Numa guerra quem primeiro morre é a verdade. Não busque a autoria da sentença, você se cansará. As opções vão de Ésquilo , o pai da tragéd...

A primeira vítima

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Numa guerra quem primeiro morre é a verdade. Não busque a autoria da sentença, você se cansará. As opções vão de Ésquilo, o pai da tragédia grega, até Snowden, o ex-agente da CIA, o sujeito em quem o governo americano quer pôr as mãos por haver dedurado o esquema de espionagem que ainda hoje escandaliza o planeta. Inimigo, ou amigo, ninguém escapa dos grampos do Tio Sam, mostrava Snowden nos idos de 2013.

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A autoria, porém, é o que menos importa, pois a frase lapidar tem atravessado os tempos e os conflitos. Em 1975, rendeu o livro “A primeira vítima”, em cujas páginas, quase seiscentas, o jornalista Phillip Knightley conta como a imprensa é usada para propagar mentiras no calor das batalhas, mesmo das internas, a exemplo dos combates da Guerra Civil Americana.

A derrota do último bastião da resistência ucraniana, em Mariupol, desmente o que vinham nos contando sobre o rumo dessa guerra as redações ocidentais dispostas à replicação de despachos como se fossem sucursais da Fox News.

É o tema central dessa conversa cujo começo não poderia ser outro: Todas as guerras são abomináveis. Onde quer que aconteçam, elas nascem do propósito de conquistar e dominar. Advêm da cobiça, da ganância e, assim, dos demônios que habitam o coração do bicho-homem. São decididas em gabinetes fechados, em recintos secretos, onde os muito ricos e poderosos batem ponto e tomam assento. Falo daqueles com grana e poder suficientes para dividir o mundo em pedaços, conforme lhes sejam o alcance e o tamanho dos exércitos. Falo da imensidão e da podridão de certos conglomerados e organizações. Trato, enfim, dos que lucram com o bombardeio de homens, mulheres e crianças.

No princípio, as brigas conduzidas pelos chefes tribais davam-se pela posse de fontes d’água, animais e lavouras. Em seguida, inventado o dinheiro, serviriam, também, à captura de seres humanos para as escravidões dos tempos bíblicos. Não menos, para a serventia abjeta, impiedosa, das colônias que a Europa cristã e civilizada espalharia no mundo. Sempre assim: a Bíblia na frente e a espada atrás.

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Ah, os homens de bem, seus princípios e seus cuidados... A cautela recomenda que deles desconfiemos. E me vem à lembrança uma frase atribuída a Millôr Fernandes: “Nunca vi uma guerra iniciada por um monte de bêbados”.

Também lembro dos idos de outubro de 1962, quando o Velho Clemente, nosso vizinho, consultava o prefeito da ocasião em busca de uma escavadeira. Pretendia transferir a família da cidade para um buraco no pé de serra onde mantinha o roçado.

É que ouvira no rádio sobre a iminência da terceira guerra mundial. Terceira e última porquanto se travaria com ogivas atômicas e, por consequência, com a extinção da humanidade. Achava que um buraco naqueles ermos, para onde levasse alguns móveis, a mulher e os filhos, poderia livrá-lo, e aos seus, da morte certa.

De hora em hora, com locução de Paulo Rosendo, o Informativo Tabajara, na emissora do mesmo nome, o punha em contato com os acontecimentos ao derredor de Cuba onde a Marinha de Guerra dos Estados Unidos tinha ordem do presidente Kennedy para afundar qualquer navio de bandeira soviética disposto a aportar em Havana.

Motivo daquela encrenca: aviões americanos haviam fotografado, dias antes, escavações em território cubano logo identificadas pelo Pentágono como procedimento para instalação de mísseis. Isso significaria bombas russas a menos de 200 quilômetros da Flórida. A ONU intercedeu com bons resultados: Khrushchov desistiu da empreitada e, então, Clemente em seus 80 anos, eu nos meus 15 e o resto do mundo respiramos aliviados. Foi a tal crise dos mísseis da qual São Google hoje nos dá conta, com lapsos de segundo, em centenas de matérias.

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Fico a pensar no que os netos do meu antigo vizinho acham, hoje, em dia, da guerra na Ucrânia. Será que a identificam como mais uma disputa entre os detentores dos dois maiores arsenais atômicos do planeta? Entendem, porventura, que a anexação da Ucrânia pela Otan representaria foguetes ocidentais apontados para o coração da Rússia a 300 quilômetros de Moscou? Percebem que a mesma confusão se repete, 60 anos depois, desta vez em sentido inverso?

Sabem, por fim, que estão em disputa, agora, os negócios trilionários do petróleo e do gás numa Europa dependente em 40% daquilo que os russos fornecem?

Acho que não sabem, posto que a propaganda de guerra, seja aonde for, decide quem é mocinho e quem é bandido, enquanto impede que as vozes do lado oposto falem ao julgamento dos povos. É assim aqui e na Cochinchina. Mas devem desconfiar de que as guerras somente existem porque há quem ganhe com elas, onde quer que se travem.

COMENTÁRIOS
  1. Flávio Ramalho de Brito27/5/22 16:27

    Infelizmente, Frutuoso essa coisa tão óbvia nem sempre é considerada como ponto de partida na análise dos conflitos: as guerras somente existem porque há quem ganhe com elas, onde quer que se travem.

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  2. Ângela Bezerra de Castrotro28/5/22 11:30

    Frutuoso, abordagem verdadeira, culta e inteligente, valiosa contribuição para conscientizar os que não pensam e ignoram as referências históricas. Parabéns, meu querido. Usarei seu texto em minha próxima aula, na APL, para os professores do Estado.

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