Quando entregamos os livros para crianças daquela comunidade rural e vendo a menina sentada à mesa, folheando a obra de Monteiro Lobato, d...

A menina dos livros

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Quando entregamos os livros para crianças daquela comunidade rural e vendo a menina sentada à mesa, folheando a obra de Monteiro Lobato, descobrindo o invisível das palavras, foi um momento de emoção e de agradecimento para nós.

Grande foi o contentamento vendo a menina de sete anos lendo um trecho do livro “A Chave do Tamanho”, e todos escutando silenciosos e atentos.

Lembrei-me de quando criança, solitário e macambúzio, começando a soletrar palavras aos nove anos. Um ingresso atrasado à escola que tento recuperar seis décadas depois,
mas para Jamele Maria o livro chegou mais cedo, mesmo residindo numa terra desprovida de vegetação e poeirenta como o sertão de Bonito de Santa Fé.

Olhava calado, lembrando o meu tempo de menino em Tapuio, e depois no Grupo Escolar Francisco Duarte, em Serraria, quando começava a desasnar com a professora Iranete Wanderley, quando eu soletrava com dificuldade as palavras.

Ao gesto de Jamele, outras crianças se juntaram para manusear os livros colocados na rústica estante feita com madeira reciclada, mas o modo como ela tratava os livros era diferente e lendo, pronunciava as palavras com emoção. Foi quando me lembrei de Serraria, terra onde descobri os primeiros devaneios causados pelas palavras escritas.

Naquele momento eu era a criança que viveu na rudeza do meio rural, quando folheava o livro sem degustar seu conteúdo. Quando me deparei com a garota protagonista do romance “A Menina que Roubava Livros” de Markus Zurak, foi um deslumbramento, semelhante ao que sentia quando olhava a pequena sertaneja com os livros.

A personagem Zurak, a pequena Liesel era uma menina de dez anos, residente numa cidade alemã atormentada pela guerra. Afeiçoada por história, ela salvou livros que ardiam na fogueira dos nazistas. Os livros que roubava ajudaram na construção e identificação de sua gente, reconstruindo a sua própria identidade.

Num ambiente de hecatombe e atrocidade patrocinada por um tirano, que destruiu sonhos e a vida de milhões de pessoas reduzidas à cinza, Liesel sonhava com a partilha do livro para melhorar o mundo. Bem perto de nós, muitos anos depois, num lugar distante, enfrentando intempéries de uma guerra diferente, uma menina do Sertão alimentar-se-ia de leituras sem a baioneta mirando seu coração.

As situações são diferentes, mas a energia silenciosa para a construção da liberdade é a mesma. As duas estão unidas pela força que a arte carrega, apesar de um longo período, em que os fatos aconteceram.

A menina que viveu no outro lado do oceano, numa terra banhada de sangue e povoada de crueldades, desejava o mundo sem barbaridade. Tantos anos depois, noutra terra perto de nós, aspergida pela brisa morna nas noites estreladas e lambuzada pela poeira que a caatinga íngreme expele, uma guria de pele queimada pelo sol tropical mostrou que nem tudo está perdido quando se tem um livro nas mãos. As viagens proporcionadas pelas leituras, ao seu tempo, são alimentos que precisamos para a reconstrução do mundo.

Coloquemos livros nas mãos das crianças e veremos que o mundo se modificará de forma magnificamente para o bem.


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