Na afamada sentença “Deus está morto” é possível identificar muito mais religiosidade do que niilismo. A afinidade de Nietzsche com a reli...

Nietzsche nunca matou Deus

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Na afamada sentença “Deus está morto” é possível identificar muito mais religiosidade do que niilismo. A afinidade de Nietzsche com a religião, autor da frase que impactou a humanidade no prolífico ambiente pensante do fim do século XIX, se deu desde a infância. Sob influência familiar, logo cedo esboçou vontade de ser pastor, como o pai, o avô, o bisavô, e depois ingressou na universidade para estudar teologia.

Mas as religiões o decepcionaram e até hoje desencantam muitos pela maneira como se estruturaram, sobretudo ética e institucionalmente. O que se entende como natural, pressupondo-se as imperfeições de caráter do ser humano ainda em evolução
e praticamente em “lua de mel” com o planeta que recebeu para habitar, em sucessivas civilizações, durante os últimos dez mil anos em mundo de quase 5 bilhões de existência.

O desapontamento de Nietzsche não se restringiu às religiões em si, mas sobretudo à imagem antropomórfica, “demasiadamente humana”, que se forjou de Deus, num cristianismo fundamentado em dogmas e condutas tão distantes da mensagem de Jesus. Sabe-se que Nietzsche não rejeitou o Nazareno, nem suas ideias em torno do amor e da solidariedade, mas a interpretação cultuada pelas correntes religiosas depois de sua passagem pela Terra. O próprio Cristo se referia a Deus como entidade que ocupa nosso eu interior - “Vós sois deuses; o Reino dos Céus está dentro de vós”. Sintonizado com o pensamento holístico, Nietzsche prolatou: “O homem, em seu orgulho, criou Deus à sua imagem e semelhança”.

O deus desenhado pelas doutrinas que se intitularam cristãs não satisfez à lúcida consciência do instigante filósofo. Ele preferiu se aproximar da divindade nas revelações anteriores a Cristo, como no Zoroastrismo, doutrina criada pelo “Pai da Ética”, Zaratustra, pioneiro na ideia monoteísta e tido como um dos primeiros filósofos da humanidade, cujo pensamento exerceu grande influência sobre sólidas correntes filosóficas e religiosas como as abraâmicas, o budismo, o gnosticismo e a própria filosofia grega.

O bom senso no contexto existencialista em que brotaram as ideias de Nietzsche leva-nos a crer que havia muito mais do que um vazio no “nada absoluto" do filósofo. Sua ligação com a música erudita, comprovada em notáveis obras que compôs, entre as quais, canções, mazurcas, fragmentos para piano, sonatas, motetos, poemas sinfônicos e um oratório —
forma muito apreciada por ele. Em uma peça escrita para capela, a cinco vozes, com traços essenciais do estilo palestriniano, Nietzsche usou trechos do salmo bíblico nº 51, o que parece distanciá-lo de um ateísmo tão radical.

É polêmico atribuir explicitamente à personalidade nietzschiana alguma simpatia por religião. Por outro lado, torna-se difícil refutar qualquer nesga de crença divina em alguém com tamanha sensibilidade para entender a vida, a poesia, a música, de forma tão grandiosa.

Assim como na filosofia zen-budista o esvaziamento do ego é necessário para a plenitude do ser universal. Certamente, em Nietzsche há de se compreender que é no nada que se descobre o todo, que é na inocência e na pureza do instante, que se torna possível expandir a consciência, como tão bem entendido no “poder do agora”, na “harmonia com a Natureza” e na “Comunhão com a vida” celebrados no século seguinte por Eckhart Tolle. Um instantâneo vazio que muito se entendeu como “caos”, sobre o qual Nietzsche tão perspicazmente se referiu na frase: “ É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante”.

O filósofo “niilista” nunca rejeitou Jesus Cristo e sua mensagem, mas a forma equivocada como as religiões se espalharam em seu nome sem refletir a verdadeira essência do amor. Isto fica expresso em frases de sua autoria:

“A Igreja é exatamente aquilo contra o qual Jesus pregou e contra aquilo pelo qual ensinou os discípulos a lutarem”

“Na verdade, o único cristão morreu na cruz. O evangelho morreu na cruz”.

São várias as citações em sua obra que evidenciam rejeição ao conceito teológico do pecado, da culpa e do castigo, que nos tornam vítimas expiatórias de sacrifícios utopicamente necessários à redenção. Uma ilusão imposta pelo ideário cristão institucional com alicerce em uma moral utilizada por séculos como meio de domínio e exercício do poder.

