O retrato, um instantâneo em preto e branco surrupiado de algum arquivo de jornal, cai da minha pasta de guardados. O que pretende Zé Ra...

Como uma folha solta

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O retrato, um instantâneo em preto e branco surrupiado de algum arquivo de jornal, cai da minha pasta de guardados.

O que pretende Zé Ramalho dizer-me?

Está aqui do jeito que o conheci, suponho que nos seus cinquenta anos. Terno branco, gravata borboleta, valorizados pelo rosto duro, menos cheio e de linhas mais incisivas que o do filho Arael. Os óculos de lentes brancas acentuando ainda mais o ar de dureza.

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D. Sankowski
Mas, reparando bem, ensaia-se um riso, um ar de piada nos dois vincos discretíssimos que afluem da aba do nariz para a zona de humor do rosto, exatamente onde o aro grosso dos óculos se apoia. O físico de absoluta seriedade cede um pouco por alguma coisa que pinte em seu espírito.

Era um detector ultrassensível dos defeitos alheios. Numa roda, nas ruas, se à missa fosse, só era o que enxergava. A cara mais séria deste mundo, completamente estranha ao espírito zombeteiro que ele arrolhava lá dentro. Quando a gente ia com um reparo, a flagrada de algum deslize, algum cacoete, ele já vinha com as castanhas.

Tudo, porém, sem comprometer em nada a dura cara de seriedade.

Foi assim que praticou, no seu tempo, o mais assíduo jornalismo de pequenas e grandes denúncias. Descobrindo antes dos americanos que o leitor comum prefere a notícia curta, a bomba de quatro linhas, montava diariamente a sua “Conversa de Fila”, em O NORTE. Era a mais lida das colunas, indo do desvio de verba, da traição na urna, do bode morto na água de beber, do furto no peso, da sujeira no mercado ao pacote malcheiroso jogado pela vizinha no quintal da outra. E fazia, também, abalo em estruturas partidárias com o anúncio renitente de defecções e mais defecções. Uma vez, em pleno poder, o senador Rui telegrafou-lhe: “Suspenda debandada PSDpt Sua reivindicação já foi despachada”.

Contra a vontade da classe, que, nesse tempo, não queria nada, fundou e fez funcionar, a seu modo, o Sindicato dos Jornalistas. Saiu de redação em redação, de casa em casa, convencendo a militância alheia, dispersiva, a assinar os livros,
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D. Sankowski
a ir ao Ministério, a fazer o registro. Sindicato era coisa de operário, do cal e gesso, da construção civil; os intelectuais e literatos que compunham o jornalismo do tempo não se lixavam muito nisso. Ramalho levou à frente essa conquista, quase isolado. A sede do sindicato era ele, a pasta debaixo do braço, às vezes a mim confiada para algum dos seus mandados. “Vá ao Ministério”/ “Ainda faltam assinaturas, me ajude”.

Alguma demão que eu possa ter dado nessa fase solitária de espírito associativo, ele me compensou de modo a nunca o esquecer. Numa hora difícil, demitido do melhor emprego e sem poder me virar, interno num hospital em longo tratamento, ele usa o sindicato para me acudir com o auxílio-doença. O Sindicato ainda era uma ficção.

Outro dia li página quase inteira fazendo justa homenagem ao nosso Sindicato, o sindicato de Land Seixas, num de seus grandes dias, hoje com seu milhar ou bem mais que isso, sem que eu lesse uma referência, uma breve menção, uma linha, ao seu verdadeiro fundador.

Agora, sem maiores explicações, alui da estante, como uma folha ao vento, este instantâneo do meu velho amigo. Seria uma advertência?

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  1. Caro amigo Gonzaga

    Nós, familiares do “Zé Ramalho –um repórter das arábias”, como o chamou um correspondente do Diário da Noite (Recife/Pe), em sua edição de 7 de setembro de 1952, lhe agradecemos, profundamente sensibilizados com o seu reconhecimento de uma forma de proceder, dentre muitas outras, que ponteavam o seu viver.
    Adepto, a seu modo, do princípio cristão do “fazer o bem sem ver a quem”, meu pai foi dotado não só desse espírito cristão e da perspicácia ser “[...] um detector ultrassensível dos defeitos alheios”, como você bem acentua, mas, também, de uma sensibilidade, a toda prova, de apontar os talentos e a justeza do caráter das pessoas, como ocorreu comigo, quando me iniciava nos caminhos do jornalismo, na redação da velha e saudosa A União, quando ele me aconselhou, dizendo: “se acoste no [...] Gonzaga, sabe o que é o jornalismo e suas artes gráficas, contidas em um homem de bem”.
    Acompanhei de perto o caminhar do “velho jornalista” e o vi praticar sem titubeios, embora com outros olhos, esse princípio cristão, esquecendo com facilidade as muitas omissões, para não dizer ingratidões, que ele sofreu, virtude que tive a ventura de incorporar, não tão integralmente como ele decerto desejaria, pois guardo mágoas, o que ele não o fez.
    Sua lembrança é uma Medalha de Honra dada a um homem que como bem definiu o Sociólogo Lopes de Andrade ao dizer àquele mesmo confrade pernambucano que o chamou de “repórter das arábias”, “que “é um homem estudioso [...], mas tem os seus ‘quês’. Idealiza coisas do arco da velha”.
    Receba, pois, como diria muito apropriadamente, o velho Guerreiro Chacrinha, aquele abraço.

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