Cedo acordei para a vida, vida de camponês que conviveu na brisa em período chuvoso e com as intemperes do verão. No tempo de adolescente,...

Atravessei o Rubicão

Cedo acordei para a vida, vida de camponês que conviveu na brisa em período chuvoso e com as intemperes do verão. No tempo de adolescente, quando as tormentas me consumiam em fogo brando, sem saber, construía espaços espirituais onde repousaria minha cabeça depois de recostado às paredes que me agasalharam. Os caminhos foram longos, tiveram pedras e espinhos, a todos transpus sem perceber. Demorei chegar, mas cheguei conduzido pelos ventos da esperança.

Antes do livro chegar às minhas mãos, tinha como visão do caminhar as águas dos regos que desaguam em pequenos riachos de meu sítio. Águas que seguiam por rios maiores até atingir o oceano, num caminhar lento, disponível ao aguo. A vida da gente é como o curso da água que começa na aldeinha e segue até o mar. O mar do conhecimento.

IHGP
Este mar foi a redação de jornais, a biblioteca de Nathanael Alves, a Associação Paraibana de Imprensa, o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, a União Brasileira de Escritores-Paraíba e a Academia Cabedelense de Ciências, Artes e Letras Litorânea que me acolheram no percurso das águas procedentes das vertentes de minha terra, que me conduziram pelo caminho até o oceano das artes.

O Jornalismo me deu muitas coisas, do agasalho para a família ao espaço onde recolhi muitas amizades.

Durante o percurso quando chegava o vento frio, encostava-me às sombras dos galhos, sem entender até hoje as mãos estendidas sem que eu formulasse pedido. Para prosseguir no meu caminhar, ultrapassei rochas lodosas e frias, acompanhado do canto mavioso da terra onde nasci, e prossegui abanado pelas folhas das palmeiras, aspergido pela aragem da madrugada e pela ramagem de árvores imaginárias que me circundavam com sua sombra.

Chegou um tempo em que atinei para outros rumos, evitava os valezinhos lodosos, sem luz do sol e nem clarão da lua, afastei os supostos amigos que me desviavam para o desfiladeiro do copo.
Halley Pacheco
Com eles estavam os rios secos, sem nenhum barramento para reter a água que fertilizaria a paisagem humana. Quando o mar agitado impedia navegar, segurava no remo e prosseguia em meio às tempestades. Em alguns trechos da caminhada, houve quem puxasse para os lados o curso da água, mas encontrei quem desse fulcro para minha existência, ajudou a construir pontes por onde passar, sem atropelar ninguém, o que se porventura tenho praticado, foi involuntariamente. Fui buscar no baú da Igreja a minha a fé que havia guardado.

Passei a escrever como uma forma de viver, tornou-se o alimento da alma, um modo de conviver com os outros e de ajudar a melhorar a sociedade. Isso descobri no terraço e acesso à biblioteca de Nathan.

Atuando em múltiplas atividades em redações de jornais, acredito conhecer certos aspectos dessa profissão, às vezes áspera, mas gratificante, pois me deu amigos e o agasalho à minha família. Com a imprensa livre, todo panorama é favorável a uma vida melhor, porque escrever é convidar o outro a partilhar de diálogo junto às almas na busca de comunhão fraterna.

Mary Snapp
Escrever é conviver consigo e abrir diálogo com os outros, mesmo que esteja distante e nem os conhecer. Busca-se no ato de escrever a proximidade com a linguagem divina, assim como deve ser por meio das artes, da poesia, da pintura, da escultura e da música. Homero atuou como um repórter e narrando os combates entre gregos e troianos, compôs a Ilíada, uma obra literária sem retoque, como são Os Sertões, Grande Sertão-veredas, livros de José Lins do Rego, alguma coisa de Machado de Assis, de Lima Barreto.

Muitos jornalistas de outros lugares e daqui, praticaram o Jornalismo de boa feitura, atingiram o gênero literário, sem retratar fugacidade, mas interpretando o dia a dia de sua época, com isso ajudaram na comunicação entre as pessoas.

O Jornalismo é o caminho sem desvio para se tornar literato, mesmo que com declives e córregos para atravessar.

Agora compreendo porque todas as águas procuram o mar. Não hesitei atravessar o Rubicão.

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