É história com quase 70 anos. Não sei dizer, exatamente, que idade eu então completava. E, creiam-me, não é para escondê-la. Mas acordei n...

Rasantes

É história com quase 70 anos. Não sei dizer, exatamente, que idade eu então completava. E, creiam-me, não é para escondê-la. Mas acordei naquela manhã de 6 de junho com um movimento incomum entre a cozinha de casa e o forno da nossa padaria, um percurso curto pela mesma calçada. Um peru rechonchudo e algumas galinhas, tudo isso temperado e disposto em bandejas feitas com latas de óleo (as mesmas onde se assavam os pães doces), iam e vinham para a guarda da minha mãe. E que ninguém ali metesse a mão até a hora do almoço.

Eu fora dormir na noite anterior informado por vias transversas de que haveria festa naquele sábado, dia do meu aniversário. Tinha ouvido o convite de dona Vininha às irmãs Rosa e Guajarina. “Venham almoçar amanhã com a gente”, gritara minha mãe por cima do muro que separava os dois quintais. Dessa mesma trincheira, as duas moças costumavam pedir um pouco do café que Maria Chico,
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nossa ajudante, torrava a capricho num fogo de lenha. Os grãos comprados crus iam para um tacho com mistura de açúcar bruto e logo o cheiro se espalhava por todo o quarteirão, desde a casa do Padre Gomes até o Grupo Escolar Dr. José Maria. O bater do pilão deveria soar aos ouvidos da vizinhança como o sino da Igreja. “Maria Chico tem as mãos de ouro”, costumava observar dr. Mário, o juiz que não recusava um cafezinho daqueles.

Que haveria festa eu sabia. Mas não com aquela dimensão, com aquele despropósito de pratos e cuidados. Não, aquilo tudo não seria apenas por mim, desconfiei. E a desconfiança se transformou em certeza quando tomei a bênção matutina e, em resposta, além do “Deus te abençoe”, recebi um beijo quase displicente. Minha mãe me afagou a cabeça, cumprimentou-me pela data e logo partiu para seus afazeres. Pus-me, então, de ouvidos abertos, em busca de qualquer fiapo de conversa, a fim de descobrir que fato tão importante motivaria um vai e vem daqueles.

Eis que chegou meu pai a recomendar pressa no preparo do almoço, pois o primo Draomiro pousaria às 11 horas no pasto do Compra Fiado, aquele pedaço de terra que viria a servir, anos mais tarde, ao campo de futebol do PREC, sigla do Pilar Recreativo Esporte Clube.

Que Draomiro? E que história de pouso era aquela? Mais um pouco e eu seria inteirado de tudo. Tratava-se de um aviador, parente de meu pai. Viria do Aeroclube do Recife acompanhado de mais dois amigos. Ou seja, três teco-tecos logo voariam
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nos céus da minha cidade e, isso, no dia do meu aniversário.

Ah, os meninos e suas ambições... Decidi tomar o fato como uma homenagem pessoal, pelo menos, até perder as esperanças de tal visita depois das 2 da tarde quando até meu pai, absolutamente constrangido, começava a se aborrecer com as chacotas dos amigos. “O que é aquilo?”, perguntava um deles com os olhos para o alto. “É o avião de Juca”, respondia outro. E haja risada.

Aquilo me foi dando todas as agonias do mundo. Intimamente, comecei a censurar o velho: “Por que ele não ficou calado, não deixou tudo por conta da surpresa? O que vai ser de mim na escola? Vou estar desmoralizado pelo resto da vida”, pensava com meus pequeninos botões.

Eis que, em dado momento, surge do nada o barulho de três motores. Os bichos chegaram pelo lado oposto, como que viessem de Natal. Devem ter feito a curva lá pelas bandas do Engenho Recreio. Passaram em altura tão baixa que por pouco não arrancaram o telhado da Casa de Câmara e Cadeia, local onde Dom Pedro II concedeu beija-mão à sociedade paraibana, nos idos de 1859.

Duvido que o Imperador, há 163 anos, houvesse ali provocado tamanho burburinho. Nem ele nem um certo Capitão, este último, há poucos dias, na visita feita aos pilarenses sem aviso prévio. O fato é que todo o Pilar correu para o Compra Fiado. Carro, cavalo, bicicleta ou, pura e simplesmente, o pé na estrada conduziram uma população quase inteira ao campo de pouso.

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Nunca me senti tão orgulhoso do velho Juca. Isso, sim, é que foi proeza. Uma semana inteira e a conversa não seria outra, senão a dos aviões do primo do meu pai. Até porque os pilotos fizeram sobrevoos pagos pelos interessados.

Houve quem criasse histórias, inventasse piadas das quais meu pai, evidentemente, não mais era alvo. Uma delas para aperrear uma doce alma, Seu Joaquim, dono de mercearia. Disseram que uma pirueta com giro de ponta-cabeça curou-lhe a gagueira com a qual se punha no mundo. “O homem, agora, fala como Barros de Alencar”, debochava o galego Gilson, ao comparar o pequeno merceeiro com o locutor de Uiraúna que em pouco tempo trocaria o microfone da Borborema de Campina Grande pelo da Rádio Tupi de São Paulo.

Vá entender a raça humana e sua natureza. Troca de vítima como quem troca de roupa. No fundo, no fundo, ri mesmo é de si própria. Não é não?

COMENTÁRIOS
  1. Lindas recordações
    Logo de início,pensei em Draomiro.
    No decorrer era ele mesmo o mocinho da história
    Lindo

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  2. Faz lembrar situações assemelhadas, vividas por muitos dos pilotos da aviação chamada de "pau e bola" (orientação de voo apenas com uso de bússola e intuição), que, muitas vezes, em seus voos atrevidos, como este, ou até mesmo heroicos, tinham como campos de pouso os muitos pastos e até alguns campos de futebol espalhados por esse nosso interiozão à toa, às vezes, até, tendo de esperar que os assistentes afastassem o gado que pastava inocentemente na linha de pouso daqueles gafanhotos estranhos.

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