Estreia amadurecida a de Antônio Mariano no gênero romance. E amadurecida porque “Entrevamento” (Kotter Editora, Curitiba, 2021) tem como...

Uma estreia amadurecida

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Estreia amadurecida a de Antônio Mariano no gênero romance. E amadurecida porque “Entrevamento” (Kotter Editora, Curitiba, 2021) tem como lastro, como suporte, o contista de “O Dia em que comemos Maria Dulce”. Quer dizer, Mariano não é um neófito em termos de ficção, pois a sua experiência vem de longe.

Por outro lado, se o conto e o romance são gêneros distintos, isso não quer dizer que sejam antípodas, que deixem de possuir algumas afinidades, tanto que o narrador carreia para o interior de “Entrevamento” alguns recursos estilísticos comuns aos dois gêneros. Mas nesse romance também está presente a poesia, uma vez que todos os gêneros se consorciam e conjugam esforços para a conquista de um objetivo comum: o de emprestar ao texto um caráter polifônico, múltiplo, regido por muitas e diversas vozes. Aqui, cabe não esquecer a tendência açambarcadora do romance, a sua pretensão de “oferecer uma imagem total do universo”.

Na condição de leitor, de um leitor que escreve mais ou menos equipado teoricamente, eu tive o cuidado de não me levar de roldão pelo enredo do livro, pois caso cedesse ao afã de apenas usufruir da trama, certamente passaria despercebido o virtuosismo do narrador, a desenvoltura, por exemplo, com que elabora os diálogos, todos fluindo naturalmente, inclusive sem nenhum pejo ou pudor em registrar expressões comuns ao contexto em que se desenvolve a história: a cidade de João Pessoa com suas praças, logradouros, prédios, ruas, ruelas, mas, sobretudo, com as suas personagens, entre elas Moacir, responsável pela condução do enredo, pelo ponto de vista ou foco narrativo do romance. Mas Moacir não é uma personagem onisciente, porém uma personagem atônita e cega com relação ao seu destino, ao seu porvir, como também atônito e cego é o leitor que ele ciceroneia tortuosamente, na medida em que conta a sua história como personagem principal. No entanto, embora já saiba da sucessão dos acontecimentos pretéritos, o narrador não os antecipa, ao mesmo tempo em que evita a prolepse, figura de estilo utilizada para precipitar os fatos ou os eventos ulteriores.

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Esse é um romance cujo enredo se nos afigura como um corpo destituído de adiposidades, de qualquer tipo de excesso ou de excrescência, até mesmo porque, embargando a verbosidade, o narrador investe nos semitons, nas sutilezas, nas entrelinhas, algumas vezes acrescentando uma trama subjacente àquela facilmente digerida pelo leitor. Isso sem contar, entre outros exemplos, a carga simbólica contida no gesto de Moacir cravar a caneta Bic no olho. Enfim, são artifícios que reivindicam uma participação mais efetiva do receptor para a elucidação de episódios à primeira vista insignificantes, banais, de somenos importância.

Outro aspecto a destacar: as cenas de sexo que, em alguns momentos, poderia resvalar para o obsceno, para o escatológico, não fossem o engenho e a arte com que são descritas. Ou seja, se o termo obsceno pode ser tomado como “aquilo que rebaixa a carne”, a linguagem do narrador isenta o texto de qualquer laivo de vulgaridade ou de mau-gosto para privilegiar a literatura. Aliás, no romance “Entrevamento” tudo é literatura. Literatura e vida.

REGISTRO
Minotauros e blues” (Editora Leve, Campina Grande, Paraíba, 2021), de Bruno Gaudêncio, reúne poemas de atmosfera em que o eu-lírico se exime de apenas mimetizar os sentimentos. Em última análise, ele os sugere, torna-os implícitos, reivindicando do receptor uma leitura mais atenta.

Lado a lado de poemas que tratam a respeito de escritores com os quais mantém “afinidades eletivas”, outros existem em que a voz do eu-lírico desvela os seus próprios sentimentos, na medida em que busca assegurar a sua individualidade no burburinho das muitas falas da Torre de Babel em que se transformou a poesia brasileira contemporânea. Poemas como “Forma”, “Olhos fixos” e outros são exemplos da boa poesia.

O prefácio de “Blues e minotauros” é de Henrique Rodrigues. As ilustrações – bastante sugestivas – são de Felipe Stefani.

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