Dizem que o escritor é um observador, um ser reflexivo, analítico, crítico das pessoas e do mundo que está ao seu redor. Se existi...

Já olhou ao seu redor?

sao paulo grafitti poesia urbana
Dizem que o escritor é um observador, um ser reflexivo, analítico, crítico das pessoas e do mundo que está ao seu redor. Se existir um lado ruim do ato de observar, eu diria que é perceber coisas que deveriam ter sido percebidas e solucionadas. Talvez seja por isso que nossos representantes
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S. Paulo ▪ Foto: B. Makori
não queiram observar, enquanto as crianças são tão observadoras?

Considero-me um observador nato. Tenho memória quase fotográfica: capto as cenas reais do meu entorno, os comportamentos das pessoas, os diálogos, e os guardo com facilidade por longos períodos.

Recordo-me de quando, ainda criança, estudava na Biblioteca Municipal da minha cidade natal. Observava as cenas que aconteciam ao meu redor: percebia a displicência de alguns funcionários e a dedicação de outros; a falta de manutenção dos mobiliários, com estantes de livros enferrujadas; o zelo da bibliotecária com as fichas catalográficas, numa época em que tudo era manual e não existia informática; as cores das portas e do prédio, que mudavam conforme o partido do prefeito. Em cada cena, um olhar atento, pronto para captar, em cada ação, uma oportunidade de reflexão.

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S. Paulo ▪ Foto: B. Mendes
Na adolescência, matava aula e me debruçava em uma das janelas que davam acesso à avenida principal, apenas para ouvir o som da cidade, observar o trânsito, o fluxo dos carros, o ir e vir das pessoas que por ali passavam. Achava tudo aquilo poético! Esse mesmo olhar poético também vislumbrei quando, já adulto, visitei São Paulo pela primeira vez. Vi poesia em meio à correria diária do metrô: pessoas atarefadas, apressadas, de todas as tribos, estilos e idades, entrando e saindo das estações — jovens, idosos, homens engravatados, adolescentes de bermuda e chinelo, advogados, ambulantes, skatistas, jornalistas, moribundos. Esse repertório me ajudou, posteriormente, a compor uma poesia sobre a arte do caos:

Há poesia no caos Eis que, do ônibus lotado, vejo o mundo pela janela quebrada, embaçada. Vejo os olhares perdidos, assustados, preocupados. Vejo a correria diária, eu vejo o lixo. Vejo os flanelinhas, os moradores de rua, as criancinhas. Eu vejo o trem, os carros, os caminhões, o metrô. Eu vejo as luzes, o outdoor, a procissão, a Via Crucis. A cidade. Arte eu vejo.
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S. Paulo ▪ Foto: E. Pedro
Como admiro — e sou grato — às pessoas de sensibilidade e arte que buscam melhorar as paredes cinzas e o concreto das grandes e pequenas cidades, embelezando-as com arte para que possamos limpar os olhos. Pessoas como José Datrino, o Profeta Gentileza, que ficou conhecido por escrever e pintar frases de amor e respeito ao próximo nas pilastras do Viaduto do Caju, no centro do Rio de Janeiro. E também o muralista internacional Cobra, que grafita em enormes prédios de São Paulo.

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S. Paulo ▪ Foto: B. Mendes
Mas nas ruas não observo apenas artistas visuais. Vejo também pessoas comuns que fazem um esforço diário para melhorar a vida do outro: voluntários que realizam ações sociais, distribuindo comida, sopa, roupas e agasalhos; avós levando seus netos à escola, de mãos dadas, debaixo do guarda-chuva ou sob o sol; mães humildes cedendo um espaço no quintal para que o filho construa sua casa. Coisa linda de se ver!

É, de fato, estou convencido. Sou um observador e vou lhes confessar: para escrever, despretensiosamente, faço a leitura do mundo. Das visões que a vida me oferece, narro histórias, crio personagens, inspirados em tudo aquilo que vejo. Vejo as coisas ao meu redor como arte. Que sorte a minha, e a dos meus leitores, por ter nascido um observador nato. Graças a esse dom, nunca me faltam histórias para contar.

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