Levei muito a sério aquela máxima escrita em alguma página do Livro Sagrado: “Crescei-vos e multiplicai-vos”. Não sei se cresci tanto as...

A raspa do meu tacho

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Levei muito a sério aquela máxima escrita em alguma página do Livro Sagrado: “Crescei-vos e multiplicai-vos”. Não sei se cresci tanto assim, mas multipliquei com força. Sete!

Penso cá comigo, que o “crescei-vos” aí dito, está no sentido do crescimento demográfico e não do indivíduo isoladamente. Numa interpretação ou noutra, levei mesmo a sério a segunda parte desse ordenamento.

Muitas criaturas que andejam por aí com a Bíblia no sovaco alardeando apreço às escrituras não cumpriram sua parte nesse quesito. Fiz o que me cabia. No entanto, quis o destino que dessas sete jóias, eu tivesse que devolver duas delas. Quem não passou por isso desconhece quão doloridas se tornam essas perdas. Muito difíceis, mas a vida também nos dá lições de superação e resiliência;
então vamos tocando nosso barco devagar, como faz o velho marinheiro se o nevoeiro à sua frente for espesso e perigoso.

Quando alguma pérola cair do colar e se perder, o jeito é distribuir simetricamente as demais de forma tal que outros olhos não percebam aquela ausência. Tive que rearranjar aquelas contas preciosas duas vezes. Tarefa difícil, mas qual um ourives paciente e minucioso, dei conta da tarefa e estou aqui na luta com esses escritos para dizer que ainda tenho disposição para inaugurar a vida toda vez em que o Sol me aparece pelas manhãs. Tem que ser assim.

Daquelas contas que restaram nesse colar e que estão ali para encherem de luz os meus dias, tem umazinha que me inspirou a rabiscar estas linhas. Exatamente aquela que esse joalheiro chamado destino incrustou nesse adorno ao dar por encerrada essa sua tarefa. É a minha raspa de tacho.

Chegou por aqui vinte quatro outonos antes desse que estamos vivendo. Safra única de um segundo casamento, foi acolhida com carinho pelos outros seis que completavam a prole e nunca os teve como “meio irmãos”; foram sempre irmãos por inteiro, benquerença da parte dela e deles.

Quem a vê hoje, não consegue imaginar que essa belezura toda veio à luz parecendo um camundongo assustado. Dizia eu à época que eram duas orelhas com uma menininha no meio. As orelhas, ainda bem, não cresceram, a menininha sim.

Foi crescendo com a dádiva de cativar as pessoas. Até a mãe de seus irmãos da outra parte (a ex desse escrevinhador) caiu de amor por ela. Diz ser sua “mãe torta” e é só chamego de uma com a outra.

Cauê, uma das jóias que devolvi, foi o primeiro a pegá-la no colo ainda na maternidade e fez sempre questão de demonstrar esse afeto. Ficou a saudade, também de Janaína que se foi precocemente. Hoje essa raspa de tacho toma sempre um tempinho para ficar proseando com os outros quatro que com ela dividem o carinho desse pai corujíssimo.
Desconfio até que nessas conversas eu seja o assunto e nem sempre com lisonjas para comigo. Filhos são assim, como nós fomos também. Essa minha “maguinha”, Gabriela, está se “engenheirando”, em final de curso, estagiando. Vai ganhar asas muito logo e meu ninho irá ficar vazio, meu coração apertado, mas com a doce sensação que deixei coisas boas para darem continuidade ao mágico ciclo da vida; essa inevitável troca de gerações, onde as novas vão tomando lugar das antigas. Não é assim?

Puxou à mãe nos traços e na índole. Autoritária que só. Nesses tempos de pandemia é uma sentinela atenta sempre fiscalizando minhas atitudes. Pai não faz isso, pai não sai de casa, pai põe a máscara. Lava a mão, passa álcool em gel depois; e por aí vai, restringindo algumas de minhas liberdades. Mas meus leitores, minhas leitoras, como é doce essa tirania!

Por fim, tenho que agradecer a esse respeitável rotativo por me permitir levar aos leitores essas palpitações que andam me espreitando nessas emboscadas que alma nos prepara. Essas tocaias, ainda bem, podem se revelar saborosas, como esta que me emboscou no último dia quinze pela vigésima quinta vez.

Que O lá de cima ainda me permita ver essa minha ponta de rama soprando velinhas muitas outras vezes. Ela e os outros quatro. Minha crônica hoje é curtinha, inversamente proporcional ao tamanho do meu abraço. Vá minha filha, estarei sempre por aqui quando você me julgar necessário. Afinal, pai também é para essas coisas.

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