E o prazer de jogar! Durante a minha infância, eu costumava, pacientemente, ver meu pai, Francisco Espínola, jogar xadrez na antiga...

A nobre arte do Jogo de Xadrez

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E o prazer de jogar!

Durante a minha infância, eu costumava, pacientemente, ver meu pai, Francisco Espínola, jogar xadrez na antiga sede do Esporte Clube Cabo Branco, na esquina das ruas Duque de Caxias e Peregrino de Carvalho.

O Clube Cabo Branco foi cenário da minha infância e da minha juventude. Situado no centro de João Pessoa, o belo casarão, em estilo neoclássico, lá se encontra até hoje, sendo agora uma repartição pública municipal. Felizmente, tombaram e não derrubaram.

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Antiga sede do Clube Cabo Branco ▪ Parahyba do Norte ▪ Acervo UFPB
A sua localização, àquela época, era estratégica, pois atendia à maioria dos meus anseios. A sua frente dava para a igreja da Misericórdia, onde há um orifício, o óculo, que ao final da tarde do dia do equinócio ainda hoje projeta a luz do sol diretamente sobre o altar. No outro lado da rua estava o Cine Rex, de estilo arquitetônico moderno, palco de muitos dos melhores filmes da minha vida. Ao lado deste, o Foto Lyra, de José Lyra, exímio fotógrafo e pintor, sendo um dos melhores retratistas de João Pessoa.

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Igreja da Misericórdia ▪ Foto: Ruy Carvalho
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Cine Rex

Descendo a igreja da Misericórdia, em direção ao Ponto do Cem Réis, vinha a loja de artigos finos e interessantes, O Faqueiro, de Seu Ciro Medeiros, seguida do bar, lanchonete e restaurante Casa dos Frios, do amigo Leodécio, onde meu pai às vezes parava para bebericar um conhaque, antes de ir para o Cabo Branco.

Foi na Casa dos Frios onde eu tomei o primeiro porre da minha vida: rum Montilla com coca-cola, alternado com chopp, tendo salsichas e ovos cozidos coloridos como tira-gostos. Estava na excelente companhia de Fernando Furtado Filho e Idalvo Toscano, colegas do Pio X, todos da minha idade. Quase apanho de Mamãe quando cheguei a casa. Fui salvo por meu pai, que me botou
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José Mário Porto ▪ 1914—1985 ▪ Fonte: Porto & Maia Adv.
no chuveiro e despachou para dormir. A primeira ressaca a gente nunca esquece!

Voltando ao Cabo Branco, ao lado esquerdo ficava o elegante e fino restaurante Lido. Era lá que às vezes meu pai encontrava-se com velhos amigos. Lembro-me bem de Luiz de Oliveira Lima, ex-prefeito da Capital, o célebre advogado José Mário Porto, meu padrinho de crismas, e Heitor Gusmão, empresário.

Do lado direito do clube, depois do seu restaurante, estava a Biblioteca Estadual Augusto dos Anjos, que muito foi muito útil para mim quando eu estudava no curso ginasial, hoje ensino médio.

Foi no restaurante do Cabo Branco que eu travei conhecimento, ao fim da minha infância, com duas sensações que eu não consigo esquecer. Uma foi o ar condicionado (ainda sinto o seu cheiro!). Nessa época os cinemas daqui ainda não eram refrigerados a ar. A outra foi o sabor inigualável de pêssego em caldas com creme de chantilly. Às vezes meu pai comia uma deliciosa lagosta ao termidor lá com alguns amigos, e criou a oportunidade para que eu tivesse essas experiências.


Freqüentando o Clube Cabo Branco desde pequeno, ora na companhia do meu pai, ora esperando para assistir à matinê do Rex, na juventude passei a jogar xadrez ou gamão em sua sede. Porém não foi lá que eu aprendi a arte do xadrez. Foi na casa de Dr. Fernando Furtado (renomado dentista e pai do meu colega Fernando) que me casei com essa arte tão nobre, a qual pratico até hoje.

