Já escrevi sobre ele umas poucas linhas tempos atrás. E agora ele volta, provando sua permanência, sua eternidade, até diria. Refiro-me ...

Custódio, de novo

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Já escrevi sobre ele umas poucas linhas tempos atrás. E agora ele volta, provando sua permanência, sua eternidade, até diria. Refiro-me a Custódio, personagem do romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis, dono de uma confeitaria no Catete do século XIX, que foi consultar seu vizinho, o Conselheiro Aires, diplomata aposentado, sobre assunto grave e urgente: uma tabuleta que mandara pintar para colocar na fachada de seu estabelecimento. A trama é conhecida, mas vale a pena rememorá-la mais uma vez.

O comerciante mandara pintar uma nova placa para a sede de seu refinado comércio com os simples, suficientes, oportunos e sábios dizeres: “Confeitaria do Império”. Vivia-se então o reinado de Pedro II, de quase meio século,
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cuja estabilidade parecia eterna, não fossem a avançada idade do monarca e alguns gatos-pingados insatisfeitos, adeptos da República, coisa normal da política. Justificava-se, assim, a placa do confeiteiro e seu cuidado em agradar o regime em vigor, cuja aparente perenidade não se discutia naquele momento aparentemente tranquilo do país. Tudo como dantes no quartel de Abrantes, como se dizia à época e se continua a dizer agora, pois os homens não mudam – nem os quartéis.

Acontece que ocorrera, da noite para o dia, o que ninguém tinha previsto, nem o imperador nem os próprios golpistas: caíra a monarquia e instituíra-se a república, e, com isso, tornara-se caduca e, mais que isso, imprópria, quiçá perigosa, a tabuleta de Custódio, homem prático, como todo comerciante, mais preocupado com seu negócio que com o país, motivo que o levou urgentemente ao Conselheiro, homem sábio, acostumado a essas reviravoltas políticas, que saberia aconselhá-lo naquele delicado instante, cuja transitoriedade (ou não) restava ainda indefinida. O que fazer com a tabuleta já que império não mais havia?

Aires, sempre diplomático, sugeriu ao homem preocupado com a integridade de suas vidraças: “Mas pode por ‘Confeitaria da República’ ...”. Isso deveria resolver a questão. Custódio objetou, com o pragmatismo típico de sua corporação, que o novo regime poderia durar somente dois meses e a monarquia voltar. Aí, ele perderia novamente a placa e o dinheiro. Tinha razão e o Conselheiro pôs-se a pensar, até que lhe veio à mente um meio termo: “Confeitaria do Governo”, um nome que iria bem com monarquistas e com republicanos.
Afinal, tudo pode mudar, como no dia 15 de novembro de 1889: o vencedor de hoje pode perder e o derrotado de ontem pode vencer.
O comerciante, sempre com os pés no chão e a mão no bolso, argumentou mais uma vez: “... nenhum governo deixa de ter oposição. As oposições, quando descerem à rua, podem implicar comigo, imaginar que as desafio, e quebrarem-me a tabuleta”. Novamente estava certo. E assim prosseguiram a conversa, até que Aires sugeriu-lhe um nome que não haveria de levantar controvérsias: o seu próprio, isto é, do comerciante: “Confeitaria do Custódio”. É certo que não estaria salva a tabuleta já pintada em honra do Império, mas futuros problemas, sim. O comerciante gostou, não decidiu, foi para casa refletir, imagino que tenha adotado essa neutra solução. Voltemos então à realidade dos nossos dias, onde a querela não é entre Império e República, mas não deixa de ser um duelo semelhante, mesmo que haja quem diga, talvez não sem alguma razão, que os querelantes são todos farinha do mesmo saco.

O fato é que ano de eleição é sempre tempo de apreensão para os Custódios da vida. Afinal, tudo pode mudar, como no dia 15 de novembro de 1889: o vencedor de hoje pode perder e o derrotado de ontem pode vencer. E o que se fazer com a tabuleta antiga ou com a prestes a se mandar pintar? Será ela do Império, da República, ou simplesmente do Governo, qualquer que seja ele? Já começamos a ver de tudo, mas ainda veremos mais, não tenha dúvida, leitor. Todo mundo correndo atrás de um nome conveniente para sua confeitaria. E mais uma vez só se pensa no próprio negócio e não no Brasil.

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F. Moital
A propósito, um grande Custódio foi mesmo o marechal Deodoro da Fonseca. Era íntimo do velho imperador, frequentador contumaz do palácio e até compadre. Quando viu que corria o risco de deixar passar o cavalo selado à sua porta, não titubeou: montou no dito cujo, proclamou a República e expulsou do país, numa madrugada infame, o antigo amigo e benfeitor, um ancião.

Certas declarações recentes de algumas figuras que tenho lido e ouvido, por mais calejado que seja, surpreendem-me. Gente que era de um lado correndo para o outro, na contramão da coerência e da ética, cuspindo no prato em que comeu ou comendo no prato em que cuspiu sem nenhuma cerimônia. Procura-se um verdadeiro estadista e não se encontra. O que se tem muito são confeiteiros ávidos, consumados Custódios.

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  1. Rubens Nóbrega3/5/22 01:03

    Que texto, Professor! Bravo!

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  2. Anônimo3/5/22 01:33

    Sempre se superando ! Um texto inspirado em Machado com a sensibilidade e a inteligência do poeta Gil Messias , nos levando a realidade e a reflexão !

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