Está aí um homem que encerra o curso dos seus dias sem nos sugerir a ideia de morte e sim a de completude. Viveu até onde lhe foi dado cu...

Mário Glauco Di Lascio

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Está aí um homem que encerra o curso dos seus dias sem nos sugerir a ideia de morte e sim a de completude. Viveu até onde lhe foi dado cultivar serenamente sua visão de mundo e entrar com o acréscimo do talento, do novo e do exemplo na formação de outros mários e na melhoria urbana da sua cidade.

Herdou a missão de um renovador da cidade da qual se fez natural, o arquiteto dos arquitetos Hermenegildo Di Lascio, e acrescentou a esse legado a parte que lhe coube, a do menino de Tambiá, cercado de belos frontais, de um casario identificado com a vaidade em voga, a arquitetura que o próprio Mário veio chamar depois de “arquitetura de almanaque”. A casa paterna era um modelo e ao mesmo tempo um display da arquitetura em voga.

Acervo familiar
Leigo, sem estudo regular, aprendi a ler com Mário um pouco da memória arquitetônica de uma cidade que soube harmonizar, por quase quatro séculos, a rua de interior nucleada pela rua da Saudade e as da metrópole com seus templos e seus palácios de registro nacional. Num dos nossos últimos passeios, ele já exilado para a restinga litorânea, paramos o carro atrás de São Francisco e saímos a pé pela rua de Santa Terezinha, onde começam as cadeiras nas calçadas, daí até se estender para o Parque Arruda Câmara. Íamos encontrando a quem dar boa-tarde e a quem, do povo, o chamava pelo nome. Felicitei-o por isso, e ouvi de coração tocado: “E é porque você não pôde ouvir das outras
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vezes, acostumados a perguntar por Nitinha. Moraram a vida inteira de casados na rua da frente, uma casa funcional lá pra dentro sem destoar com as fachadas tradicionais. Atrás de casa era ou foi sempre a Tambiá de Coriolano, ruas de casinhas, de gente nas janelas, dona das calçadas, conhecendo-se e conhecendo-nos. Rua de Alagoa Nova, de Aroeira, a poucas braças do barroco monumental.

Morei mais de vinte anos no Bairro dos Estados, cortando léguas de ruas para pegar o ônibus na Epitácio sem ter a quem dar um bom-dia ou receber um aceno.

Arquiteto de visão universal e humana, era com Mário Di Lascio que eu mais conversava essas coisas./ “Não somos nós apenas que sentimos esse vazio” – e mostrou-me um artigo de ninguém menos que o construtor do World Trade Center, o edifício ainda de pé, e ele, da cobertura, tentando avistar a casinha do homem, mesmo que fosse a do bairro judeu do East Side. Dali a massa de concreto se confundia, no mesmo material de cimento e ferro, com a textura cinza da corrente humana expulsa da rua pelo automóvel.

Arcevo familar
Não faltou ao registro do jornal o acervo de títulos e obras ou projetos que a cidade ficou devendo a seu arquiteto. Digo “seu” porque era ele sempre o convocado para sugerir ou opinar acerca das intervenções oficiais sem ciumeira de mestres da mesma área ou do mesmo nível de competência. Muita coisa, mesmo assim, fica fora de foco como seus cuidados efetivos com os órfãos do Jesus de Nazaret. É uma instituição do tempo de Walfredo Guedes, de Hermenegildo, de Rui Carneiro e da devoção de Mário Glauco Di Lascio.

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