No dia 24 de janeiro é celebrada a memória litúrgica de São Francisco de Sales (1562-1622), bispo e doutor da Igreja. Francês de nas...

Gilberto Freyre encontra São Francisco de Sales

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No dia 24 de janeiro é celebrada a memória litúrgica de São Francisco de Sales (1562-1622), bispo e doutor da Igreja. Francês de nascimento e advogado de profissão, é autor de dois grandes clássicos da espiritualidade católica: Filotéia: Introdução
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Francisco de Sales, sacerdote católico, nascido na Saboia (região atualmente francesa), declarado santo em 1665. ▪ Autor: Anon., Château de Bussy-Rabutin, França.
à Vida Devota e Tratado do Amor de Deus.

Exerceu o episcopado em Genebra, na Suíça, região marcada pela expansão do calvinismo, para onde partiu a pé em setembro de 1594, sem comida nem dinheiro. Ao chegar, percebeu que nenhum dos fiéis estava disposto a ouvir seus sermões. Então, passou a escrever bilhetes de próprio punho, colocando-os à soleira das portas. A distribuição desses folhetos foi diminuindo gradualmente e cessou por completo quando um grande número de pessoas da região se converteu e começou a frequentar seus sermões.

Em 1923, por ocasião do tricentenário da morte de São Francisco de Sales, o Papa Pio XI proclamou-o “Patrono dos Escritores”, por meio da encíclica Rerum Omnium Perturbationem (“A Perturbação de Todas as Coisas”, em tradução livre). No documento, o Pontífice aconselhava os jornalistas e escritores a “prestar especial atenção ao estilo literário e procurar expressar seus pensamentos com clareza e em linguagem bela, para que seus leitores se aproximem mais facilmente da verdade”.

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O jovem Gilberto Freyre (1900—1987), escritor, sociólogo, antropólogo, geógrafo, historiador, jornalista, poeta e pintor pernambucano, nascido no Recife. ▪ FGF
Naquele mesmo ano de 1923, certamente estimulado pela nova encíclica papal, Gilberto Freyre publicou no Diário de Pernambuco uma “entrevista” com São Francisco de Sales. O jovem e ainda pouco conhecido escritor pernambucano, que contava apenas 23 anos, era colaborador frequente do jornal, para o qual enviava crônicas desde os Estados Unidos, publicadas na coluna Da Outra América.

Depois de passar cinco anos nos Estados Unidos, onde estudou na Universidade de Baylor, no Texas, e na Universidade de Columbia, em Nova York, Freyre passou uma rápida temporada na Europa, de onde regressou em março de 1923 — dez anos antes da publicação da sua magnum opus, Casa Grande & Senzala.


Às margens do Hudson, uma conversa sobre jornalismo
O encontro de Freyre com São Francisco de Sales, evidentemente, nunca aconteceu. Trata-se de uma crônica espirituosa publicada na edição do Diário de 23 de abril. Freyre conta que seguia pela Riverside Drive, em Nova York, quando divisou um homem “esguio e só, o porte firme e fácil do fidalgo e, ao mesmo tempo, esse ar um tanto distante dos contemplativos”. Depois de observá-lo um pouco, não teve dúvida: aquele era mesmo o Gentleman Saint, concluiu.

Naquele tempo, um santo era para mim o mais distante dos seres. Chegara a conhecer um anjo: um santo, nunca. Imaginem, portanto, meu espanto diante de São Francisco de Sales. E logo quem — São Francisco de Sales!
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Freyre ficou estupefato com aquela aparição. Ver-se, de repente, diante de um santo em carne e osso era para desnortear qualquer um. Ele estacou, e São Francisco de Sales passou “com a maior fleuma deste mundo, um charuto apertado entre os dedos”. Já mais calmo diante da visão sobrenatural, Freyre pôs-se a seguir o santo, decidido a falar-lhe.

Logo adiante, quando São Francisco de Sales sentou-se num banco, naturalmente a gozar a doce paisagem do Hudson, aproximei-me, fiz uma mensura e tateando à procura de palavras sem saber ao certo como endereçar a meteórica figura, ia dizendo não sei o que, quando o santo até então muito sério acolheu a mensura com o melhor dos sorrisos e o mais amável dos bons-dias.
Já mais à vontade, Freyre perguntou ao santo como ele havia chegado à Nova York, se miraculosamente ou como qualquer reles mortal. São Francisco de Sales respondeu, sorrindo, que entrara como as outras pessoas: havia feito os exames de saúde, assinara os papéis de praxe...
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Diário de Pernambuco, edição do dia 23 de abril de 1923.
Somente fizera uso de sua mística faculdade de volatilizar-se para escapar dos jornalistas.

É aí que Freyre inicia o diálogo sobre jornalismo e passa a pôr na boca do santo expressões que hoje soam controversas, tanto pelo tom machista quanto pela inclinação autoritária — logo em São Francisco de Sales, conhecido como o “doutor da mansidão do coração”:

⏤ Ah, os jornalistas!

