“Descobrir que povos de caçadores, pescadores e apanhadores de frutos foram capazes de construir Göbekli Tepe é como descobrir que alguém havia construído um avião 747 com um estilete.”
Klaus Schmidt, arqueólogo e professor em arqueologia pré-histórica
Göbekli Tepe (em turco: “colina da barriga”), é um sítio arqueológico localizado numa montanha de aspecto bizarro, a 15 km de Şanlıurfa, no sudeste da Turquia (distante 60 km da fronteira com a Síria) que remonta ao período Neolítico, cerca de 9600 a.C. Declarado Património Mundial da UNESCO em 2018, é imensa a sua importância para a história da Humanidade. É considerado o templo
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mais antigo conhecido (ao que se supõe antecedendo Stonehenge em mais de 7.000 anos). Terá sido descoberto em 1963, embora as escavações mais significativas tivessem começado em 1994, lideradas pelo arqueólogo alemão Klaus Schmidt.
A montanha enigmática, criada artificialmente pelo homem, mede agora aproximadamente 300 metros de diâmetro. No seu interior localiza-se um dos mais impressionantes tesouros arqueológicos jamais descobertos. Vários megalitos de calcário em forma de T, alguns com mais de 5 metros de altura e pesando entre 12 a 28 toneladas, estão dispostos em formações circulares concêntricas. Diversas dessas formações encontram-se posicionadas umas sobre as outras: cada círculo concluído era coberto com terra, e o processo recomeçava no mesmo local. Só isso exigiria uma organização muito mais complexa do que supostamente os nossos antepassados poderiam ter exercido, uma vez que tudo isso foi feito numa época em que não se conhecia a escrita, a metalurgia do cobre, do bronze ou do ferro, a cerâmica ou a roda.
Vista aérea de Göbekli Tepe, no sudeste da Turquia, mostrando a colina artificial que abriga os recintos rituais mais antigos conhecidos, construídos por caçadores-coletores há mais de 11 mil anos. ▪ Imagem: Unesco.
A ausência de ferramentas metálicas, rodas ou animais de carga faz com que a construção destas estruturas impressionantes seja ainda mais enigmática. As hipóteses sugerem o uso engenhoso de alavancas, trenós de madeira e trabalho comunitário massivo, mostrando que a cooperação em grande escala já existia muito antes das primeiras cidades.
Enquanto alguns dos megalitos são lisos, outros foram esculpidos nas suas faces mais largas com relevos de animais representando leões ferozes, javalis agressivos, raposas, escorpiões armados para atacar,
Pilar em forma de T de Göbekli Tepe, com relevo de um mamífero, esculpido como parte de um elaborado sistema simbólico e ritual. ▪ Foto: Zhengan, via Wikimedia.
garças, patos, formigas e insetos não identificados, além de símbolos abstratos e figuras humanoides. Os blocos centrais maiores têm entalhes de mãos, braços e pernas, mas não apresentam olhos, bocas ou mesmo faces podendo representar figuras antropomórficas assexuadas.
O significado exato dos símbolos e gravuras continua a ser um dos grandes mistérios. Algumas teorias sugerem que os animais representados podem estar ligados a constelações e a eventos astronómicos, enquanto outras propõem que são símbolos de clãs, espíritos protetores ou entidades mitológicas. A ausência de textos escritos torna a interpretação difícil, mas a riqueza e a repetição de certos motivos indicam que Göbekli Tepe era muito mais do que uma estrutura física - seria um templo vivo de significados, crenças e saberes ancestrais transmitidos através da pedra. Esta linguagem simbólica abre novas janelas sobre o pensamento espiritual e intelectual dos primeiros construtores de monumentos da humanidade.
Pilares de pedra de Göbekli Tepe, esculpidos com figuras de animais como javalis, serpentes e aves, revelam um elaborado repertório simbólico criado por grupos caçadores-coletores há mais de 11 mil anos. Imagens: Dosseman /// S. Fleckney, via Wikimedia.
Ferramentas de sílex, restos de material vegetal e dezenas de milhares de ossos de animais selvagens, principalmente de gazelas, foram ali descobertos. A ausência de fossas de lixo, lareiras ou outros sinais de vida doméstica indique que provavelmente não se trataria de um assentamento permanente, mas um local ritualístico, um centro religioso ou de culto. Os vestígios de ossadas encontrados nos canteiros arqueológicos mostram o que era consumido durante a construção desses círculos. Seriam ossos de gazelas e de outros animais caçados muito longe dali e trazidos para servirem de alimento.
Detalhes de um recinto circular em Göbekli Tepe, com bancos de pedra adossados às paredes, indicando um espaço planejado para rituais coletivos no início do Neolítico. ▪ Fotos: Mehdi /// Aksu.
Não havia nenhuma fonte de água natural no lugar. Evidentemente havia necessidade de uma boa organização para que essa construção fosse feita e, no entanto, não foram encontrados vestígios de alguma estrutura social hierarquizada. E a pergunta retine: quem organizava essas centenas de pessoas necessárias para cinzelar, erguer e arranjar as pedras necessárias? O que terá levado a população de Göbekli Tepe a organizar-se para construir um templo antes mesmo de se organizar para a agricultura?
Recinto circular de Göbekli Tepe, com pilares dispostos ao redor de um par de colunas centrais.
