Todo matuto autêntico é por natureza calado. Quem conhece, sabe. E aqui não estou usando a expressão “matuto” com viés depreciativo. ...

O silêncio do matuto

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Todo matuto autêntico é por natureza calado. Quem conhece, sabe. E aqui não estou usando a expressão “matuto” com viés depreciativo. Não. Utilizo esta palavra porque ela é bem nossa, nordestina e brasileira, e sempre foi a que serviu e serve para designar o homem do campo, o homem rural profundo, o homem do “mato”, como se costuma dizer. Hoje eles são bem menos, com a urbanização galopante do país, mas já foram muitos, milhões, até recentemente. São os trabalhadores das fazendas, dos sítios, dos pequenos pedaços de chão, os que estão sempre olhando para o céu, procurando adivinhar as chuvas, os que tangem os bois, os bodes e as ovelhas, os que vão à cidade no fim de semana comprar mantimentos rústicos nas feiras ou armazéns, os que ainda usam chapéu de couro, roupa de mescla e alpercata de rabicho.

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Sempre me impressionou esse silêncio dos matutos. Parece que se envergonham de falar muito – ou até mesmo pouco, como se achassem, talvez herança ancestral da escravidão, que não têm direito sequer à palavra. Mas há algo além dessa suposta vergonha e timidez: é uma sabedoria de vida que os faz limitarem-se, no falar, apenas ao essencial, dispensando todo o supérfluo tagarela, típico dos citadinos. Ouvem mais do que falam, sempre. Nunca tomam a palavra; restringem-se a responder laconicamente as perguntas que lhes são feitas. E isso é algo que passa de pai para filho, constituindo um traço cultural facilmente identificável, do mesmo modo que neles as mãos grossas, calejadas, são um traço físico concretamente palpável. Os matutos são sempre econômicos com as palavras. Não por avareza, mas porque elas lhes faltam mesmo. Seu vocabulário limita-se normalmente ao mínimo. É como se para eles as vinte e três letras do alfabeto fossem demais. Como se só precisassem de algumas vogais e algumas consoantes.

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Convivi pouco com matutos genuínos, mas o que neles observei, foi o suficiente para registrar esse silêncio característico, além de outras peculiaridades antropológicas e culturais. Sem falar no que aprendi através da literatura. E aqui, não há como não lembrar os livros de José Lins do Rego, de José Américo de Almeida, de Rachel de Queiroz e de outros autores que fizeram do matuto personagem de suas obras. Deixei, de propósito, para citar Graciliano Ramos separadamente, para dedicar-lhe umas linhas a mais, notadamente sobre o já clássico Fabiano de Vidas secas, tão sabiamente analisado pelo professor da USP Ivan Marques, em seu notável livro para amar Graciliano, Faro Editorial, 2017.

Fabiano, como se sabe, é um matuto típico, em todos os sentidos. Assim como o seleiro Amaro, de Fogo morto, de Zé Lins. Ambos são taciturnos, conversam mais de si para si que com os outros, seu monólogo é realmente interior, pertence ao âmbito dos pensamentos e das cogitações, raramente emerge para a exterioridade de ouvidos alheios. Em Vidas secas, o grande feito literário de Graciliano foi ter penetrado no hipotético pensamento de Fabiano, dando-lhe uma expressão factível. Pelas palavras criativas do escritor alagoano, o vaqueiro rude pensou o que talvez um Fabiano da vida real não conseguisse pensar, face a absoluta pobreza vocabular. Por isso, para a crítica especializada, Vidas secas é considerado um romance psicológico, o que, em certa medida, o diferencia de outros romances regionalistas nordestinos.

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Deixemos o narrador de Vidas secas discorrer sobre Fabiano: “Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e perigosas”. Sim, para Fabiano, como para todos os matutos, é mais fácil falar com os animais do que com as pessoas. A cachorra Baleia – e até os bois – compreendiam-no muito mais, sem precisar de palavras, só com os sons de seus gritos e resmungos. Nesse sentido, Fabiano era mais bicho que homem, feito os seus semelhantes.

Numa carta de 1937 à sua mulher Heloísa, Graciliano escreveu: “Os meus matutos também não falam, e isto é um buraco. Vou ver se consigo adivinhar o que eles pensam, mas sem reproduzir a linguagem deles”. Esta difícil tarefa certamente foi mais fácil para o escritor do que adivinhar o que ia pela cabeça da cachorra Baleia, que sonhava com um céu cheio de preás. Seu êxito consagrou o livro como um dos mais importantes de nossas letras.

Mas volto ao silêncio do matuto. Seu exemplar consumado é o mineiro do interior profundo das Minas Gerais. Principalmente os da região sertaneja, o grande sertão de Guimarães Rosa e de Afonso Arinos, o primeiro. Ali, a palavra nunca corre solta, é moeda que raramente sai do bolso dos viventes. Estes costumam contemplar muito as paisagens, auscultar pacientemente as nuvens, balançar vez em quando a cabeça, mas falar, que é bom, nada; apenas resmungos, exclamações, onomatopeias, como bem disse Graciliano.

Em essência, todo matuto é igual. Na sua reserva, desconfiada ou respeitosa, e no seu silêncio. Neste aspecto, temos muito a aprender com eles, penso, principalmente nestes tempos de tanta tagarelice inútil ao celular.

Por último, não esqueçamos que, ao lado de sua natureza taciturna, o matuto também não fala, do ponto de vista social e político, porque não tem voz, nunca teve. Sua alegada cidadania é mais fictícia que real. Sempre viveu na senzala, sendo preto ou não, geralmente trabalhando na terra alheia, morando em casebres, quase um miserável. Quanto a isto, os matutos de Graciliano diferem pouco dos de agora. Fabiano vive. E resiste.

COMENTÁRIOS
  1. José Mário Espínola11/7/22 12:21

    O autor retrata a alma dos nossos sertanejos mais humildes. Eles, realmente, economizam nas palavras. Observam mais do que falam.
    Lembra o que meu pai me dizia: "Temos dois ouvidos para ouvir, e apenas uma boca para falar!"
    Parabens, Chaguinhas!

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