É certo que um dia toda história se completa. Mesmo se por frase dita ao acaso, como aqui. A trama – das mais ordinárias – traria as hor...

Um fraseado de Júlio De La Onça

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É certo que um dia toda história se completa. Mesmo se por frase dita ao acaso, como aqui. A trama – das mais ordinárias – traria as horas a serem gastas num fastidioso circulo que, lenta e obsessivamente, havia percorrido toda a incongruente rota dos acasos, e foi, aos poucos, adquirindo brusquidão e rotação estranha, feito um engenho que sofre manipulação invisível.

Júlio De La Onça tornara-se presa daquele círculo tenaz, de progressivas angústias, ao qual não conseguiria romper jamais sem antes beber a última e amarga gota do cálice que o próprio Cordeiro beberia (mas não sem alguma relutância),
e não sem antes pronunciar aquela frase espetacular e desesperada – com toda humilde e formidável carga de redenção nela contida. Frase que o punha no mesmo patamar de alguém mais antigo que ele, alguém cujo destino na vida, e depois na morte, tinha sido, sabidamente por todos, tão ou mais obscuro ou desafortunado que o seu.

Sem se deter jamais esse círculo perante a sorte de quem, dentro dele, manteve-se o tempo inteiro entregue a um jugo de emoção frequente e barata, a se comprazer em litígio íntimo, reles e inconfessável, e sem se saber atolado até os ossos numa constante, estéril e perfeitamente desesperada mitigação de alguém que houvesse crescido em situação análoga talvez àquela do aldeão em volta do castelo sombrio – sobretudo na que lhe concerne o limes ancião, demarcatório de um eterno fosso entre ele e as sortes do mundo, perdido num diuturno confisco de toda chance possível.

Diariamente tomando sua parte no espetáculo de uma arena armada para confronto de mesquinhos, que gozarão prazeres mesquinhos, e que assim o serão sempre porque exclusivos e rapaces, tirantes a outros, prazeres duros e irreconciliáveis que não existiriam sem girar em torno de algumas cédulas e fichas, embalados ali por café e cigarros, e que também não serão jamais coisa alguma fora de seu recinto com cheiro de tensão, suor frio, corpos e objetos gastos.

Socado como sempre em um ambiente sem nenhum daqueles credenciais aceitos e compartilhados que se tem numa loja, num balcão de bar ou até mesmo num velório, locais onde um homem não poderá falar apenas por grunhidos, não deverá simplesmente cuspir no chão – se assim o queira –, e onde também não poderá se erguer sem pedir licença a ninguém para ir urinar numa parede e depois voltar, e sim um lugar onde ninguém perde tempo escolhendo
entre ficar calado ou dizer qualquer coisa a respeito de qualquer outra que não seja a única naquele momento a ser considerada besteira.

E pronto sempre. Para escarnecer (e isso nem sempre em segredo) de parceiros que ele, bem sabe, estarem ali – nem sempre secretamente – e também escarnecer de sua pessoa, acreditando e apostando numa exatidão de números perfeitamente questionáveis, interpolando-se no gozo da avidez que é – de repente – suspensa num lance de frustração, o que certamente será seguido de algum impropério, enquanto a roda gira e gira para quem continua pagando a cada rodada, a cada lance, para ver um vicioso desfile de figuras proeminentes como a Dama de Ouros, o Rei de Espadas, ou sua desaparição no meio de uma multidão anônima e reduzida a números, sem que possa descartar o favor de um Ás – esse mancebo ilustre –, e também de uma carta-pajem, ou camareira, ou algum insignificante plebeu do tipo Três de Paus, que, dependendo do lance, posará quem sabe de nobre cavaleiro, numa espécie de país de súditos – e bem na origem do seu mal –, com suas grandes e pequenas vassalagens.

E continuando esse círculo a girar indiferente à sorte de quem, preso a ele, teve ainda que borbulhar na canícula ou andar num vendaval, bater em cada porta assinalada por esperança tantas vezes débil, de uma vez, e para isso, ansiosamente julgando De La Onça ter visto bom sinal na homonímia entre parente afastado e um velho machado que descobrira sob a terra, noutra achando que o invisível – mas não para ele – desenho traçado no céu por um pássaro, deixasse por lá algum lastro de magia que devidamente traduzido indicasse o caminho das primeiras combinações de cartas e fosse capaz de decidir a sorte, pelo menos, das primeiras rodadas.

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Ou teve, ainda, de se espremer pelos vieses de uma solidão anônima feito rato por dutos, desterrado em um mundo de especulações avaras, probabilidades remotas, no qual, em seus piores momentos de descrédito e redobrado desânimo, não encontrou jeito de estimar-se mais desprezível do que se medir com alguém (ele mesmo) que passou a se ver como o caso consumado de um estado crucial de demorada sequela, e esta, muito naturalmente, sendo decisão irrevogável daquela mixórdia de gabaritos progênitos dos quais se gerou.

