A primeira vez que ouvi falar em Imbiribeira foi através da canção Rios, Pontes & Overdrives , mapeamento periférico do Recife do mang...

Imbiribeira e uma cidade assombrada pela saudade

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A primeira vez que ouvi falar em Imbiribeira foi através da canção Rios, Pontes & Overdrives, mapeamento periférico do Recife do mangue captado tão brilhantemente por Chico Science & Nação Zumbi:

É Macaxeira, Imbiribeira, Bom Pastor É o Ibura, Ipsep, Torreão, Casa Amarela Boa Viagem, Jenipapo, Bonifácio, Santo Amaro Madalena, Boa Vista, Dois Irmãos É Cais do Porto, é Caxangá, é Brasilit É Beberibe, é CDU, Capibaribe, é o Centrão, eu falei.

A primeira vez que ouvi falar em Toinho Castro foi através do poeta e estudioso do cordel, o paraibano Aderaldo Luciano,
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Toinho Castro ▪ Ed. Blooks
amigo do mesmo e ambos residentes no Rio de Janeiro, e não por acaso prefaciador do livro Imbiribeira.

Hoje reencontro este bairro recifense através das palavras de Toinho Castro, assim como reencontro Chico Sciense e Aderaldo Luciano, mas também direta e indiretamente Gilberto Freyre, Manuel Bandeira e tantos outros que contaram ou cantaram a cidade do Recife em diferentes tempos e espaços, quase sempre sobre o olhar das ruas centrais e históricas.

Toinho Castro como ele bem diz procura produzir em seu livro um outro Recife, de ordem e natureza diversa. É o Recife da Imbiribeira, do Ipsep, do Ibura, das favelas escondidas... “Um Recife desparecido, por definitivamente irrelevante, para além das pequenas vidas que ali se moviam e dali desapareceram”.

Neste sentido, Toinho Castro se aproxima muito mais do mapeamento crítico e periférico de Chico Science do que o processo nostálgico em busca do tempo perdido de Gilberto Freyre e Manuel Bandeira.

Entretanto, mais do que contar e cantar um Recife pouco ou nada registrado em verso, cinema ou fotografia, Toinho Castro representa uma cidade dentro de si, subjetiva, íntima, captada em flashes sombrios, através das lembranças da infância ou de uma “coletividade miúda”, escondida pelos ares do esquecimento social:

Éramos meio pobres, meio tristes, meio belos. Éramos filhos de tempos arruinados, sem ter exatamente pra onde ou de quem fugir. Éramos a Imbiribeira.

Mesmo procurando distanciar dos nostálgicos Gilberto Freyre e Manuel Bandeira, centrados em certos conservadorismos diante das mudanças urbanas do início do século XX, Toinho Castro acaba por se aproximar de ambos quando canta o Recife que não existe mais. Ou seja, o que os interligada em suas diferenças é o sentimento da saudade.

O historiador Raimundo Arrais afirma em seu estudo sobre o Recife “A capital da saudade” que a saudade é um traço fino, intemporal, situada acima das contingências históricas, e que acabou por mobilizar a escrita de vários autores pernambucanos, como Freyre, Mário Sette, Joaquim Cardoso e Manuel Bandeira. Este último imortalizou a capital pernambucana através do poema Evocação do Recife:

Recife... Rua da União... A casa de meu avô... Nunca pensei que ela acabasse! Tudo lá parecia impregnado de eternidade Recife... Meu avô morto. Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa do [meu avô].

A saudade nestes autores não provém, segundo Arrais, de amores ausentes nem do sentimento da “pátria distante”, mas se encontra no centro da cidade e um tempo definido: no Recife da infância. Neste sentido, Toinho Castro e Manuel Bandeira se encontram:

Penso no Recife e já não há Recife (...) Recife se foi, sem horizonte; restou nem ponte (...) Rio sem margem, tudo à margem e no centro.

Toinho Castro, portanto, apenas desloca o olhar da capital pernambucana, diferentemente dos seus antecessores, concentrando em um bairro, em um edifício, em uma família. E o mais importante, sem a nostalgia. Permanece uma infância e uma adolescência recriada pelas lembranças dos seus mortos ou pelos descobrimentos afetivos e etílicos.

Oscilando entre a prosa e a poesia, aproximando-se muitas vezes do ensaio, da crônica e da memória, em uma hibridez vibrante, Toinho Castro imprime com uma imprecisão consciente, uma fotografia assombrosa e íntima, captada em flashes em meio à escuridão da palavra.

Palavra farta que reúne à mesa gente que só. Janta é música de John Cage, ruído de pratos, talheres e silêncios movidos a sabor.

A consciência da memória, a necessidade da denúncia social, o rompante dos gestos que se foram no edifício Inês ou nas ruas escuras — Toinho Castro reconstrói um Recife eternizado pela noite, “um reino vagaluminoso e inalcançável”. Uma cidade assombrosa, apavorante, da qual ele e outros seres humanos são retratados como fantasmas. Há ainda em Castro a construção de um Recife que também se encontra nas águas intranquilas, amaldiçoadas devido às enchentes sucessivas e suas contínuas ondas de mortes.

Dos fantasmas e dos seus mortos, Toinho Castro vai criando uma cidade particular. Um Recife assombrado pela saudade. Longe da herança nostálgica, mas bem perto de uma infância recriada.

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