"O homem é um egoísmo mitigado por uma indolência" (Fernando Pessoa) Uma poeira fina levantada pelo vento, retirava a perfeit...

A indolência

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"O homem é um egoísmo mitigado por uma indolência"
(Fernando Pessoa)

Uma poeira fina levantada pelo vento, retirava a perfeita visibilidade do caminho. No auge do verão e no calor do meio dia, o ar condicionado do automóvel parecia um privilégio. A atenção que poderia ser definida como a direção da consciência sobre um objeto, nesse momento, era dispersa, vagava indistintamente sobre imagens, estímulos e sons, sem que se detivesse em nada especial. Mas, o ritmo da distração, de repente, sofreu uma mudança... um engarrafamento quilométrico se estendia à frente, formando um colar sequencial de pontos cinza, preto e branco, cores comuns aos carros atuais. Uma breve irritação pelo imprevisto buscou a agenda, anotou atividades para o final de semana, avisou no grupo do zap que haveria atraso na chegada, para que não suscitasse preocupação familiar. A água mineral e o biscoitinho caseiro anteciparam a diversão mais tardia.

G. Courbet
Tudo parado, e a imobilidade tomava forma, quando algo se movimentou ao lado do acostamento. Uma rede de um branco sujo, balançava sob uma tenda rústica, ladeada por vasos de cimento para plantas, de diferentes tamanhos e formas. Uma placa escrita a carvão, especificava os preços de cada objeto. Um rapaz de uns trinta anos, impulsionava com os pés o vaivém da rede. Enquanto observava o singular contexto, um motorista acessou ao lado da barraca, e fez perguntas sobre um jarro do seu interesse. O vendedor inclinou-se um pouco e respondeu sem demonstrar receptividade. O insucesso da venda provocou um maior embalo, oscilando de um lado para outro, como uma criança num parque de diversões. Certamente não havia o menor cuidado com a perda ou prejuízo…

Por um bom tempo, esse foi o horizonte que surpreendeu e aprisionou o olhar.

“Já me perguntei várias vezes, se os dias em que somos obrigados a ser ociosos, não são os que passamos na mais profunda atividade” (R M Rilke).

Resolvido o impasse do trânsito, restou a curiosidade que tão bem T. Elliot descreveu: “Não cessaremos nunca de explorar. E o fim de toda exploração, será chegar ao ponto de partida”.

O pensamento posterior questionava se o vendedor seria um indolente, um deprimido, ou se apenas prestava um favor de administrar por um período, o negócio de um amigo ou vizinho?

G. Courbet
A primeira possibilidade, caracterizá-lo como preguiçoso, trazia ensinamentos contrários, repassados na infância, frases soltas com poder mágico de se perpetuarem, e que obsessivamente tendiam a voltar, em situações como essa: “A maior doença que existe é a preguiça”, e todos os perfis de pessoas que perdiam o rumo na vida por conta da grave enfermidade... fragmentos de memória traziam a distribuição das tarefas domésticas, de acordo com a faixa etária das meninas. A casa da avó e a tarefa de trocar as flores do Santuário, a cada visita. Sim, havia uma hierarquia no trabalho, todos tinham que participar, e era prazeroso realizar bem o que fora destinado. O Colégio das freiras com suas doces regras, uma madre superiora francesa, rígida, que exigia o tratamento de Ma Mère... e a frase escrita diariamente no quadro negro, pela coordenadora do primário: ”Nada façamos pela metade”. Contribuições para uma vida voltada essencialmente para o trabalho e para a sensação de que essa tal de aposentadoria será o terror do futuro.

Como alguém tão jovem como o vendedor de jarros poderia nada produzir? Um pensador famoso, Montaigne, curiosamente mandou escrever no teto de sua biblioteca:

“No ano de Cristo de 1571, aos 38 anos, Michel de Montaigne, já desde muito entediado da escravidão da Corte do Parlamento e dos negócios públicos, sentindo-se ainda disposto, retira-se para repousar na calma e segurança, no seio das doutas virgens, onde atravessará os dias que lhe restam, esperando que o destino lhe permita aperfeiçoar esta habitação, estes doces retiros paternos, que ele consagrou à sua liberdade, à sua tranquilidade, ao seu ócio”.

No entanto, apesar de suas palavras, encontramos em escritos subsequentes, uma crítica à ociosidade: “Sem objetivo preciso, a alma se tresmalha, pois como se diz, é estar em nenhum lugar, estar em toda parte.”

E, reconheceu seu engano: “Ao contrário do que imaginava, caracolando como um cavalo em liberdade, cria o pensamento cem vezes maiores preocupações do que quando tinha o alvo preciso fora de si mesmo”.