Para Nietzsche, no Evangelho a vida eterna já foi “encontrada, e não prometida”. Está dentro de nós, no instante presente, como vida no amor, em considerar todos como filhos de Deus, como deixou claro em O Anticristo: “Jesus não reclama nada exclusivamente para si”.
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Em sua mensagem não são firmados artigos de fé; trata-se de uma prática de comunhão com o “Pai” e com o próximo, consistência diáfana das parábolas, da verdade interior, sem complexo de culpa.

E foram vários os pensadores que não encontraram razão alguma nas religiões institucionalizadas. Que não se satisfizeram com a ideia de automartírio, de temor a um Deus tirano e vingativo, de renúncia à felicidade diante de tantas bênçãos concedidas pelo próprio Criador. Tal frustração existencialista, com razão, até hoje produz inclinação para o ateísmo, que, muitas vezes, não retrata exatamente insensibilidade ou descrença na sublimidade da Criação, no esplendor cósmico e na perfeição das Leis que tudo regem. Afinal, certas praxes e teorías dogmáticas como “inferno eterno”, “pecado original”, discriminação, rivalidade ideológica, culto à abstinência, liturgia ritualística, louvores pomposos, deuses antropomórficos e outras práticas excogitadas em doutrinações ditas cristãs estimulam muito mais às ideias de um deísmo mascarado de ateísmo.

Por mais que sua produção intelectual tenha sido caracterizada como “filosofia do nada”, a intimidade de Nietzsche com a música, suas composições de caráter religioso, a respeitosa admiração por Jesus e a ideia de que é através da sintonia com a natureza que o homem transcende espiritualmente levam a supor a existência de algum sentimento interior de religiosidade que evidencia noções metafisicamente fundamentadas em uma concepção divina da existência. Como se no abismo do esvaziamento e desconstrução de todos os critérios preconcebidos sobre a essência do existir,
e na diluição dos referenciais aprendidos até então, surgisse um confronto iluminado pela verdade livre de qualquer limite teológico e ideológico.

Na anulação de paradigmas pré-constituídos, atingem-se os efeitos do encantamento com o mistérios da vida, em bem entendida como fenômeno puro e legítimo, não dogmatizado, não rotulado. Na contemplação das belezas da Criação encontram-se as respostas que dão sentido à concepção do divino movidas pelo sentimento de religiosidade e não de religião.

A decepção com o que esteve e ainda está por trás dos interesses das crenças convencionadas, padronizadas, corporatizadas, afastaram filósofos, escritores, artistas, humanistas e pensadores como Nietzsche, do igrejismo criado em torno do Cristo, que soava distante do redentor pela prática equivocada da verdadeira essência evangélica.

Mas nunca desacreditou sobre o que é justo, positivo e útil à evolução do homem: “Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas. Amor-fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! [...] Que minha única negação seja desviar o olhar! [...] Quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!“, escreveu Nietzsche em Gaia Ciência.

Ele tinha ciência de como foi e ainda é incompreendido, como muitos pensadores e pregadores, inclusive Jesus Cristo. Alguém capaz de dizer: “Creio que aqueles que mais entendem de felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão” revela a mais cristalina noção de que é possível enxergar Deus na Natureza, na leveza das coisas simples, e não em convicções e teologias axiomáticas:

“Benditos os que nunca leem jornais, porque verão a Natureza e, através dela, Deus” - assim escreveu Nietzsche, mostrando que sonhava com a ascensão espiritual: “Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar”. A identificação com a sublimidade da Criação também é nele evidente: “Como agrada estar quieto a sofrer, tecer paciência, jazer ao sol! Quem compreende a felicidade do inverno, as manchas de sol no muro? São os mais agradecidos animais do mundo, e também os mais modestos, esses lagartos que de novo se voltam para a vida - há entre eles os que não deixam partir nenhum dia sem pedrar-lhe um pequeno hino de louvor na orla do manto que se afasta”. Quanto lirismo!... O mesmo que tinha perante a arte da melodia ao dizer: “A vida seria um erro sem a Música”.

Aliás, um dos exemplos muito afinados com o pensamento do filósofo alemão encontra-se exatamente na Música, como o compositor Richard Strauss. Tendo usufruído desde cedo certa independência religiosa em um ambiente familiar simpatizante dos efeitos da “União de Utrecht”, contra a centralização da igreja tradicional, ainda jovem,
Strauss já cultivava a tendência para um “ateísmo católico”, mantendo-se firme na resistência às religiões tradicionais, e declarou perto de morrer: “Eu nunca me converterei. Permanecerei fiel a minha velha religião clássica até o fim de minha vida”, referindo-se à fé raciocinada.

