hoje, mesmo pelos remanescentes da facção contrária ao herói. E corri lá, 7 da manhã, a vaga do idoso ainda aberta.

Não, não vi nenhuma depredação de monta em qualquer das esculturas ou nalgum dos seus símbolos. O que falta, há anos, é a folha da espada romana ou grega de um dos figurantes, quebrada e levada sem que nenhum governo se advirta de que, para isso, há conserto. Suponho que haja, mas o conjunto é de uma harmonia tão poderosa que não dá para levar muito em conta o defeito. Na negligência o defeito já faz parte do conjunto.

O projeto arquitetônico, como lembra Abelardo, é de Clodoaldo Gouveia, o mesmo do Instituto de Educação (Liceu hoje), da Secretaria das Finanças, na cidade baixa e da Rádio Tabajara, destruída em sua antiga sede para ceder o lugar ao anexo do Palácio da Justiça. As esculturas são de Humberto Cozzo, o mesmo que, numa obra de volume menor - o busto de Augusto dos Anjos - erguido no Parque Solon de Lucena, não a fez menos expressiva.

No meu modo de ver, o maior feito de Luciano Cartaxo, entre suas iniciativas, foi permitir que a pequena escultura ganhasse a homenagem do espaço franco e livre tomado pelo antigo estacionamento. Hoje a herma cresceu, depois de bem exposta aos olhos de todos numa generosa clareira do bosque, confronte a entrada da rua Souto Maior. Não precisava aumentar-lhe o pedestal ou agregar-lhe melhor ornamento que umas florinhas de beira de estrada ao rés do pedestal.

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IBGE
A história dessa escultura foi contada por Virginius da Gama e Mello numa crônica que o representa na antologia da Prosa Paraibana, editada no tempo de Neroaldo Pontes como secretário de Educação. O Estado, em meado dos anos 40, prometera patrocinar a obra escultórica sugerida pela Academia de Letras e a Associação Paraibana de Imprensa. Como demorasse muito, o jornalista Waldemar Duarte foi ao atelier de Cozzo. E a encontrou já empoeirada a um canto, à espera do pagamento. O escultor se comoveu a tal ponto com o desengano do interessado que abriu mão do pagamento, deixando que o nosso Duarte embarcasse de volta com seu belo feito. A API de José Leal arranjou o pedreiro, e outro poeta, que não disseram o nome, plantou ao lado o tamarindo que representa, no parque, o original do Engenho Pau d’arco.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL

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  1. Triste constatação esta de nosso Gonzaga.
    Não é apenas o monumento a João Pessoa que sofre a sanha dos "maledettos" pessoenses.
    Infelizmente não são apenas os bustos e monumentos a sofrer mutilações as mais diversas, como bem assinala Gonzaga.
    São recantos históricos ou bucólicos que sofrem com o abandono do poder público ou com intervenções inconsequentes desses gestores que parecem não ter nenhum compromisso com a cidade.

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