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Paulo Germano Furtado ▪ FB
Certa noite de novembro, em 1964, nós estávamos estudando para a prova final de história, que aconteceria na manhã seguinte. Foi quando Paulo Germano, irmão de Fernando e então acadêmico de Medicina, chegou com um jogo de peças e um tabuleiro. Foi ele quem nos ensinou a jogar. Ensinou as regras, os movimentos de cada peça, e foi dormir.

Largamos o estudo e varamos a noite jogando. Resultado, no dia seguinte não deu outra coisa: pau! Ficamos os dois em segunda época (hoje recuperação). Em casa levei uma surra de Mamãe. Felizmente, depois estudamos e passamos de ano. A partir daí o xadrez passou a me acompanhar ao longo da vida, até hoje eu pratico. Depois disso, nós passamos a “piruar” o xadrez do Cabo Branco, e aos poucos, depois de muitos cascudos dos enxadristas mais velhos, fomos nos mostrando e sendo admitidos entre aqueles grandes mestres que lá habitavam.

Lembro-me bem que, além de Chico Espínola, frequentavam o Cabo Branco o Dr. Arnaldo Tavares — um autêntico gênio em tudo o que fizesse —, Dr. Eugênio de Carvalho Júnior, Arnaldo Carneiro Leão, Romero Peixoto, os Irmãos Paraguay (Fernando e Ferdinando) Flávio Libânio — o Xaréu —, Seu Lyra, Zezinho Tavares,
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Francisco Espínola ▪ TJPB
o futuro grande cirurgião-pediatra Wilberto Trigueiro, O futuro advogado Frank Roberto Lins, o estudante de Medicina Wilson Ribeiro de Moraes e o irreverente colega do Liceu, João Bosco Della Bianca.

Poucos anos depois, meu pai me deu o livro Xadrez Básico, do Mestre D'Agostinni. Com ele aprendi muitas aberturas. Mas eu sempre joguei pelo prazer de jogar, sem muita preocupação com a teoria nem com os resultados. Só o suficiente que me permitisse obter muitas medalhas em diversos torneios ao longo da vida, para a alegria dos meus filhos e depois dos netos. Durante o curso médico, por exemplo, chegamos a conquistar o primeiro lugar nos Jogos Universitários. De 1976, eu acho.

Quando universitário eu freqüentava a Academia de Xadrez Caldas Viana, do jornalista Fernando Melo. Ele promovia freqüentes campeonatos, na companhia de Petrov Baltar, Gildemar Macedo, Crisóstomo Magalhães, os irmãos Fred e Ítalo, este o habilíssimo Pingüim, além de Chico Nogueira, Roberto Lessa, Marcelo Souto, Vuvuca, Bidunga e Boy. Comendo os deliciosos biscoitos regados ao café de Dona Ana Sá, irmã de Abdias e esposa de Fernando. Foi uma época memorável.

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Fernando Melo ▪ XadrezClube

Quando morei em São Paulo, cumprindo Residência Médica com o Professor Zerbini, cheguei a conhecer o Clube de Xadrez São Paulo, na Rua Araújo, mas nunca tive tempo para freqüentá-lo.

Passado algum tempo, já morando aqui em João Pessoa, voltei a praticar a nobre arte. Foi quando descobri a sala de xadrez do Sebo Cultural, ainda na Rua 13 de Maio. Jogavam lá Heriberto Coelho, dono da livraria, Ivanilson, os irmãos Renato e Rogério, o Grande Vandeílson, de saudosa memória, o juiz Francisco Néris, Evandro, de Campina Grande, entre muitas outras revelações do xadrez paraibano.

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Heriberto Coelho ▪ Livraria Sebo Cultural
Lá encontrei Ivo Bichara, um dos melhores enxadristas que já conheci, e que eu conhecia desde pequeno, pois era amigo dos meus irmãos João Neto e Silvino.