E por ele mesmo reconhecidamente imprópria (a mixórdia) quanto a pretender uma atenção maior da Divina Graça, e, por isto deixado à mercê de fatores adversos e tão imponderáveis quanto Humor de Calendário, Influência da Lua, Diatribe do Amor, Trapaça da Sorte, Revés da Fortuna, Incidência de Vento Colateral, Oscilação Internacional do Preço da Fibra Sisaleira, Antifonia de Astro em Desalinho e até uma cavilosa, invisível Aproximação do Planeta Nibiru.

Toda uma configuração de regências malignas, a favorecer em sua vida – até mesmo – uma combinação esdrúxula de material naturalmente incompatível com outro nem assim passível de ser considerado, de situações que, uma vez e apenas vocalizadas, são já capazes de gerar imediato sentido de transmigração entre espécies, e todas essas coisas produzidas em linguagem lastimável, típica das alquimias pobres, e geralmente brotadas das habituais cachadas de impropérios, e que, entre tantas aberrações, acaba concorrendo para que humano seja bestial, fulaninho um verme, que porcos venham se somar a homens e pombos no reconhecimento de que têm também um espírito, que coisas como Coração de Ouro, Paciência de Burro, se transformem em antípodas, feito Rancor Ferrenho, Teimosia de Mula. E que, assim, Dinheiro tenha Asas, Sonho vire Cinzas, Esperança vá por Águas Abaixo,
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Riqueza vire Fumaça, Conversa venha a ser Miolo de Pote, Desculpa seja Esfarrapada.

Tudo isto sem levar em conta o fato de que um ajuntamento de tantos malefícios, pode, a princípio, fazer um homem sentir-se estranhamente diminuído no mundo que o rodeia, e depois, numa sequência perversa, fazê-lo enxergar seu outro habitat – aquele situado entre os olhos e a nuca –, como uma casa mal-assombrada. E De La Onça, em algum momento, andou bem próximo dessa desagradável sensação.

E em outros, andou recordando (avaliando) sua própria involução ou inércia, revendo-se entre um cochilo e outro, a espreitar o penoso arrastar de horas em que sua vida se foi transformando, durante todo e qualquer momento daqueles dias ou meses em que não teve à sua frente um mero par de mãos, suas ou de outros, iniciando a distribuição das cartas.

E sempre naquele afã, único, de vivenciar a sequência de instantes preciosos, nos quais, haveria ainda de sentir uma espécie de lisonja íntima por saber-se então observado pelo tempo – não mais o contrário –, nessa situação passional e frívola de uma memória que, no máximo pode descrever a intenção de um gesto ou de seu arrependimento.

Gesto tomado na convicção cega da mera teimosia ou no regozijo entrecortado de cautela. Tendo porém De La Onça de apenas ficar atento às errantes cavilações do baralho, na eterna iminência de ver as cartas mover-se num único propósito: esse de executar o tão esperado balé, o sinuoso e longo balé que fará finalmente com que a bendita roda passe a girar em seu exclusivo benefício.

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Ou isso ou as apostas habituais sobre pendências que não lhe dizem menor respeito, ou ainda, negócios de tudo ou nada, inexplicavelmente estapafúrdios, pois podem fazer desde chave de casa perambular sobre pano verde de mesa, a boi que pacientemente rumina no campo, arriscar-se a ter, no outro dia que marchar para açougue mais próximo, ou pedaço de terra conservar nome que tinha, mas não, dono.

Conquanto uma delas, qualquer que seja, venha a converter-se em alternativa monetária com a qual se possa municiar de autoridade suficiente para, de uma vez, romper o cerco tedioso, o ciclo tenso, mudo e descontínuo das horas que vão de absoluto marasmo àquele fluir rápido e nervoso que não se vê passar, pois o que aí se pretende é anular as primeiras, nas quais, De La Onça – quase sempre –, acaba se refugiando em algum reclamado – mas sempre irremediável – lugar do passado, ou sempre muito despropositado do futuro, portanto despachando-as para longe de si, deixando assim de acumular perda irreparável de sua própria seiva pulsante, daquilo que tanto parece ser sua verdadeira natureza.

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Além do que, essa imensidão de tempo desperdiçado, essas horas inteiras estragadas não lhe reservam espaço de concentração, pausa ou descanso para o que, ansiosamente pretende, venha a seguir, e, pelo contrário, parecem criar certa confusão entre bastonetes do olho e papilas gustativas, ao despertar em si o apetite para produtos e gêneros que em dia algum haverão de ser comestíveis, alimentando com isso estranha sede de substâncias sólidas, sensações falhas que apenas contribuirão para uma nada justa apreciação – ou expectativa – das coisas.

Sem falar na constante depreciação de um quotidiano que, em função de tantas inobservâncias irá, de mais a mais, revelar-se ordinário e desprezível, e, dessa forma, passando a exigir propriedade adicional de viver em sonhos, fazendo surgir – em compensação – um certo e estranho tipo de sonho, desvinculado de qualquer aparente relação de passado ou futuro, e que é uma espécie de antítese do sonho, e teria, para nós, forma de alucinante realidade, semelhante à visão que gatos, ou coelhos, têm do mundo quando despertos.