⏤ Terríveis os daqui principalmente quando vestem saias. E em toda parte a mesma coisa. É classe a que hoje envergonha pertencer.
Freyre, “agora todo ancho”, tentou sair em defesa dos jornalistas. Disse que no Brasil, sua pátria, a República foi obra da imprensa; que a espada do Marechal Deodoro foi um “mero luxo”, uma “simples nota de pitoresco”, quando comparada à pena dos jornalistas.

Vejam só. Na visão de Gilberto Freyre, São Francisco de Sales diria que o jornalismo brasileiro daqueles anos 1920 parecia concentrar o seu esforço na arte de xingar.
Em seguida, Freyre cita outras campanhas igualmente gloriosas, devidas ao trabalho da imprensa: a abolição, a correta colocação dos pronomes átonos, a defesa da honra nacional contra o “imperialismo dos argentinos invejosos”, idem contra as “intrusões da galegada”...

Todo tolerância, disse o santo ilustrado, que tudo isso era talvez verdade, porém que, atualmente, o jornalismo brasileiro parecia concentrar o seu esforço na arte de xingar — ou xingologia — isto é, a arte de “injuriar, de insultar, de rebaixar o adversário mediante o emprego de vocábulos descomedidos, soezes, ignóbeis e sujos”,
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Carlos de Laet (1847—1927), jornalista, professor e poeta natural da cidade do Rio de Janeiro. ▪ Fonte: Wikimedia.
palavras, acrescentava, do vosso Carlos de Laet.

Como se vê, São Francisco de Sales fez menção a Carlos de Laet (1847-1927), jornalista, professor e poeta, fundador da cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras. Monarquista e católico fervoroso, recebeu do Vaticano o título de conde.

Freyre, então, referiu-se a Carlos de Laet como um “mestre-escola caturra, velho lambareiro, um laudator temporis acti”. Pela ordem dos xingamentos, “caturra” é uma pessoa teimosa, agarrada a ideias antigas, conservadora ao extremo, que não aceita mudanças; “lambareiro” é alguém que bajula, puxa-saco, elogia com interesse; e laudator temporis acti é uma expressão latina que significa, em tradução livre, “aquele que elogia os tempos antigos”, alguém que idealiza o passado, que é nostálgico no mau sentido. É possível que Freyre tenha sido irônico, mas hoje, talvez, todos esses adjetivos seriam empregados a ele próprio por seus críticos, que não são poucos.

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São Francisco de Sales, sem amargor, mas com muita firmeza, respondeu:

O primeiro jornalista do Brasil, esse velho chamais infantilmente caturra. Não, não é por ser conde da Santa Sé que o digo. Há jornalistas-condes
que não valem coisa nenhuma: apenas sabem traduzir do francês e mal. O sr. Carlos de Laet este, não, é um dos velhinhos mais cultos que conheço; quando ele era menino ainda se estudavam no Brasil as humanidades. Porque no vosso rico país, a mania hoje é do prático, resultado daquele furor imitativo dos Estados Unidos que Eduardo Prado de longe adivinhou. Imitam o superficial, o sensacional, o facilmente acessível, divulgado pelos cinemas, pelos caixeiros viajantes, e pelos estudantes que de cá regressam após um ano, sem saber inglês, mas de posse dum diploma de doutor em eletricidade ou escrituração mercantil. Esquecem-se que — em país algum, exceto a Inglaterra, são mais demorados que aqui, nos Estados Unidos, os estudos de cultura geral.
São Francisco de Sales demonstrava íntimo conhecimento das coisas e dos homens do Brasil, reconheceu Freyre. Eduardo Prado (1860-1901), a quem ele se referiu, foi um dos fundadores da ABL, na qual ocupou a cadeira nº 40. Prado combateu a ingerência dos Estados Unidos na América Latina, lançando um livro polêmico, A Ilusão Americana, cuja primeira edição, de 1895, foi apreendida pelo governo brasileiro.

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Eduardo Prado (1860—1901), advogado, jornalista e escritor, natural da cidade de São Paulo. ▪ Fonte: Wikimedia.
Freyre conservou-se em silêncio, analisando agora os pormenores da fisionomia e do porte do santo: “a barba dum ruivo seco,
1 Empregado para terno masculino (casaco e calça) e, por vezes, feminino (com saia ou calça), é sinônimo de traje social ou de cerimônia.

2 Homem bem-arrumado, bem-cuidado ou aprumado, com cabelo e roupas em ordem, que demonstra atenção aos detalhes pessoais, como pele, barba e vestuário, transmitindo uma imagem de organização e estilo
o olhar ora duro, ora irônico, ora resignado; a elegância sóbria do fato azul cinza1; o Well groomed, mas sem exagero nem requinte2.”

Continuou, então, o santo:

⏤ Temo parecer radical, mas, ao meu ver, o Brasil precisa duma ditadura honesta e enérgica, que estabeleça por lá o respeito de Deus e da polícia. E um dos deveres dessa ditadura seria reduzir jornais e faculdades
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de direito e medicina ao mínimo: uns cinco ou seis jornais, duas faculdades de direito, uma ou duas de medicina.

