Em Homero não há gregos. A única vez que o termo aparece, na Ilíada , é no Canto II, quando da referência às naus e aos heróis comandados ...

Em Homero não há gregos

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Em Homero não há gregos. A única vez que o termo aparece, na Ilíada, é no Canto II, quando da referência às naus e aos heróis comandados por Aquiles. Eles são os Mirmidões, tanto chamados de Helenos quanto de Acaios (Μυρμιδόνες δὲ καλεῦντο καὶ Ἕλληνες καὶ Ἀχαιοί, verso 684). Não existem gregos, porque não existe uma Hélade (Ἑλλάδα, verso 683), senão, como uma das terras, além da Ftia, pertencente aos Mirmidões. Existem cidades-estados, cujo rei (βασιλεύς) pode ou não se aliar a um grande senhor (ἄναξ), num exército de coalizão. O termo Ἕλληνες, portanto, não rivaliza com aqueles patronímicos escolhidos para designar os heróis provenientes de várias regiões –
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O Sonho de Agamêmnon Bernard Picart ▪ 1710
Argivos, Aqueus, Acaios, Dânaos. Esta é uma das informações importantes do Canto II.

Reconheço que nem todo o mundo é fã do Canto II da Ilíada. Ouço frequentes questionamentos sobre a importância de um longo catálogo de naus e de heróis, para a narrativa. Como toda grande obra, explico que não há excrescências na Ilíada. O que ali se encontra é necessário para o desenvolvimento do que se apresenta no proêmio. Não há nada sobrando, como não há nada faltando.

O Canto II é de uma importância extrema para a compreensão da Ilíada. Os motivos são vários. Desdobrando-se em dois episódios – O sonho de Agamêmnon (versos 1-483) e o Catálogo das naus e dos heróis (versos 484-877) –, o segundo é uma consequência nítida do primeiro. A primeira compreensão que surge é a de que o Canto II dá continuidade ao Canto I, não porque venha na sequência, mas porque ele continua o conteúdo do banquete Olímpico, em que Apolo toca e as Musas cantam. Ainda que não esteja de todo expresso o que se canta, o assunto bem pode ser a guerra que está prestes a se desenrolar na planície troiana, após a saída de Aquiles e o seu propósito de retorno à Ftia. Nosso argumento se justifica com o fato de que as Musas cantam alternadamente com bela voz (ὀπὶ καλῇ, verso 604) o que Apolo rege na sua belíssima lira (φόρμιγγος περικαλλέος, verso 603).

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Apolo e as Musas no Monte Parnasso 1800 ▪ Rijksmuseum
Atente-se para o fato de que “bela voz”, expressão que se encontra no dativo, é exatamente a tradução do nome da Musa da poesia Épica, Calíope, Καλλιόπη, de que ocorreu apenas uma inversão. É assim que o Canto II tratará dos preparativos, após nove anos de permanência em Troia (versos 134 e 295), para o início da guerra, cuja tentativa de término se dará no Canto III, com o frustrado combate singular entre Páris e Menelau, e cujo início acontecerá no Canto IV, com a aristeia de Diomedes, depois de espicaçado em seu brio por Agamêmnon.

Dando continuidade ao Canto I, na sequência e no tema, no Canto II ratifica-se, a vontade de Zeus (Διὸς βουλή, Canto I, verso 5), já expressa no proêmio, agora com o desejo de honrar Aquiles (Ἀχιλῆα τιμήςῃ, versos 3 e 4), atendendo ao pedido de Thétis, ao infligir dores e gemidos aos Troianos (ἄλγεά τε στονακάς τε Τρωσί, versos 39-40), para isto,
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Em conflito mediado por Nestor, Aquiles acusa o rei Agamêmnon de ser ganancioso Bernard Picart ▪ 1710
ele envia o sonho funesto (οὖλον Ὄνειρον, verso 6) a Agamêmnon, tema da primeira parte deste Canto II.