G. Courbet
A segunda probabilidade imaginada sobre o vendedor: seria ele portador de um mal da alma? Um depressivo? E assim sua indolência, apatia, desinteresse pelo mundo exterior, poderiam ser justificados? Mas havia um detalhe que escapava a essa sintomatologia, o pé que empurrava a rede, estava bem feliz!

O que levaria o rapaz a se tornar tão irresponsável no seu trabalho?

“Do hábito da resignação nasce sempre a falta de interesse, a negligência, a indolência, a inatividade, e quase a imobilidade” (Giácomo Leopardi).

A terceira hipótese para elucidar a trama, o vendedor apenas ocuparia um posto de substituto do proprietário do lugar, talvez até agindo de bom coração? Precisaria de outra viagem com objetivos concisos. Faltavam dados para uma avaliação minimamente justa. A oportunidade chegou com uma compra de material de construção e a necessidade de receber no depósito da loja, na vizinha cidade. E, com a ansiedade das incertezas, logo no percurso de ida, surgiu a decisão de descobrir o segredo do vendedor. Estacionando ao lado da tenda, e demonstrando interesse na compra de uma jardineira, uma segunda presença foi constatada... uma senhora magrinha arrumava os pequenos vasos, e antecipou-se para atender a cliente, ao mesmo tempo, o vendedor sequer manifestou qualquer intenção de levantar-se. A pergunta que se seguiu foi de forma natural.

G. Courbet
-Quem é esse rapaz?

-É meu filho, falou temerosa de que ele a escutasse. Mas, não quer nada com a vida. Eu e o pai já tentamos tudo. Ele já arranjou emprego na Usina, na Fábrica de roupas, mas não demorou uma semana. O pai colocou a tenda para ele ter alguma ocupação, mas só gostava mesmo era de conversar, balançar na rede e dormir.

Enfim, o dilema se esclarecia. O mal da preguiça não deixava dúvidas. Analisando a queixa materna, o problema era insolúvel!

“O cansaço ronca em cima de uma pedra, enquanto a indolência acha duro o melhor travesseiro” (Shakespeare).

Mas, como o pai de Montaigne, alguém assumiria esse lugar, o da sustentação, de apoio, de facilitação, da sobrevivência dos sábios indolentes, que precisam do esforço e suor, do tempo de outra pessoa. Usufruem do que lhes apraz, sem culpas, sem consciência, com direito ao sono dos justos.

Ao retornar, no dia seguinte, a tentação de observar mais uma vez o vendedor se fez mais forte, e que surpresa aguardava a nova visão: Deitado na rede, balançando de lá para cá, o vendedor estava acompanhado de dois rapazes, um de cada lado, que impulsionavam a rede, poupando-o de fazer o mínimo esforço na realização do seu desejo.

“O sol que veste o dia O dia de vermelho O homem de preguiça Seca os rios Os sonhos Seca o corpo A sede na indolência (Secos e Molhados)


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  1. A dra. Marluce traz mais uma aula do curso de psicanálise. Quero saber se vou receber certificado, no final...
    Quando eu estava num plantão noturno, exausto, muitas vezes dormi sobre um conjunto de centro e puf.
    O menino é realmente indolente.
    Esta história me deu uma preguiiiiça!
    Parabens, Marluce! Ótimo texto!

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    1. Todos os seguidores de Macunaíma sentir-se-ao justificados...

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  2. Não é à tôa que a rede é uma instituição tão prezada nos desvãos de nosso viver.
    Quantas vezes, ao contrário de pensamento simplista a que se pode ser levado por um texto dessa natureza, esse "dolce far niente" embala uma capacidade de pensar altamente produtiva.
    Dai, a profundeza do pensamento a que o Dr. José Mário Espínola nos conduz.
    Pensemos...

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    1. Entendo o texto não como uma santificação do trabalho e satanização do ócio. Mas como o rapaz, por contar com o apoio - bem intencionado - dos pais, não se motiva nem se movimenta. Ao final, ele não quer mais sequer impulsionar o próprio peso na rede.

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  3. Ângela Bezerra de Castro9/2/22 13:39

    Que forma original de abordar um tema! Essa é a primeira qualidade do seu texto. Você recriou o real para que ele existisse em outra dimensão. Um real que você transubstanciou em linguagem, através da seleção perceptiva , do conhecimento e da sensibilidade. Assim, traduz um conceito, conferindo-lhe objetividade.

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  4. Em terra que tem um herói chamado Macunaíma, a indolência faz parte de um processo de construção do comportamento. Às críticas sobre a conduta do preguiçoso, se somam os modelos culturais onde no fim da tarde, sobretudo no interior e nos subúrbios das grandes cidades, as pessoas colocavam ( e ainda colocam) as cadeiras nas calçadas pra ver o mundo e falar da vida alheia.
    Um lado querendo a ação, o fazer, o produzir e outro gemendo de preguiça... ganha aquele que a gente alimenta!

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