Deslizo sobre o meu velho caderno de receitas e me vejo repentinamente instalada na vitalidade de antigas cozinhas familiares, cujo poder de evocação vem da vida vivida ali, do afeto partilhado em singulares combinações de cores e odores, e dos sabores que dali saiam, até hoje incomparáveis, inesquecíveis. Não, não se falava em gastronomia, não havia supermercados. Minha tia comprava o “coxão” de porco no habitual vendedor de quem já era conhecida freguesa, e a batata doce, que tradicionalmente era seu acompanhamento, não podia vir de outro lugar que não daquele monturo acumulado no chão da feira pelas mãos de Manoel Cesário, que também vendia inhame e macaxeira, expostos do mesmo modo.
Marianna Portela
Um copo, um prato fundo, um pires, uma xícara, um punhado, uma pitada, eram os padrões de medida das receitas transmitidas oralmente que, sem exatidão, revelavam a excelência da cozinheira de “mão boa” que, intuitivamente, dosava os temperos, controlava o calor do fogão e dava expansão ao aroma que tomava a casa inteira, agudizando apetites e estimulando a gula. Comandadas por tia Dó, tia Lala, tia Lourdinha, as cozinhas eram redutos de delícias, paraísos de intensos paladares, sem os artifícios enganosos e obsessivos do “gourmet” de hoje.
O velho caderno que tenho em mãos, iniciado em 6 de janeiro de 1977, quando, com pouco mais de vinte anos morei em São Paulo, traz não somente sabores de outrora, mas aviva lembranças de alegres encontros, pormenores exaltantes de amizades que perduram até hoje, consolidadas por fraterno compadrio.
Não é à toa, penso, que escritores como Câmara Cascudo e Gilberto Freyre, assinalaram o valor que a cozinha tem para a formação da identidade cultural brasileira. Em nossos tempos bizarros, quando muitos incautos são enganados patrocinando insuportáveis pedantices como sábados gourmets ou domingueiras de alta gastronomia à beira mar, sinto falta, como Rubem Alves, do artesanato e da alegria da cozinha simples de antigamente.
Luisella Planeta