Depois da safra do caju, no rastro das primeiras chuvas do ano, nossos olhares estavam direcionados às jabuticabeiras existentes no sítio....

Jabuticabeiras de Serraria

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Depois da safra do caju, no rastro das primeiras chuvas do ano, nossos olhares estavam direcionados às jabuticabeiras existentes no sítio. Ao veranico de janeiro, essa fruteira logo dava resposta com saborosos frutos que recolhíamos dos galhos ao alcance das mãos. Frutos que fazem-me lembrar a cabocla Grabriela, menina de olhos amorenados, que admirava com desejo ajuizado.

Em Serraria, principalmente em Tapuio dos Nunes e Alagoinha dos Mendes, a paisagem sempre foi propícia ao cultivo de jabuticaba. Jabuticabas eram encontradas em outros lugares, inclusive nos quintais das casas. São bonitas as fileiras dos frutos escuros coladinhos aos galhos.

Assim como as palmeiras, que são o símbolo de nossa terra, a jabuticaba merece referência especial, estando a exigir um olhar especial por parte dos administradores municipais para essa cultura que poderá se transformar numa importante fonte de renda familiar.

Existem em Serraria agricultores que fabricam licor, vinho e outros produtos derivados dessa fruta, entretanto ainda é preciso fomentar o acesso ao mercado consumidor.

Sobre a ideia de que a jabuticaba demora para se produzir, a ciência prova o contrário. Antigamente se plantava essa fruta para os netos consumirem, mas esse conceito é coisa do passado. As novas técnicas de produção de mudas, que são provenientes também daqui da Paraíba, permitem a colheita em pouco tempo. A nova variedade de jabuticabeira não cresce tanto, facilitando o manuseio. Nesta semana recebi uma cesta com jabuticaba de Serraria, que me fez recordar o tempo quando morava em Tapuio, e lembrou-me de minha vizinha Grabriela. Um tempo de abundantes estripulias pelo campo, com banhos em açudes, constantes escapulidas para chupar cana escondidos nos partidos.

Quando passava a safra do caju, que ocorre em período menos chuvoso na nossa região, entre outubro e dezembro, com as chuvas de janeiro a paisagem rural se transformava por completo, as flores ressurgiam, as árvores mudavam a folhagem.

Nos pés de jabuticaba existentes em volta da casa, logo surgiam florezinhas miúdas, embranquecidas, grudadas aos galhos, quase sem cheiro. Não demoravam a aparecer frutos enveredados que rapidamente mudavam de cor.

Certa vez, quando as jabuticabeiras estavam no ponto da colheita, encontrei-me com Gabriela. Nesse dia percebi a irrupção do desejo dela por frutos grandes que avistou por entre as folhagens. Como na narrativa de José de Alencar, o índio Peri tudo fazia para atender aos desejos e encantos de Cecília, dependurado nos galhos, colhi os frutos do desejo da menina pidona. Tendo recebido os maiores, com a prenda nas mãos, Grabriela pôs-se a goelar e, cada gaitada, apareciam dobrinhas no rosto amorenado de pele macia.

Em outras oportunidades, ficávamos boa parte da tarde em conversas de adolescentes, às vezes andando pelos soutos que beiravam um riacho que servia de limites com o engenho dos Carvalhos, achávamos divertido atravessar as barrocas, catar feijão no roçado, buscar água na cacimba em latas e potes de barro.

Tudo ensejava a gostar dela, assim como das jabuticabas e outras frutas que recolhíamos nos pomares a cada período das safras de caju, de manga, de laranja, de goiaba, araçá. Não sei por anda Grabriela, mas das jabuticabas continuamos consumindo os frutos, recordando aqueles tempos perdidos na memória.

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