Ivo era um tipo muito interessante, esquisitíssimo, não tolerava a ignorância. Andando sempre com uma bandana na testa, ele foi o primeiro hippie de João Pessoa, quando estes ainda eram beatniks, e permaneceu hippie até a sua morte, aos 70 anos. Ele jogava por prazer. Era dono de uma técnica imbatível no jogo, na modalidade xadrez-relâmpago, com partidas de 5 minutos. Jogava rápido e certeiro, partidas ricas em sacrifícios de peças, que nem sempre davam certo.

Ivo Bichara era também muito espirituoso e crítico. Jovem ainda, numa missa surpreendeu a todos com uma resposta. Embora muito religioso, ele não resistiu
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Ivo Bichara ▪ Reino de Caissa
quando o Padre disse: “O Senhor esteja convosco”.E Ivo respondeu: “E contchigo também, pô!”

Era muito conhecido na cidade. Certa noite, já madrugada, estava com Silvino, Marcos Bizum, Aldemar Bitú e Arnaldo Vasconcelos, dividindo uma garrafa de rum com coca-cola no obelisco do centro da Praça da Independência, quando a polícia aproximou-se para ver se eram subversivos. Ao chegarem perto, um dos soldados disse: “Ah! Não é nada não, é só o Ivo Bichara!” E foram embora, continuando a ronda.

Noutra ocasião, Ivo foi preso durante uma passeata de protesto contra o regime militar. Na delegacia, o escrivão perguntou: “Nome?”. Ivo Bichara respondeu, pronunciando o nome em inglês, com sotaque carregado: “Áivô Bicharr”. O escrivão insistiu: “Como se soletra?”. Ele respondeu: “A minha obrigação é dizer o nome. A sua é saber escrever certo, pô!” Lá atrás o delegado falou: “Solta! Esse não tem jeito”.

Nas matinês do Rex, nos intervalos Ivo às vezes surpreendia ao cantar alto, boleros deliciosos, como La Barca, sentado na platéia esperando a próxima sessão. Agora, uma curiosidade: na estação de Poggibonsi, na Toscana, encontramos uma estátua masculina, de corpo inteiro, feita toda de pequenas latas enferrujadas. Na ocasião, a escultura portava uma bandana, o que a deixou parecidíssima com Ivo Bichara. Acho que ainda está lá.


Tempos depois passamos a jogar aos sábados à tarde no restaurante Tábua de Carne, na excelente companhia do saudoso médico José Severino Magalhães, além de Klebber Maux, Petrov Baltar, Mestre Umbelino, Edson Loureiro (que é o nosso Monsieur (Moustache), Genivaldo e seu filho Daniel, que é um excelente jogador, Anchieta Antas, Francisco Dantas, Antonio Dutra.
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Anchieta AntasReino de Caissa
Foram memoráveis tardes de sábado, sempre terminando com um delicioso galeto grelhado, seguido do doce baba-de-moça de sobremesa.

Além de excelente enxadrista, Zé Severino era um profundo conhecedor de música e, como eu, louco por ritmos, apreciando desde o calipso e o cha-cha-cha até o uca-uca dos índios xavantes!

Há poucos anos o meu amigo urologista Anchieta Antas me introduziu no Clube de Xadrez Miramar, do Mestre FIDE Francisco Cavalcanti. O MF Chiquinho Cavalcanti é o melhor jogador paraibano de xadrez da atualidade. Ele já participou de torneios de xadrez por todo o mundo, conhecendo diversos países e continentes. O seu clube é um primor de organização, o melhor da Paraíba. São 20 tabuleiros, equipados com relógios e jogos de peças. O clube é também uma escola de xadrez, onde estudam muitos jovens alunos, a maioria vindo de escolas públicas da Capital. Lá são formados futuros Mestres de Xadrez, como o atual campeão paraibano Luiz Tomaz.