As referências diretas à querela entre Aquiles e Agamêmnon, tema do Canto I, asseguram esta continuidade na fala de Tersites, acusando Agamêmnon de desonrar o Pelida, um homem mais valoroso do que o Atrida (versos 239-240); na fala de Agamêmnon, admitindo o conflito de réplicas brutais e hostilizantes contra Aquiles, por causa de Briseida (versos 377-378), em cujo discurso podemos verificar uma prolepse da reconciliação de ambos (versos 379-380), que se dará no Canto XXIII, quando da ocasião dos jogos fúnebres em honra a Pátrocles; no Catálogo das naus, depois de nomearem os guerreiros, as nações e as naus comandados por Aquiles, revela-se um herói encolerizado, por causa de Briseida dos belos cabelos (verso 689) e afligindo-se no seu coração, a que se associa uma prolepse de seu retorno à guerra (verso 694); na exaltação, enfim, dos melhores homens e cavalos, tema da segunda Invocação às Musas, quando há uma nova referência à saída de Aquiles da guerra, quedado junto às naus, guardando rancor contra Agamêmnon, o Atrida pastor das tropas (versos 772-773).

É importante constatar como se distribui a hierarquia, neste Canto II: Nestor encarna a virtude conselheira; Odisseus, a eloquência e a força moral de herói, sendo igual a Zeus na astúcia (Δίι μῆτιν ἀτάλαντον, verso 169 e 407), secundado por Palas, o que se fará mais presente na Odisseia; Aquiles é, sem dúvida o mais forte dos guerreiros (πολὺ φέρτατος, verso 769), tanto quanto o herói irrepreensível (ἀμύμονα, verso 770). Apenas pelo fato de estar ausente é que Ájax Telamonida faz-se o melhor dos heróis (ἀνδρῶν ἄριστος, verso 768). A importância de Aquiles na hierarquia argiva aumenta, quando sabemos que
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Troia ilustração da Ilíada, traduzida para o inglês por Alexander Pope, edição W. Bowyer ▪ 1720
ele comanda os Mirmidões, levados a Troia em 50 naus, número expressivo diante da excelência guerreira de seu comandante.

No estabelecimento dessa hierarquia, Agamêmnon encontra-se no topo. Seu poder de mando incontestável, como o poderoso (χρείων, verso 100), o pastor da tropa (ποιμένα λαῶν, verso 243) e o senhor dos heróis (ἄναξ ἀνδῶν, versos 434, 441), materializa-se no cetro. O poder físico e material de Agamêmnon, traduzido pelas naus que leva a Troia, não é ultrapassado por ninguém – Nestor, no comando dos Pílios, conduz 90 naus (versos 591-602); Diomedes, comandando os Argivos, e Idomeneu, os Cretenses, cada um leva 80 naus (versos 559-567; 645-652); Menelau, irmão de Agamêmnon e razão da ida de um exército de coalizão a Troia, para castigar os ímpetos e gemidos de Helena, no comando dos Lacedemônios, conduz apenas 60 naus (versos 581-590). Comandando os Micênios e, ao mesmo tempo comandante supremo de todas as tropas, Agamêmnon leva 100 naus a Troia (versos 569-580). Sendo o melhor, guiava muitas tropas mais numerosas (οὔνεκ᾿ ἄριστος ἔην, πολὺ δὲ πλείστους ἄγε λαούς, verso 580). Não é, no entanto, o poder físico que importa, mas o poder divino de que Agamêmnon foi investido, com a hierarquia sendo o que traduz a significação deste vocábulo, um princípio sagrado.

O poder material de Agamêmnon se junta ao poder divino e ao seu perfil de herói, daí a sua importância incontestável. No dizer de Nestor, Agamêmnon se diz o melhor dos Aqueus (ἄριστος Ἀχαιῶν, verso 82). A sua aparição diante da assembleia lhe concede esse privilégio, afinal ele detém o cetro, que lhe foi dado por Zeus.
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Gravura com a estátua de Zeus no templo de Olímpia (Phidias, apr. 440/430 a.C), uma das sete maravilhas do Mundo Antigo
Construído por Hefesto para Zeus, o cetro é passado a Hermes, que o dá a Pélope, daí a Atreu, que o repassa a Tiestes e deste a Agamêmnon, para reinar sobre toda Argos (versos 100-108). Odisseus, na tentativa de conter a debandada das tropas, fala duro com os reis que encontra e reafirma o poder divino de Agamêmnon – A sua honra vem de Zeus e Zeus, o mais sábio, o ama (τιμὴ δ᾿ ἐκ Διός ἐστι, φιλεῖ δέ ἐ μητίετα Ζεύς, verso 197). Na continuidade de suas admoestações, Odisseus deixa muito clara a origem do poder divino de Agamêmnon e da necessidade de se respeitar a hierarquia – o comando de muitos não é bom, um só seja soberano, um só o rei, poder concedido por Zeus, que lhe deu o cetro e as leis (ᾧ δῶκε Κρόνου πάϊς ἀγκυλομήτεω σκῆπτρόν τ᾿ ἠδὲ θέμιστας), para que delibere pelos demais (versos 204-206).

