Parte 1: Barcelona No final de 1989 o Brasil vivia a expectativa da posse do novo presidente, Fernando Collor de Melo, recentemente eleit...

Avant-Première na Europa (1)

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Parte 1: Barcelona


No final de 1989 o Brasil vivia a expectativa da posse do novo presidente, Fernando Collor de Melo, recentemente eleito sob o signo da mudança.

Ao longo de sua campanha ele vendeu a sua imagem resumida a “Caçador de Marajás.” Não tendo programa de governo, Collor prometia combater a corrupção e acabar com privilégios.

A campanha foi veiculada pela grande mídia, escrita e falada, bem representada pela Rede Globo, a revista Veja e os jornais Estadão e Folha de São Paulo. Todos esses veículos temiam a eleição de Leonel Brizola, e fizeram de tudo para que ele fosse derrotado.

Collor havia sido democraticamente eleito, na primeira eleição livre e direta, após 21 anos de ditadura militar e seis anos de governo incompetente de José Sarney, que gerou uma inflação galopante, entre outros malefícios. Sarney havia sido eleito em pleito indireto, como vice de Tancredo Neves. Porém este morreu antes da posse, para azar do Brasil.

Em dezembro de 1989, três meses antes de sua posse, o Brasil foi varrido por boatos que vinham inquietando a população produtiva, e a classe média em especial, de que o novo presidente iria tomar medidas para restringir a circulação de dinheiro, para conter a inflação galopante herdade de Zé Sarney. Diante disso o novo presidente procurou logo sossegar a população, renovando a promessa de campanha de que iria respeitar a poupança. Nem todos acreditaram, como verão logo abaixo.


Em final de novembro de 1989 eu havia recebido em meu consultório uma carta que me deixou com água na boca. Era um envelope elegante, que exibia um escudo e uma bandeirinha de fundo amarelo, listrada com faixas vermelhas.

Continha um convite do Governo da Catalunha para participar de um curso de cardiologia pediátrica de uma semana em Barcelona, promovido pela administração catalã, que pagaria a hospedagem e as refeições. As passagens seriam por minha conta.

Depois nós ficaríamos sabendo que o curso era uma das muitas iniciativas que o governo catalão fazia para promover a cidade.

Saí do consultório sonhando: uma semana na Espanha... Justamente em Barcelona, cidade que eu “conheço” desde a minha infância, tantas leituras sobre ela... Gaudí, Dali, Parque Güel, Las Ramblas Cataluñas... Ahhh, suspirei!

Pois esses são lugares tão familiares para mim, um apaixonado pela Espanha, país para o qual despertei a partir de um disco que papai comprou quando eu era ainda menino, com músicas do clássico espanhol.

Lembro-me bem da sua capa: preta e amarela, com um touro vermelho e o perfil do mapa da Espanha. Das vinte músicas as que mais recordo são La Dance Du Feu e Andaluzia. Quantas lembranças desfilaram pela minha mente, a caminho de casa... Contei a Ilma. E ela, como sempre, me animou: “Você sempre teve vontade de conhecer a Espanha, desejos de ir à Europa. Chegou a hora.” Mas eu estava preocupado com o futuro do país, e o custo de uma grande viagem. E ela vaticinou: “Zé Mário, esse novo presidente é louco e imprevisível. Com certeza vai meter a mão nas posses de todos nós, brasileiros. Vamos raspar a nossa poupança e vamos embora, desfrutar desta oportunidade!”

Isso me deixou mais animado. Fiz o planejamento e os cálculos do custo de uma viagem mais longa, incluindo a França. Recolhi as nossas posses. Mamãe e papai, que ainda estava lúcido, contribuíram. Ilma vendeu o carrinho dela e transformou o dinheiro em dólar: 1.500 US!

E partimos para mais uma deliciosa aventura em nossa vida!


Chegamos a Barcelona no vôo da Ibéria procedente de São Paulo, e fomos logo para o nosso hotel, no Passeio de Gracia, centro da cidade.

Barcelona é uma cidade predominantemente moderna, quando comparada a Madrid, que conserva arquitetura mais anciã. Porém ainda conserva muitos exemplares da antiga arquitetura.

Deixamos as malas no hotel e partimos para conhecer a obra de Gaudí mais próxima: a Casa Milà. Ficamos impressionados com as linhas curvas, características das obras de Gaudí. Estava fechada. Havia dezenas de japoneses em frente, fotografando o edifício.

Tomamos o metrô, quase em frente, e fomos para a Casa Batlló, na próxima estação. Menos imponente que a Casa Milà, porém tão interessante quanto a primeira, projeto arquitetônico semelhante. Também estava fechada, e havia dezenas de japoneses fotografando, à sua frente. Eu jurava que era o mesmo grupo da frente da Casa Milà. Como será que eles chegaram tão rápido? No dia seguinte fomos para o Curso de Cardiopediatria, no Hospital Universitário Sagrado Coração. Este sempre terminava no início da tarde, o que nos deixava o tempo livre para conhecermos a cidade.

Ao longo da semana conhecemos lugares maravilhosos: o Parque Güell, com seus dragões e árvores moldadas em cimento. A imensa e bela Sagrada Família, igreja interminável com as suas imensas torres.

Descemos as famosas Las Ramblas de la Cataluña, até chegarmos ao porto. Lotadas de gente, turistas de tudo quanto é nacionalidade (japoneses predominando), e também catalães, todos ocupando às tapas (no sentido espanhol) os seus muitos bares, e também espalhados pelas calçadas da interessante avenida, que é uma visita imperdível em Barcelona.

Percorremos as ruas tortuosas e estreitas do interessantíssimo Bairro Gótico, e de lá fomos visitar o Museu Picasso de Barcelona. Fomos informados que, muitos séculos atrás, os judeus foram confinados pelo rei dentro dos limites do Bairro Gótico, Isso explica as ruas muito estreitas e tortuosas, e as casas empilhadas umas sobre as outras. E os japoneses sempre nos seguindo. No outro dia subimos ao Montjuic, o Monte do Judeu. Lá de cima, utilizando lunetas pagas, podemos descortinar toda a cidade, tendo o porto à nossa frente, lá embaixo, com a elevada estátua de Cristóvão Colombo se destacando. Eles disponibilizam lunetas para os visitantes. Pagas, é claro!

Depois descemos até o Poble Espanyol. Este é um local interessantíssimo, pois concentra todos os exemplos da arquitetura de todas as regiões da Espanha. São castelos, torres, haciendas, muralhas, arcos, ameias, pilares, e todos os tipos de construção. Assim de japoneses espalhados, fotografando tudo o que viam…

Barcelona tem muito a oferecer. Anos depois retornaríamos, complementando ainda mais o nosso conhecimento sobre a bela cidade.

No sábado embarcamos para a próxima etapa: conhecer Paris, a Cidade Luz!

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  1. Adorei sua narrativa motivacional...‼Sim caro José Mário Espínola!!
    Fizeste muito bem!!! parabéns🤜🤛
    Paulo Roberto Rocha

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  2. Ah, que saudades dessa cidade magnífica e radiosa.
    Roteiros que só deixam ricas lembranças, notadamente se ao seu final a parada é nas Ramblas, para tomar uma jarra de sangria, olhando o mundo passar.
    E o encanto se torna ainda mais marcante, se esse cansaço decorre de um dia transcorrido nos becos e vielas medievais de Toledo, onde se manifesta a relembrança de Don Quixote de la Mancha, ao visitar a cutelaria que se diz fornecedora das armas desse nobre espanhol.

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