Quando essa senhora contava esta história, não o fazia sem que as lágrimas brotassem de seu rosto, com quase oitenta anos, mas que ainda deixava ver a beleza com que Deus a moldara.
Era Natal, há muitas décadas, em uma aldeia pequenina como só Deus sabe fazer nos recantos mais acolhedores do mundo, e as esconde para que seus moradores, sem o saber, possam viver em um mundo muito especial.
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Mas uma jovem mãe, que ainda não fizera vinte anos, limpava a grande casa de pedra, deixando tudo brilhante, com um odor só sentido por quem um dia teve o privilégio de viver ali. Ela tinha um pequeno menino, de rara beleza (ambos, hoje, já em outra dimensão). Porém, como mãe solteira, na concepção errônea do pai e única mulher presente, visto que os demais filhos já tinham suas vidas, era como uma escrava, e ainda apanhava com a pesada bengala de madeira do próprio pai. Por quê? Tornara-se uma mulher “falada” na aldeia, pois o rapaz com quem estivera não quisera casar. A essa altura já tinham poucas terras (pouco dinheiro). Haviam perdido quase tudo. E sempre existirá, nas famílias — até as contemporâneas — o eterno conflito entre o ter e o ser.
Depois de ter sido expulsa de casa, agora tudo ela aprontava porque tinha um teto e alimentação racionada para seu pequeno filho. Ou melhor: era a ela dado o direito de dormir na cozinha — com a lareira apagada para economizar lenha, ainda que a temperatura a fizesse chorar de frio e agarrar-se à criança para que ele não sentisse as agruras por que passava.
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Ao encolher-se naquela cama rústica e improvisada, pediu a Deus que lhe concedesse um presente de Natal: um cobertor bem pesado e quentinho que a aquecesse e a ajudasse, pois sentia que suas forças eram pequenas, enquanto o pai e outras pessoas dormiam tranquilos nos quartos (a casa tinha vários). Só ela não podia, pois tinha que ser castigada pelo erro cometido.
Assim, adormeceu. Em torno das quatro e meia da manhã, acordou e viu que estava coberta com uma manta tecida de uma lã que animal algum daquela aldeia produzira; e seu filhinho tinha um casaco
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Ela dobrou a manta e a escondeu em lugar que só ela sabia. Levantou-se, pegou o pequeno e foram para a cozinha. Estendeu uma colcha comum no chão e o menino, quentinho, continuou a dormir, enquanto ela começava as suas atividades.
Claro que o pai e os demais não se contiveram com a pergunta:
— Quem te deu esse casaco para o garoto, as meias, os sapatinhos novos e essa capucha? Foi algum dos teus amantes?
Ela não tinha ninguém, embora, pela beleza, pudesse tê-los, e nada lhe faltaria. Ela só respondeu aquilo com que sonhara:
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O pai dela — que era meu avô, e o menino, meu irmão — calou-se. Nada disse. Olhou para o céu nublado e a neve caindo e sorriu, como se compreendesse alguma coisa.
Os dias passaram, noite após noite. Ela dormia no palheiro. A manta estava sempre em lugar diferente e ninguém a encontrava. Só ela. Até que um dia o pai ficou paralítico e ela ficava com seu rapazinho em um dos quartos, cuidando do meu avô até o fim.