Na constituição do perfil de herói de Agamêmnon são importantes as referências a Zeus, como o portador da égide (Ζεὺς αἰγίοκος, versos 157, 348 e 375), e a presença de Palas Atena, sustentando-a. Além disso, vemos os símiles, recurso característico da épica clássica, construídos na comparação com as forças da natureza, de modo a mostrar a supremacia do Atrida e a dos Argivos por ele comandados.

A égide é o escudo de Zeus, aparecendo pela primeira vez na Ilíada, neste Canto II (versos 445-454), quando da organização das tropas, para a guerra, antecedendo o catálogo das naus e dos heróis.
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Palas Atena ▪ Marcantonio Raimondi ▪ 1526
Segurando a égide imperecível, muito honorável e imortal, Atena (versos 446-447) incita as tropas aqueias e excita, no coração de cada um, a força incessante, para guerrear e combater (versos 451-452).

Muitos são os Aqueus. As tropas são comparadas a abelhas compactas (μελισσάων ἁδινάων, verso 87) e a terra geme sob o peso das tropas sentadas (ὕπὸ δὲ στεναχίζετο γαῖα λαῶν ἱζόντων, versos 95-96), no momento da assembleia. Quando as tropas tentam a dispersão, são como as grandes ondas do mar Icário, que o Euro e o Noto levantam (φὴ κύματα μακρὰ θαλάσσης, πόντου Ἰκαρίοιο, τὰ μέν τ᾿ Εὖρός τε Νότος τε ὤρορ᾿, versos 144-145); como um fogo funesto incendiando imensa floresta, no cimo de uma montanha (πῦρ ἀΐδελον ἐπιφλέγει ἄσπετον ὕλην οὔρεος ἐν χορυφῇς, versos 455-6); do bronze terrível dos guerreiros sai um fulgor brilhante, que chega ao céu (ἀπὸ χαλκοῦ θεσπεσίοιο αἴγλη παμφανόωσα οὐρανον ἶκε, versos 457-458); os soldados avançam como muitas raças de pássaros alados (ὥς τ᾿ ὀρνίθων πετεηνῶν ἔθνεα πολλά, verso 459), voam, alegrando-se com um barulho agudo nas asas, postando-se uns diante dos outros e a pradaria ressoa fortemente (ποτῶνται ἀγαλλόμενα πτερύγεσσι, κλαγγηδὸν προκαθιζόντων, σμαραγεῖ δέ τε λειμών, versos 462-463); o solo, de modo terrível ressoa sob os pés da tropa e dos cavalos (ὑπὸ χθὼν σμερδαλέον κονάβιζε ποδῶν αὐτῶν τε καὶ ἵππων, versos 465-466). Todos se encontram posicionados na planície do Escamandro, aos milhares, tanto quanto as folhas e as flores que nascem na estação (μυρίοι, ὅσσα τε φύλλα καὶ ἄνθεα γίγνεται ὤρῃ, verso 468), e como as muitas raças de moscas compactadas ( Ἠΰτε μυιάων ἁδινάων ἔθνεα πολλά, versos 469).

Os comandantes, por sua vez, preparados para a guerra, aparecem, destacados dos demais, e cada um procura a sua tropa, como os pastores de cabras separam os seus rebanhos dispersos na planície (verso 474).
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Zeus observa o campo de batalha ▪ ilustração da Ilíada (John Ogilby) ▪ 1660
Dentre eles, assoma o poderoso Agamêmnon (κρείων Ἀγαμέμνων, versos 477), cuja divinização é tão incontestável, quanto a origem divina de seu poder: nos olhos e na cabeça, igual a Zeus, que se compraz com o trovão (ὄμματα καὶ κεφαλὴν ἴκελος Διὶ τερπικραύνῳ, verso 478); na cintura, igual a Ares; no tórax, a Poseidon ( Ἅρεΐ δὲ ζώνην, στέρνον δὲ Ποσειδάωνι, verso 479), destacando-se de todos como de um rebanho de bois se destaca um touro (ταῦρος, verso 481), Zeus, fazendo dele, naquele dia, superior e de honra extraordinária, dentre os muitos heróis (Ἀτρεΐδην θῆκε Ζεὺς ἤματι χείνῳ, ἐκπρεπέ᾿ ἐν πολλοῖσι καὶ ἒξοχον ἡρώεσσιν, versos 482-483).