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Luismar Brito
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Luiz Tomaz
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Francisco Cavalcanti

É muito bem freqüentado por Luismar Brito, que é o outro Mestre FIDE paraibano (eles são os dois únicos Mestres FIDE no nosso Estado). Luismar goza de prestígio internacional, pois teve longa passagem pelos tabuleiros dos Estados Unidos e da Europa, antes de retornar à João Pessoa.

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Clube de Xadrez Miramar ▪ Imagens Reino de Caissa
Também participam dos freqüentes torneios os enxadristas Eny Nóbrega, Alexandre César, Genildo, Luis Flávio Paiva, Zennedy, Targino, Valdemiza, Manassés, Dr. Arivânio, Jorge, Petrov Baltar, Dutra, Genivaldo, o jovem universitário de Medicina Luiz Tomaz, que é o atual campeão paraibano, a Tenente Rebeca, o professor Fabiano e Eudes, o carioca-paraibano. Durante muitos anos foi freqüentado, também, pelo saudosíssimo neurologista chileno Don Alejandro Telehoff.

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Valdemiza Gurgel
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Eny Nóbrega
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Rebeca Barros

Atualmente a Federação Paraibana de Xadrez está criando um novo clube, que coincidentemente funciona na sede esportiva do Clube Cabo Branco. Para mim, é como se eu estivesse voltando às origens.


Jogar xadrez, para mim, faz parte de tudo o que eu acho bom. É como beber um bom vinho, um suco de mangaba, comer um crèppe-suzette, tomar um sorvete de castanha com cajá, com cobertura de morango. É como namorar numa noite estrelada, deitado numa rede. É como mergulhar numa das piscinas naturais de Areia Vermelha. É como dançar twist, bolero e cha-cha-cha!

Pois foi justamente o xadrez quem me apresentou à minha querida esposa, Ilma. Eu a conheci numa tarde de setembro de 1972, no Clube Astréa, quando disputava os Jogos Universitários pela equipe de xadrez de Medicina. São 50 anos de namoro! Ilma é, portanto, a melhor medalha de ouro que eu já conquistei!

COMENTÁRIOS
  1. José Mário9/7/22 21:29

    Obrigado, amigo Walter, é uma honra ter leitores como você

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  2. Anônimo9/7/22 22:51

    Como sempre fantástico!

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  3. Anônimo9/7/22 22:51

    O anônimo sou eu, Genario.

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  4. Confissões de uma mente de "fino trato", como se ousava dizer em tempos idos.
    A grande realidade - incontestável, com que sempre nos deparamos, é que não há como negar aquela antiga afirmação de que o xadrez é o "jogo dos reis".

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    1. Agradeço as suas palavras tão gentis, Ararel, do meu colega psiquiatra Genario

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    2. Corrigindo: ARAEL

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  5. José Mário Espínola10/7/22 19:03

    Quero agradecer os comentários de todos vocês: Fausto, Walter, Eliane, Arael, Genário, Edilson. São muito estimulantes, me levando a escrever mais.

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  6. Ótimo texto sobre o xadrez na Paraíba. Parabéns José Mario!
    Lembro de ir com meu Vovô ao Cabo Branco e ficar com ele na Sala do Xadrez (a 1a. ao entrar). Gostava de ver as partidas rápidas (ping-pong), com o relógio em alguns minutos. Se caísse o jogador perdia! Certo dia o meu Vovô me presentiou com uma mesa e um jogo de madeira para jogarmos juntos, comprado no Rei dos Esportes!
    Tive aulas de xadrez com o Major, que deu essas aulas no Clube dos Engenheiros no tempo de Arnaldo na presidência. Parece-me que ele foi contratado para dar aulas de xadrez também na Lourdinas.
    Depois cheguei a participar de torneios no Dede, pelo Pio X, com os amigos Ronald Lucena e Einstein Almeida. Bons tempos!

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