Mas poder, quem sabe, sincronizá-las melhor (as horas) com seu cronômetro particular que não mede outra coisa a não ser uma sucessão interminável de pequenas vontades e apetências, sem ter com isso que atentar para essa constância mesquinha que são os pequenos prazos da vida, nos quais não há como não perceber os velhos artifícios do mando – e dessa intromissão aparentemente abstrata e certamente intencional em nossa vida, a se valer até de um mecanismo feito para contar o curso do tempo, quando tudo que acaba contando mesmo é o percurso de vida de alguns (nunca de todos) –, artifícios que costumam pesar até mesmo sobre os mais prosaicos exercícios de expansão do corpo, livrando-se assim deles, de modo que o simples ato de lavar-se, ou de não fazer absolutamente nada, se arraste pelo tempo que for necessário.

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Ou – o que talvez seja melhor –, poder ostentar expressão de alegria que até possa ser considerada de salão, contanto seja bem menos sigilosa, dada, porém, com mais frequência e menos embaraço do que normalmente tem ocorrido, e mesmo que tal expressão não vá além de estudada moldura, mas, também, desde que essa moldura, eventual ou fugaz, não importa, contenha toda envergadura do sorriso, e que este não mais se retraia sem antes ter gasto o tempo que lhe cabe por inteiro.

Adoecido pelo tremendo vício, e sem saber (suspeitar) que naquele ambiente algo podia ser arquitetado, ou vinha sendo, e nesse caso não exatamente contra ele, embora também nem um pouco a seu favor (do contrário saberia), mas contra tipos mais esporádicos: o pequeno fazendeiro que veio a cidade e fez negócio de venda, o sitiante velho e solitário, mas com algum no bolso, e que ali não viria se tivesse outro propósito que não o de livrar-se dele.

Ou de algo que já se encontrava em ação: na rotina dos repetidos parceiros, nas escolhas e decisões que às vezes se via obrigado a tomar rapidamente, para não quebrar ritmo estabelecido por parceiros de mesa que dificilmente vacilam com as cartas, no malogro daquela sequência de naipe que em seu momento havia surgido com cara de imbatível, na superstição dos locais de assento, onde estar de costas para florida – e suja – cortina de pano barato, muito pouco significa estar voltado para sul – para propícios de qualquer astrológica configuração –, mas apenas não ver nunca furtivo espelho: aparecia, desaparecia – sempre por trás de si.

E depois aquela sucessão de tentativas e transtornos, e de novas tentativas em livrar-se de algo que parecia não ter fim (a dívida), mesmo quando isso signifique fazer o empenho de alguns singelos propósitos, equivalendo dizer, na prática, penhorar aves e frutos com base em ovos que hão de chocar e árvores que hão de florescer, e isto, sem contar com toda uma loucura de estações se embaralhando, a um som abafado e frequente de tiros municiados de sal para apenas espantar predadores precoces,
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no máximo tirando uma lasquinha de sangue, na tentativa desesperada de conter a danação de moleques que vinham acostumados à violação das cercas.

Mas, hão sempre de ser pequenos – e momentâneos – esses incêndios regados à mera esperança, apesar de sempre bem acostumados a lavrar em espíritos encurralados pela ansiedade com a mesma notável volubilidade e mísera persistência de sempre, antes que um montículo de cinzas venha a ser resultado de alguém que, de certa forma, ateara fogo a um punhado de palha seca.

As coisas não acontecendo como muito bem podiam acontecer (não havia nada de mais em que acontecessem), e os dias nascendo para sua insônia qual tampão de armadilha que se abre à presa, e se tornando (os dias) num bom negócio de que deles não se guarde memória, e noutro ainda mais excelente: o de simplesmente não serem vividos.

Até que um acúmulo de coisas – sem para isso dispor de outra confidência que a de seus próprios nervos exauridos e no ponto de mutação da angústia, colocasse-o finalmente a par de que – em tal magnitude – tinha esse determinado problema, e, portanto, tudo estava resolvido.

Embora a essa altura se visse De La Onça metido em um cenário muito pouco promissor (momentos antes que finalmente viesse a proferir aquela frase espetacular e desesperada), e que lhe estava muito certamente a exigir acertos inadiáveis (da dívida), mas onde o montante da fatura que lhe vinha, até ali sendo imposta, e os meandros por onde ela (a dívida) se for- mou, não mais lhes fossem habilmente sonegados de ciência, e somente assim parando de crescer na obscuridade.

E onde os multiformes e incessantes labirintos, nos quais vamos todos, e aos poucos, deixando nossa sombra corriqueira, estivessem agora perfeitamente visíveis, ou pudessem claramente ser enfeixados na figura de um único e atroz minotauro, que era no entanto dessa espécie mais antiga, e que estivesse ainda desprovida – desvelada – da máscara formidável, e isto, diga-se, porque os fonemas estavam agora, todos, prontamente articuláveis, de modo que pau era pau e pedra era pedra, ou – Isso, nesse mundo (queixara-se ele), só acontece a mim e a Waldemar Candu.

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