⏤ Mas enquanto não vem essa ditadura messiânica, santo? — indagou Freyre.

⏤ Medidas repressivas. Quanto à profissão de imprensa, exigências tão severas de habilitações intelectuais, morais e civis que impusessem a esse ramo de atividade a célebre lei de Darwin, isto é, a sobrevivência do mais apto.
Vejam só. Na visão de Gilberto Freyre, São Francisco de Sales diria que o jornalismo brasileiro daqueles anos 1920 parecia concentrar o seu esforço na arte de xingar. Diria também que o Brasil precisava de uma “ditadura honesta e enérgica”, que reduzisse o número de jornais e de faculdades de medicina e direito ao mínimo, e que adotasse medidas repressivas contra a imprensa.


A xingologia dos panfletários
A crônica de Freyre não demorou a repercutir. Para adicionar ainda mais pimenta à história, circulava no Recife um semanário humorístico chamado A Pilhéria, fundado em setembro de 1921. A primeira seção do periódico publicada no sábado,
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A Pilhéria, edição de 5 de maio de 1923.
cinco de maio de 1923, trouxe a seguinte nota:

No dia em que completou anos, São Francisco de Sales foi ouvido, em entrevista, pelo conspícuo jornalista yankee, sr. Gilberto Freyre, entrevista que o “Diário” publicou domingo último.

Nessa entrevista foram escorchados os nossos jornalistas violentos.

Notando, nas entrelinhas, que houve propósito do entrevistado em dirigir indiretas ao seu último estilo, os conhecidos panfletários (futuristas puros) Nelson Firmo, Lins do Rego e Osório Borba, reuniram-se domingo, em assembleia geral extraordinária, na qual ficou resolvido divulgar-se que nenhum dos mesmos leu o artigo.
Segundo A Pilhéria, a crônica de Gilberto Freyre, embora omitisse os nomes dos praticantes da “xingologia”, tinha endereço certo: os “panfletários” Nelson Firmo, José Lins do Rego e Osório Borba. No ano anterior, José Lins do Rego e Osório Borba, então estudantes da Faculdade de Direito do Recife, fundaram o semanário Dom Casmurro, que era financiado por
3 FERNANDES, M. A. A relação cidade-campo no romance de José Lins do Rego. 2012. 137 f. Dissertação (Mestrado em Geografia). Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Paraíba. Disponível neste link. Acesso em 17 jan. 2026.
grupos políticos que faziam oposição aos irmãos José e Francisco Pessoa de Queiroz, donos do Jornal do Comércio. Já Nelson Firmo dirigia outro jornal, A Noite, cujas oficinas imprimiam o Dom Casmurro3. Ambos os jornais faziam duras críticas ao governo do Estado de Pernambuco.

O fato é que Dom Casmurro durou apenas 26 semanas. Um dia, o governador mandou a polícia fechar os jornais. O número 27 do semanário foi empastelado quando estava sendo impresso nas oficinas de A Noite.

Apesar dessa aparente controvérsia, ainda em 1923, o yankee Gilberto Freyre e o panfletário José Lins do Rego começaram a travar uma duradoura amizade, como fica expresso na correspondência de ambos. Assim escreveu
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José Lins sobre Freyre, em Dias Idos e Vividos, antologia organizada por Ivan Junqueira:

Em 1923 havia ele chegado da Europa. E andava em verdadeiras núpcias com a terra, após quase seis anos de ausência. Todo o Brasil lhe aparecia numa festa de luz, de cor, num deslumbramento. Os seus primeiros artigos eram com cartas de cronista saltando de caravela. Mas um cronista lúcido, de lucidez de quem via tudo criticando, sentido valores, verificando erros. [...] Estávamos no Brasil de depois da guerra. [...] Conheci Gilberto Freyre nessa época de prosperidade e estupidez. Por esse tempo era eu um jornalista de oposição, exaltado pelo panfleto político. Tudo em mim seria para desagradá-lo, a ele que estivera em Oxford, depois de formado em Columbia. [...]
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Gilberto Freyre e José Lins do Rego em passeio de barco na década de 1930, imagem que traduz a amizade e a convivência intelectual de dois nomes centrais da cultura brasileira do século XX.
Agora, imagine o leitor que tenha se deparado com São Francisco de Sales contemplando, não o rio Hudson, mas o Sanhauá de hoje, mais de 100 anos depois da “entrevista” de Freyre. Qual seria a avaliação do santo sobre o jornalismo brasileiro? Continua sendo uma classe à qual ele se envergonharia de pertencer? Certamente ele manteria a posição contra a “xingologia” que nós assistimos diariamente nos programas policialescos locais, ou exacerbada pela polarização política, ainda presente. Mas, como “doutor da mansidão e da doçura”, dificilmente endossaria qualquer tipo de solução autoritária, como aquela que Freyre pôs em sua boca.

Esse é, porém, um exercício imaginativo a ser posto em prática pelos nossos leitores, na seção de comentários.

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