Atente-se para o fato de que, dentre os três deuses enumerados para compor o perfil físico de Agamêmnon, apenas Zeus tem um epíteto, “o que se compraz com o trovão” (τερπικέραυνος). Trata-se de uma forma sutil de mostrar o deleite de Agamêmnon em mostrar a sua força, assim como apraz a Zeus demonstrar aos homens o seu poder.

Dois outros conceitos se instituem neste Canto II: o do herói, em contraponto ao covarde, e o de bárbaro. No momento da confusão estabelecida por Agamêmnon, ao colocar as tropas à prova, a debandada dos homens sequiosos de retornar à pátria é contida como já sabemos, com a ajuda de Nestor e de Odisseus. A diferença entre heróis e covarde é estabelecida, inicialmente, por Nestor e, em seguida por Agamêmnon. Temos aí o primeiro perfil do que é o herói clássico. Nestor propõe que Agamêmnon divida os chefes e suas tropas, assim se saberá quem é, dos chefes, covarde (ἡγεμόνων κακὸς, verso 365) e quem é valoroso (ἐσθλὸς, verso 366), porque lutarão separados uns dos outros. Deste modo, Agamêmnon terá a certeza de que Troia não será tomada pela vontade divina (θεσπεσίῃ, verso 367) ou pela vileza e imprudência dos heróis na guerra (ἦ ἀνδρῶν κακότητι καὶ ἀφραδίῃ πολέμοιο, verso 368).

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Ilustração da Ilíada (Alexander Pope), edição W. Bowyer ▪ 1720
O conselho de Nestor é elogiado por Agamêmnon, que incitará os guerreiros à prova na guerra odiosa (στυγερῷ Ἄρεϊ, verso 385), de modo a se definir quem é covarde, que é herói. A prova para a definição do herói se divide em duas etapas. A primeira é a preparação para o combate: os guerreiros deverão afiar bem a lança e bem armar-se com o escudo (verso 382); dar de comer bem aos cavalos de pés velozes (verso 383) e, tendo examinado bem ao redor do carro, desejar a guerra (εὖ ἅρματος ἀμφίς ἰδὼν πολέμοιο μεδέσθω, verso 384).

A segunda é o próprio combate: não haverá o menor repouso, se a noite, tendo vindo, não separar o ardor dos guerreiros; em torno do peito, suará o talabarte do escudo que protege um homem inteiro;
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Ilustração da Ilíada, na edição traduzida para o inglês por John Ogilby ▪ 1669
fatigar-se-á a mão em tono da lança; suará o cavalo, que puxa o carro polido (verso 386-390).

O covarde, por sua vez, se define pela vontade de se encontrar longe da batalha (ἀπάνευθε μάχης, verso 391), permanecendo junto às naus recurvas (παρὰ νηυςὶ κορωνίσιν, verso 392), mas não estará seguro de fugir dos cães e das aves de rapina (ἄρκιον ἐσσεῖται φυγέειν κύνας ἠδ᾿ οἰωνούς, versos 382-394), estabelecendo-se, assim, uma ligação com o proêmio (versos 4-5).

Canto estruturante, definindo as linhas fundamentais do poema – vontade dos deuses, soberania de Agamêmnon no poder material e no encargo divino, supremacia e unidade dos Argivos sobre os Troianos, estabelecimento do conceito de heroísmo – este Canto II também traz pela primeira vez o conceito do que é ser “bárbaro”. Bárbaro é quem não fala a língua dos Argivos, como os Cários, referidos no momento do catálogo dos Troianos e de seus aliados (versos 816-877), sem o brilho daquele dos Argivos. Para estes, Homero construiu duas invocações (484-493; 761-762); para aqueles, nenhuma. Quando os Cários são mencionados, são chamados de barbarofonos (Καρῶν βαραβαροφώνων, verso 867), os Cários de fala balbuciada, opondo-se à suavidade da língua grega, que havia juntado as vogais ao alfabeto fenício que adotara.

Para se compor um episódio de tal grandeza, só com a ajudas das Musas, grandeza traduzida na primeira das invocações deste Canto II.


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  1. Muito bom ver conhecimento tão detalhado de uma obra realmente deslumbrante.

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  2. Obrigado Solha!

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