Pra começar, queria falar que nasci em uma família de professores: meu pai era professor de história, comprometido com a educação em todos...

Escolhas que se renovam

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Pra começar, queria falar que nasci em uma família de professores: meu pai era professor de história, comprometido com a educação em todos os momentos, amante da historicidade humana e mais profundamente amante do sujeito e da sua busca em tornar-se Ser Humano. Minha mãe professora de música, apaixonada pela arte, pela estética e pela expressão em todas as suas formas, incentivadora do movimento, das mudanças e transformações na vida de todos próximos a ela. Esses dois me mostraram, a partir de sua união, a importância da busca determinada pela realização do amor, e essa foi a herança que tentaram distribuir em vida com seus quatro filhos.

Depois de 10 anos de namoro e de muitos desafios enfrentados, resolveram se casar. Em tempos mais fechados para atos ecumênicos, ele, de família espírita/católica, e ela, fervorosa protestante, encontraram uma forma de satisfazer suas famílias:
Acervo: M. Lucena
cada cerimônia em sua igreja, uma escondida da outra (ato combinado apenas com o padre, o pastor e o fotógrafo, que mais tarde, com as fotos reveladas e os noivos em lua-de-mel, desmascarou, sem querer, os “rebeldes”, resultando numa grande confusão familiar e na excomunhão da minha mãe da sua santa igreja) e o casamento comum no juiz. Casaram-se três vezes no mesmo dia. Esse fato marcou, acredito, o “ambiente” em torno dos meus pais e da família que eles criaram.

Assumiram desde recém-casados uma casa com os meus avós paternos, avós maternos, uma tia que acho que já nasceu velha e que muito tempo depois morreu louca, uma prima que aos trinta anos já era considerada “solteirona” que acabou por se casar com um angolano com quem se correspondia (as cartas eram muito comuns naquela época) e conseguiu escapar do “caritó”. Moravam também alguns sobrinhos que vinham do interior para estudar, casar, curar doenças etc.

Nesse ambiente nasci como segunda filha, dos quatro filhos biológicos que tiveram, pois agregaram outros pelo caminho. Não foi difícil, aí nesta família, acumular na memória, nas células e no corpo informações necessárias para o ofício de Professora e outras tarefas que desenvolvi em diferentes momentos da vida.

Vivi a infância com meus irmãos e primos, entre a Pitumirim (nosso paraíso no Conde, adquirido pelos meus pais em 1962) e a cidade de João Pessoa. Em Conde, vivíamos fazendo caminhadas por trilhas, sem encontrar cercas pelo caminho, andávamos em busca de atingir o horizonte e de ver o que havia por lá, à noite por dentro do riacho, de candeeiro na mão, procurando ciranda pra dançar, ouvindo histórias de "Trancoso" antes de dormir para poder sentir aquele medinho excitante que era a desculpa para a conversa se prolongar por dentro da noite.
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Tivemos os seis sentidos ativados e estimulados ao longo da infância e um equilíbrio interessante entre a liberdade e os limites impostos por uma “boa educação”.

Juntando todos os parentes mais próximos dava pra ver que metade da grande família era do trabalho mais físico; a outra, intelectual; metade contadora de história, a outra os personagens das histórias; metade canta e dança e fala “pelos cotovelos”; a outra, calada, sabe ouvir e ver o drama com admiração. Uma banda alegria, movimento, luz do sol; a outra contemplação, a força do invisível e os mistérios da lua. Teatro numa esquina da casa e jogo de baralho na outra; resenha de futebol, novela na televisão, apresentação de banda de rock imitando Elton John e Raul Seixas, concertos de violino, piano e flauta, briga e dengo da criançada, missa em um aniversário e culto evangélico em outro. E o infalível vinho de jurubeba para garantir a saúde da meninada.

Cresci junto com meus irmãos nesse ambiente parecido com uma colcha de retalhos – nossa casa era a casa de todos da rua, nossos pais os pais de todos os amigos, a granja o paraíso desejado. Todos obedeciam ao ritmo e às regras impostas pela minha mãe, porque todos eram vidrados na sua força, na sua energia, embora sentissem também um certo medo de sua autoridade – como falei ela adorava o movimento, mas ele tinha que está no raio do seu controle. Adorava ouvir os pensamentos do meu pai, pois a sua visão de vida e de mundo acalentava os sonhos de todos e enchia a gente de esperança e de uma visão livre e poderosa da vida.Era muito bom ter uma casa tão doce onde todos queriam estar.

Em nossa casa a maternidade esteve mais presente em meu pai e a paternidade em minha mãe. Assim seguimos.

Quando fomos à escola para aprender a ler, entramos também no conservatório de música e artes e começamos a participar de atividades esportivas de diferentes modalidades. Não me transformei em uma artista ou desportista, mas acredito que esses estímulos durante a infância e adolescência
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me colocaram de frente para o meu destino de trabalhar com a diversidade de expressão, cultura, pensamentos e ter paixão pelas pessoas e pelos grupos capazes de se unirem em torno de uma ideia, de um propósito.

Comecei a trabalhar aos dezessete anos, desenvolvendo uma atividade comum a todas as moças brancas, da minha idade, filhas da classe média, que queriam ganhar o seu próprio dinheiro: professora de jardim de infância.

O encontro com essa tarefa foi ao mesmo tempo um encontro com a minha essência, e desde o primeiro momento respeitei muito esse lugar, senti a importância dessa atividade que tomou conta de mim, ocupou meus pensamentos e transformou os meus desejos. Comecei a construir um sonho de fazer uma escola diferente, que olhasse e tocasse cada criança de forma atenta, acordada, presente. Percebi que o corpo e a alma humana, ali, na primeira infância, tinha um papel muito importante para toda a vida e deveria ser visto de forma especial. Não sabia como, mas sonhava em ter uma escola onde as crianças fossem consideradas de forma integral.

Para mim, ser professora era e é uma escolha renovada todo dia. Educar através da arte torna minha missão um prazer; incluir a expressão de cada um utilizando as linguagens artísticas é abrir espaço para o desconhecido, para o inesperado, para a criação – é unir em mim, meu pai e minha mãe. Educar sob o foco da expansão da consciência, estimulando a presença de cada um em seu corpo, no momento exato do agora, é uma tarefa que se tornou clara ao longo da vida nessa profissão, sendo cada vez mais uma tarefa desafiadora e rica, que traz a sensação do servir, do estar a serviço de algo bom e belo.

Assim, fui abraçando com integridade e prazer tudo que a vida me trouxe de lá até cá! Acredito muito na vida e tenho certeza que tudo que vivemos faz muito sentido para o nosso propósito mesmo que por algum tempo não tenhamos a visão muito clara dos acontecimentos, mas isso tudo é só pra começar...

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  1. Parabéns. De um filho e neto de professoras que, infelizmente, não é eleitor no velho Jacoca.

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