Por influência do compositor Alexander Ritter, de quem Wagner era discípulo, aproximou-se das ideias de Schopenhauer, comungadas por ambos, que os estimularam também à liberdade artística. Ritter incentivou-o a romper com os padrões musicais vigentes, motivando-o a escrever poemas sinfônicos, música programática, poesia sonora.

A afinidade com o “niilista” Arthur Schopenhauer é um traço comum a Strauss e Nietzsche, embora tenham se afastado ao longo da vida, quem sabe insatisfeitos ou não preenchidos com o pessimismo, a fragmentação da razão pela supremacia do instinto e da vontade como verdades absolutas. Em Nietzsche e Strauss havia a busca da transcendência por meio da arte, da beleza, da natureza. Ambos ansiavam pela aceitação do destino como triunfo da vida, o que se consolidou em suas trajetórias artísticas e intelectuais. Daí se poder entrever em ambos a sublimação da espiritualidade ao concluírem suas obras com o deslumbramento existencial que, paradoxalmente, nada tinha a ver com o nada.

A conexão de Strauss com Nietzsche já havia sido notabilizada ao compor o poema sinfônico “Assim Falou Zaratustra”, inspirado na homônima e célebre obra escrita pelo filósofo, usada como tema musical no filme 2001: Uma odisseia no espaço (Arthur Clarke e Stanley Kubrick, 1968).


Mas é a magnífica “Sinfonia Alpina” o trabalho que consolida a notória empatia, no mesmo sentido, como se fosse uma continuação do Zaratustra. Este grande poema sinfônico que estreou no outono de 1915, em Berlim, regido pelo próprio autor com a Orquestra Sinfônica de Dresden, foi concebido em quase 5 anos de intenso trabalho. Strauss teria confessado haver atingido nesta peça o auge de sua habilidade para orquestração, escrita para um arsenal de instrumentos que inclui órgão, chocalhos, gongo, cencerro, máquina de vento, triângulo e celesta.

Originalmente a obra foi planejada com dois movimentos — “Homem, o Admirador da Natureza” e “Homem, o Meditador” — títulos que denotam sua devoção ao poder arrebatador das belezas naturais sobre o ser humano. Em uma das citações, Strauss preconizou:

“Chamarei minha Sinfonia Alpina de Anticristo, mirando-se em Nietzsche, pois ela incorpora purificação moral através da força do indivíduo, emancipação através do trabalho e culto à eterna e gloriosa natureza”.

Poucos louvores musicais foram tão magnificamente erguidos para celebrar a formosura das belezas naturais como “Uma Sinfonia Alpina”. É a síntese do encantamento diante da perfeição paisagística em seu estado original, transcrito para uma partitura absolutamente pictórica, ou mesmo “cinematográfica”.

E nada melhor do que uma cadeia montanhosa para espelhar o júbilo vivenciado diante dos relevos espetaculares que o caos “inteligente” desenhou pelo planeta. São antigas as referências a montes fascinantes que enriqueceram a história, as artes, a literatura. Montes como símbolo de fé, transcendência, sabedoria, que impulsionam a estados nirvânicos. Não é à toa que são lugares preferidos para abrigar mosteiros e ambientes de refúgio espiritual. Assim como não deve ter sido à toa que Richard Strauss os escolheu para palco imaginário de uma das mais extasiantes sinfonias em forma de poema que sintetiza toda a gama de variações estésicas que se pode experimentar desde os recônditos sensoriais mais íntimos aos limiares cósmicos da percepção existencial.

A Alpina foi dividida em 23 partes, sem intervalos, devidamente descritas para ilustrar todas as sensações imaginadas em um dia inteiro de escalada pelos alpes bávaros. Tem como prelúdio os instantes finais de uma madrugada que se esvai ao nascer do Sol e dá-se início a epopeica jornada.

