Eneias é herói. A palavra, per se , já nos diz muita coisa, quando se refere aos tempos míticos da narrativa clássica. Se alguém tem algum...

A vida é trabalho

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Eneias é herói. A palavra, per se, já nos diz muita coisa, quando se refere aos tempos míticos da narrativa clássica. Se alguém tem alguma dúvida a respeito de sua significação, há toda uma tipologia do herói, que pode ser recolhida das páginas da Ilíada e da Odisseia. Dentre as tantas características, escolhemos duas, para não cansar o leitor: o herói é aquele ser, em geral descendente dos deuses, que realiza feitos impossíveis aos homens comuns; o herói deve ser piedoso, no sentido da religiosidade greco-latina, devendo temer, respeitar e oferecer sacrifícios aos deuses, estendendo essa piedade ao pai.

Escolhido e assinalado pelos deuses pela sua piedade – insignis uir pietate – como se encontra no proêmio da Eneida, verso 10, Eneias deverá enfrentar muitas provações, um dos sentidos da palavra lăbŏr, no latim,
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e termo recorrente na épica virgiliana, ao ser impelido pelos Fados, a uma viagem dificultosa, sendo constantemente jogado de um lado a outro, por terra e pelo mar – terra marique. Só o enfrentamento dessas dificuldades, com a demonstração de que as provações devem ser enfrentadas e vencidas, é que fará de Eneias o verdadeiro herói, pai da gens troiana que escapou dos Argivos – nome comum dados aos Gregos –, e, como ele próprio diz, reliquias Danaum atque immitis Achilli (Livro I, verso 30), “restos dos Dânaos e do cruel Aquiles”, sendo Dânaos um epíteto que remonta à ancestralidade dos povos gregos, tanto quanto Argivos diz respeito à região de Argos. No mundo homérico não havia ainda Grécia, mas uma série de cidades-reinos, que se juntaram num exército de coalizão, sob o comando do Senhor dos Senhores (ἄναξ ἀνδρῶν) Agamêmnon, reinando sob Argos e Micenas. Virgílio deveria ser e foi coerente com o seu modelo.

Sendo mais específico, com relação ao herói, Eneias deve trabalhar duro para poder ter as recompensas acenadas pelos deuses, depois de tantas perdas sofridas – a perda da cidade, invadida, saqueada e incendiada pelos Argivos; a perda da esposa Creúsa, que os deuses não permitem ir com ele ao novo destino, por ela mesma anunciado; a perda do pai, em Drépano, na costa ocidental da Sicília; a perda de Dido, que se suicida, pela partida do herói, e as perdas das cidades construídas, ao longo da sua viagem até atingir o Lácio, onde à margem do Tibre, deverá fundar um novo reino, ao lado de uma esposa régia, no caso Lavínia, assim como o reino se chamará Lavínio.

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Uma das passagens mais claras, a respeito do que o herói deve fazer, ao longo dessa difícil empreitada, que é ultrapassar os mares e cidades infestadas do inimigo argivo, é aquela proferida por Creúsa a Eneias, quando ela lhe aparece como um fantasma (simulacrum, Livro II, verso 772). Creúsa lhe diz, entre outras coisas, que ela não poderá acompanhá-lo, é uma decisão dos deuses que ela fique, mas ela não servirá aos soberbos Mirmidões, Dólopes ou Graios, todos povos dos Dânaos, pois a grande deusa-mãe, Cibele, a retém naquelas plagas. Isto significa que ela será sacerdotisa de Cibele, uma honra a ela concedida, por ser nora de Vênus, vez que Eneias era filho da deusa do Amor.

Chamamos atenção, no entanto, para 4 versos, na fala de Creúsa (Livro II, 780-784), com tradução operacional nossa, em que, de modo claro, a troiana filha de Príamo diz a seu marido Eneias que não há recompensa sem trabalho e muito trabalho, trabalho duro:

Lōngă tĭbī ēxsĭlĭă ēt uāstūm mărĭs ǣquŏr ărāndŭm, ēt tērrăm Hēspĕrĭām uĕnĭēs, ŭbĭ Lȳdĭŭs āruă īntĕr ŏpīmă uĭrūm lēnī flŭĭt āgmĭnĕ Thȳbrĭs; īllīc rēs lǣtǣ rēgnūmquĕ ēt rēgĭă cōniūnx pārtă tĭbī.
Para ti, longos exílios e a vasta planície aquosa do mar deverá ser arada, e chegarás à terra Hespéria, onde entre campo fértil dos homens, com curso suave, flui o Lídio Tibre; lá, riquezas abundantes, um reino e uma régia esposa foram engendrados para ti.

Os versos, em latim ou em português, não deixam dúvida no que diz respeito à necessidade de trabalho para que se possa obter algo. Mais esclarecedor ainda é o fato de que não se trata de um trabalho qualquer,
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mas de algo que leva tempo, que exige um esforço na sua construção. Em primeiro lugar, vemos que o herói deverá passar por longos exílios, em cuja viagem “a vasta planície do mar deverá ser arada”. Ora, em latim, de modo a exprimir o labor necessário, o poeta usa o gerundivo, um adjetivo verbal, com sentido passivo e de uma obrigatoriedade inquestionável – arandum.

A obrigatoriedade de arar o mar não é só uma realidade na criação do herói mítico, passando também a ser uma metáfora de que a terra só se torna fértil, depois de ter sido trabalhada e semeada. Apenas assim Eneias poderá encontrar “o campo fértil/dos homens, onde, com curso suave, flui o Lídio Tibre”. A vida aparece, então, como trabalho e semeadura, sem os quais não haverá germinação e frutificação, “as riquezas abundantes” de que fala o poema.

Para todos nós, foram engendradas riquezas abundantes, que não devem ser tomadas ao pé da letra, como riquezas materiais, mas aquelas que semeamos ao longo de nossa vida, desenvolvidas no trabalho que realizamos. A vida, na ficção ou na realidade, forjando o herói ou o homem comum, é trabalho constante, o que não exclui a possibilidade do lazer e do prazer. Não somos heróis míticos, mas igualmente fomos escolhidos por Deus para realizar, cada um a seu tempo, o trabalho incansável, que há de tecer o nosso destino, ainda que muito tenham tomado literalmente a ironia de Ascenso Ferreira, no jocoso poema “Filosofia”:

Hora de comer – comer! Hora de dormir – dormir! Hora de vadiar – vadiar! Hora de trabalhar? – Pernas pro ar que ninguém é de ferro!

Para esses, que pensam em pular as etapas de preparação e semeadura, pensando apenas na colheita farta, os exílios serão ainda mais longos e a imensidão do mar a ser arada parecerá infinita.

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