Tinha jeito de soldado velho, o Padre Lima. O jeito, o rosto e o jeito de falar. Escrevia como professor catedrático do Liceu que ainda a...

Padre Lima

conego francisco lima dom adauto centro historico joao pessoa
Tinha jeito de soldado velho, o Padre Lima. O jeito, o rosto e o jeito de falar. Escrevia como professor catedrático do Liceu que ainda alcancei, mas falava o necessário, só o necessário, como Marreiro, um soldado velho que arrastava os chinelos pela calçada do cartório de Alagoa Nova. Por sinal, Padre Lima também foi soldado.

Todo dia passava duas vezes pela janela de O Norte, numa das casas que o Bradesco derrubou para instalar seus serviços em João Pessoa: quando vinha da missa na Misericórdia e quando voltava à tarde da aula no Liceu.

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Sério, de pouca conversa, em sua obra de escritor enganou meio mundo: propôs-se escrever a vida de D. Adauto, como de fato escreveu, mas entrançada meio a meio com os acontecimentos grandes ou pequenos, religiosos ou profanos correspondentes ao tempo de vida e de vultosa atuação do primeiro arcebispo da Paraíba.

Guardo comigo a primeira edição, as margens cheias de anotações ou frisadas no texto, tomada de empréstimo à família do padre. Tão cheia de riscos engrandecedores da valia da obra, que terminei me acanhando de devolvê-la.

Agora mesmo, na entrada deste 2022, bicentenário da Independência, centenário de “Reflexões de uma cabra” do procurador-geral do Estado, José Américo de Almeida; centenário do grande monumento da época, a estátua erguida a Nossa Senhora de Lourdes, na Praça Dom Ulrico, no pátio da hoje Basílica das Neves.

“Monumento construído às expensas do monsenhor Francisco de Assis e Albuquerque, que gastara no mesmo o equivalente a 40 mil cruzeiros.”

Uma coisa é você viver o tempo descrito pelo Padre Lima, tempo também de eleições no plano federal, outra bem diferente é fazer como fiz: chamar um táxi e pedir para me deixar na praça que acabei de ver na grandiloquência descrita pelo velho padre e grande mestre. Não há desprezo, não há descuido, a estátua e a santa permanecem em sua inteireza de bronze e de ornatos. Mas para quem acabou de ler esse capítulo de D. Adauto, que solidão em pleno sol do meio-dia.

É certo que o pincel de cal que passaram no meio-fio ao rés do chão também passaram no pedestal de Lourdes. Mas a galera é outra, completamente outra. Eu mesmo deitei meus olhos na contemplação da Santa de Lourdes quando do encontro com a Virgem de Fátima, tudo aquilo, adro e praça, repleto de gente de todas as classes. Deu lugar a um belo discurso de José Américo, que era governador. E de lá pra cá, quantas vezes desci por ali, quantas subi a pé sem me ocorrer a ideia de parar um instante e reparar na grande homenageada de 1922.

O tempo não respeita nem mesmo as santas devoções. A do monsenhor que despendeu o equivalente, em seu tempo, ao valor de uma propriedade com casa, engenho e capela, destas, se existem, não são deste mundo.

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  1. Triste a sua constatação de que a memória desta antiga Cidade de Nossa Senhora das Neves está sendo, cada vez mais, corroída pelo tempo e pelo abandono de quem, por dever de ofício, deveria procurar conservá-la.
    A que ou a quem atribuir tal situação?

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