NachtNoite
SonnenaufgangNascer do sol
Der AnstiegA subida
Eintritt in den WaldEntrada na floresta
Wanderung neben dem BacheCaminhada próxima ao riacho
Am WasserfallNa cascata
ErscheinungAparição
Auf blumigen WiesenEm prados floridos
Auf der AlmNa pastagem alpina
Durch Dickicht und Gestrüpp auf IrrwegenPerdendo-se por entre o bosque denso e o matagal
Auf dem GletscherNa geleira
Gefahrvolle AugenblickeMomentos perigosos
Auf dem GipfelNo topo
VisionVisão
Nebel steigen aufO nevoeiro aumenta
Die Sonne verdüstert sich allmählichO sol encobre-se pouco a pouco
ElegieElegia
Stille vor dem SturmCalmaria antes da tempestade
Gewitter und Sturm, AbstiegTrovoada e tempestade, descida
SonnenuntergangPôr-do-sol
AusklangCenas finais
NachtNoite

É noite, ainda. A imponência montanhosa à penumbra infunde respeito e reverência à gigantesca silhueta . Pouco a pouco, raios luminosos surgem por trás dos elevados contornos. A claridade faz surgir tenuamente o cenário em que se explanará toda a narrativa poética sonora .

Finalmente o Sol desponta e a surpreendente paisagem resplandece. Descortina-se o cenário que dá início à grande jornada com a exibição do marcante tema fraseado em declamações de intenso romantismo (2. Sonnenaufgang, Alvorada ).

Tudo pronto para a subida. A orquestra se organiza em disposição ritmada em marcha animadora (3. Der Anstieg, Ascensão). Horizontes mais distantes são observados nos metais que soam em ecos fora do palco e a caminhada prossegue com vigor. Tudo é expectativa e o sentimento telúrico se instala no envolvente lirismo campestre .

Adiante, a entrada na floresta ! O suspense se impõe na nova atmosfera que desperta o estado contemplativo frente a um ambiente grandioso e de diversidade tão rica acrescido de ternura que se sucede à visão de um regato a correr pelo vale .

Subitamente, uma queda d'água aparece jorrando cristalina por entre as luzes da manhã. Reflexos cintilam ao Sol que brilha mais alto intensificando a emoção .

Tudo converge para a sensação de presença do “espírito dos alpes”, no trecho que Strauss chamou de “Aparição”, descrito pelas harpas em arpejos de delicada aflição, para retornar à calma ao se perceber, logo depois da cachoeira, um pasto verde sob ravina florida em um tema rejuvenescedor da poesia diante do cenário que se complementa com gado e pastores . Os sopros simulam ranz-des-vache acompanhados de graciosos chocalhos em planos sonoros que sugerem o autêntico clima campestre. São episódios literalmente pictóricos, pincelados com alusões musicais ao envolvente bucolismo.

De repente, o alpinista se sente perdido. Teria errado o roteiro? A melodia se desenvolve em fuga angustiada que o simula atônito à iminência da desorientação. Ao transpor uma sinuosidade do caminho, eis que uma magnífica geleira rouba-lhe o fôlego e toda a atenção agora se dirige para o deslumbrante fenômeno.

Mas ali há perigos. Todo glacier oferece riscos inesperados e o clima se torna tenso e misterioso mais uma vez. Ele continua subindo, subindo, e finalmente chega ao topo: o ponto culminante da longa jornada.

Uma calma profunda se instala em seu espírito, praticamente em transe, ao atingir e poder contemplar o cume de onde se vê a fulgurante beleza. Os sons distantes levam o olhar para horizontes tão elevados quanto a altitude e o estado da alma que se inunda de paz e tranquilidade. O reconforto por ter ali chegado, de ter realizado a façanha toca-lhe profundamente e amplia-lhe a visão para além do panorama externo, expandindo-lhe a consciência do eu cósmico dentro do qual não há como não encontrar reflexos da divindade.

E vem a euforia da catarse a invadir-lhe o ser diante de uma paisagem que é, sem dúvida, a imagem do Deus em que ele e Nietzsche sempre acreditaram, bem distinta da que se emoldurou nas religiões.

É no episódio seguinte — A Visão — que se consagra a experiência transcendental . Encantos e desencantos de sua vida se fundem na compreensão ora iluminada pela certeza do que havia predito:

“Esta sinfonia incorpora a purificação moral através da força do indivíduo [...] e do culto à eterna e gloriosa Natureza”.

Após o extraordinário arrebatamento vivido nos píncaros, o cenário tem o brilho atenuado por nevoeiro que passa a revestir a atmosfera com tons sombreados, direcionando-lhe os ânimos para a introspecção.
O Sol gradualmente se torna obscuro promovendo expectativas mais contritas, na parte que o autor denominou “Elegia” , espécie de interlúdio para a conclusão. Um certo desolamento é promovido pela sonoridade melancólica dos sopros, que sugere o adensamento da névoa e torna o ambiente mais opressivo. Como uma flor que desabrocha da aridez, ouvem-se delicados fragmentos de diálogos que passeiam pelos trompetes, oboé, clarinete, flauta e corne inglês, com menções aos temas principais que soam em poesia introspectiva e reflexiva.

