Dr. Carneiro Arnaud envia-me o último relatório de gestão do Hospital Laureano. Começo a folhear, detenho-me nos seus recursos humanos,...

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Dr. Carneiro Arnaud envia-me o último relatório de gestão do Hospital Laureano. Começo a folhear, detenho-me nos seus recursos humanos, as lembranças correndo de imediato para pessoas que ajudam e ajudaram na grandeza da instituição. Um nome puxando outro, Efigênio, Carneiro, Raminho, João Batista Simões, Batista Ramos, Julet, minha amiga Letinha, não esquecendo a mulher de sociedade que irradiava o clima de campanha que ainda hoje sustenta o hospital. Falo de Zélia Henriques.

Mesmo que a cidade trocasse de gerações, ela continuou presença humana que nunca se desfez. Por mais que os serviços do Laureano prosperem em ciência e atendimento, avultem em pessoal, em mim nunca apaga a veemência como vi D. Zélia cobrar do governador João Agripino, portas adentro, um equipamento que faltava ao hospital. Da grande senhora, chamando as redações do jornal e do rádio para fazer eco às campanhas humanitárias que liderava. Testemunhei a audácia no trato de um governo forte em tempos autoritários.

“Eu sou uma Dantas”, passou-me da vez que lhe fiz um reparo. Com toda força dos seus olhos e o timbre quente da voz sufocando meu reparo. E em tom forte, noutro plano e ocasião - o da amizade solidária - desafiou-me a levantar os ombros e não baixar a cabeça numa hora em que muitos se recusavam a acolher a minha mão de obra. Eu estava proscrito e ela ia à minha casa levar a força que a família precisava. E me abraçou feliz, anos depois, quando me viu subir em palco armado para figurações que não estavam em nossos cálculos. Ela dava expressão calorosa ao que Herbert, o marido, deixava transparecer com discrição e bonomia.

Ah, amiga Zélia, quão sólido é o seu edifício, mesmo que sejam poucos, hoje, os que o avistem. E, no entanto, a faina e a cidade, havia muito, nos deixara afastados. Os meninos e as meninas, já grisalhos, é que me davam notícia.

Volto a reler, com saudade, os últimos escritos do nosso comum irmão-poeta Crispim e ele fala de uma imensidão de faixas negras a imprimir luto nos caminhos crepusculares da antiga fraternidade. A avenida Edson Ramalho é uma dessas faixas, roubando a terra grudada na pele dos nossos pés, cobrindo as trilhas que levavam ao sossego aconchegante do vosso retiro.

Uma noite saí rompendo a areia e as urtigas do que veio chamar-se Manaíra para me remir da ausculta mansa e de santa eficácia do dr. Herbert Henriques. A menina febril nos braços de minha mulher. E a casa de festas, de doces e belos risos de Natal, linda de cal e de alma, não se furtando em servir de posto de emergência. Era uma das sólidas vivendas que fundaram a rua, o bairro, desbravando a restinga. Tudo deserto por perto, tudo muito humano por dentro. A cinta de asfalto que veio constranger o coração de Crispim ainda não havia passado pela casa de D. Zélia. Essa casa é que dava referência à rua, um nome com mais clima de prestígio e alvíssaras que o longo cordão constelado de grifes e placas de hoje. Muitas de grafias alienígenas, envergonhadas da própria língua, despersonalizadas.

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