Obviamente havia uma necessidade emocional, interna, uma necessidade comum aos homens, de reverenciar um deus ou muitos, de idolatrar as forças que os governavam, para cultuar os favores da caça e da pesca abundantes, do renascimento constante de frutos e folhas. Certamente haveria alguma ordem social, que nos escapa hoje, responsável pela construção do local e também pela organização dos fiéis. Existiriam rituais, cantos, tambores, festas. E com o passar do tempo, da própria necessidade de alimentar os visitantes, agrupados ali para as cerimónias, tivesse surgido a necessidade de garantir uma certa quantidade de comida.
Uma das maiores surpresas associadas a Göbekli Tepe é o facto de ter sido construído por grupos de caçadores nómadas, que supostamente não tinham sociedades organizadas nem estruturas hierárquicas complexas. É intrigantes que, em determinado momento, as estruturas de Göbekli Tepe foram deliberada, sistemática e cuidadosamente soterradas com toneladas de escombros. A razão desta medida radical não está bem definida.
Um dos pilares centrais de Göbekli Tepe, com relevo animal, integrado ao recinto de rituais e reuniões.
As teorias variam, desde o facto de poder ter sido um ritual de encerramento simbólico, um demasiado aumento da comunidade que terá levado à impossibilidade de sustentação das pessoas, o crescimento das cidades somado à multiplicação das vertentes religiosas esvaziando o culto ali praticado, o resultado de mudanças culturais profundas ou até uma proteção contra invasores, ou catástrofes naturais.
Outro aspeto que impressiona, além da idade dos monumentos, é que ainda não se descobriu tudo o que se encontra sob a terra. Até à 12ª e última campanha conhecida, encerrada em Outubro de 2006, cerca de quatro destes círculos foram descobertos, totalizando apenas 40 rochas expostas. Porém, estudos geomagnéticos indicam que existem mais de 240 rochas sob o solo, ou 16 novos conjuntos circulares ainda intocados. Mais um sinal que indica a existência de muitos estratos incólumes são as rochas achadas nas pedreiras, que se posiciona a 1 km do centro do sítio, com cerca de 9 metros de comprimento. O detalhe é que não desenterraram nenhuma pedra desse tamanho nos círculos já expostos. Isso pode levar a concluir que, nas camadas mais profundas,
“A história da humanidade começa não com a agricultura, mas com a busca pelo sagrado."
Klaus Schmidt
ainda vão ser localizadas pedras deste porte, além de muitas outras surpresas.
Göbekli Tepe é um lugar extraordinário. Ao surgir da areia do tempo, não só trouxe novas luzes sobre a sua arqueologia, como também obrigou a humanidade a repensar a sua própria história. Quando o templo foi construído ainda não tinha ocorrido a chamada Revolução Neolítica, que trouxe o domínio das técnicas agrícolas e de domesticação de animais, datada de 10.000 anos atrás. Este fenómeno agrícola é considerado o marco inicial do desenvolvimento humano, pois a partir dele o homem passou a fixar-se nos sítios produtivos e assim pôde estruturar as primeiras comunidades organizadas. Na verdade, Göbekli Tepe é muito mais do que um conjunto de pedras antigas:
Recinto monumental de Göbekli Tepe, protegido por cobertura moderna e equipado com passarelas para visitação turística. ▪ Foto: B. Berili.
é um portal para um tempo em que o ser humano, ainda caçador, já olhava para o céu e questionava o seu lugar no universo. A sua descoberta abalou as ideias tradicionais sobre o nascimento da civilização, mostrando que a espiritualidade, a cooperação e a arte complexa precederam a sedentarização e a agricultura.
Ao explorarmos as colunas silenciosas de Göbekli Tepe, testemunhamos a força do espírito humano. Um espírito que, há mais de 11.000 anos, já erguia monumentos em honra do invisível e do eterno. Cada nova escavação no local reforça a ideia de que a origem da religião, da cultura e da organização social é muito mais antiga e intrincada do que se pensava. Göbekli Tepe ensina-nos que a busca pelo sentido é tão essencial para a nossa espécie quanto a necessidade de sobreviver. Hoje, enquanto o mundo moderno continua a avançar em ritmo acelerado, olhar para Göbekli Tepe é recordar que o impulso para criar, acreditar e celebrar a vida é parte fundamental da nossa essência. Ontem, hoje e para sempre.
Vista aérea de Göbekli Tepe, à epoca das excavações, revelando os recintos circulares e a complexa organização de um dos mais antigos centros rituais conhecidos da humanidade. Imagem: Unesco
Pelas suas características, Göbekli Tepe, Karahan Tepe, Sayburç e Taş Tepeler são atualmente as descobertas mais importantes da história do mundo. Göbekli Tepe continua a ser um dos sítios arqueológicos mais enigmáticos, oferecendo novas percepções sobre as primeiras sociedades humanas e as suas práticas culturais e religiosas, tendo alterado significativamente a compreensão dos arqueólogos sobre a pré-história humana, indicando que a capacidade de construir monumentos megalíticos pode ter surgido antes do desenvolvimento de assentamentos agrícolas permanentes.
Göbekli Tepe, com estrutura de proteção contra intempéries. O local é muitas vezes chamado de ponto zero da história. Construído por grupos de caçadores-coletores nômades, servia como espaço cerimonial. Seus megálitos monumentais antecedem Stonehenge em mais de sete mil anos. Patrimônio Mundial da UNESCO. ▪ Fonte: YT Amazing Places on Earth.
Estas maravilhosas descobertas remetem-nos para um patamar superior na infinita escada rumo ao pleno conhecimento. Nesta nova perspectiva vislumbramos a certeza de que, no futuro, os templos continuarão a ter a mesma importância e valor que já demonstraram no passado, contribuindo eternamente para a evolução da humanidade.