A mudança metereológica é pressentida pela calmaria que se sucede. Como ocorre no mar, que antes de uma tempestade assume a feição tranquila de um lago, nas montanhas se percebe igual remanso, retratado no episódio seguinte: “A calma antes da tormenta”. O silêncio impera capaz evidenciar os mais ocultos sons do sublime entorno, como numa visão premonitória. Brumas etéreas, alinhavadas por cantos distantes, vão se adensando para anunciar a tempestade que já se exibe em rodopios pelo céu, Um temporal talvez jamais tão fielmente transcrito em música sinfônica. A beleza com que Beethoven descreveu a tempestade na Pastoral (6ª sinfonia) aqui é repetida com impressionante amplitude, auferida com participação maciça da grande orquestra, da impactante percussão e dos demais recursos que tipificam a dança tenebrosa e agitada dos ventos, pesados trovões, relâmpagos incandescentes que rasgam as nuvens de ponta a ponta, árvores que ameaçam largarem-se do solo, animais em fuga, tudo infunde medo e, de certa forma, humildade e impotência perante fenômenos aos quais todos estamos vulneráveis em inédita contundência.

Enfim, o retorno à calma, na despedida da tormenta e nas nuvens que partem para saudar o derradeiro fenômeno como epílogo da exitosa saga: o Crepúsculo nas alturas! É o momento em que a sinfonia parece se entranhar da aura aos poros, da pele ao coração translumbrante de emoção. Está entendida a mensagem dos alpes.

Agora, no que chamou de Cenas Finais, é que Richard Strauss confessa sua eloquente religiosidade . O órgão soa monumental, sobre o altar imaginário em que a fé se deita convicta, extasiadamente resignada, como na música litúrgica “Lux aeterna luceat eis” (Que brilhe a luz eterna).

Afinal, ele e Nietzsche tinham razão: Este é o Deus que merece crença e respeito. O Deus que está na beleza das montanhas, dos córregos e cachoeiras, das florestas, flores e pássaros, das tempestades e bonanças, auroras e alvoradas, da sublime Criação, enfim. O Deus que só se mostra por inteiro se esvaziarmos toda a ideia que d’Ele nos tenham imposto. O Deus que se espelha dentro de nós mesmos.

Como sempre, a noite encerra o dia, a música se vai, flui etérea, como todos os ciclos da existência, deixando consolidada na suntuosa paisagem que se despede a flagrante certeza: O Deus de Nietzsche também está na música.


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  1. Costumo aplicar a Nietzsche a frase de Guimarães Rosa em relação à vida: o que Nietzsche exige de nós é coragem. Sobretudo de nos desviarmos da tentação de torná-lo mais palatável quanto à moral e a religião. Ao ver no platonismo, e também no cristianismo, a negação deste mundo, o único a que estamos ligados pelos sentidos, Nietzsche nega a possibilidade de transcendência. Aliás, o amor fati não deixa de ser uma declaração de amor à imanência.
    No entanto, a alusão à dimensão estética é totalmente justificada como referência fundamental para Nietzsche, e ele acrescenta uma visão que, segundo penso, oferece um diferencial: quando reconhece a possibilidade da associação entre o erro e a beleza, uma associação compensatória, e, realmente, afirma, entre outros exemplos, ser a religião um grande erro, mas um erro belo, um erro carregado de beleza.
    Mas, no fundo, a noção nietzcheana de beleza remete ao múltiplo, à afirmação da multiplicidade, e não a alguma unidade transcendente.

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  2. Ângela Bezerra de Castro17/7/21 15:21

    Querido, extasiada diante de seu texto! Riqueza de cultura, de sensibilidade e de expressão. Um privilégio para quem recebe essa lição e alcança a raridade e a altura de sua concepção. Existe muita afinidade entre Cidadela, de Exupéry, e Assim falava Zaratustra. O grande simbolismo e a visão do que se chamou de Humanismo Cósmico.

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  3. Realmente extasiante! Uma verdadeira aula, sobre filosofia, espiritualidade e música.
    Puxa!
    Parabens, Germano, comporta-se como um bom vinho, se superando a cada safra...

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