O Poema de Parmênides , também conhecido como Sobre a Natureza , constitui um dos marcos fundadores do pensamento filosófico ocidental...

O Poema de Parmênides

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O Poema de Parmênides, também conhecido como Sobre a Natureza, constitui um dos marcos fundadores do pensamento filosófico ocidental. Escrito em versos hexamétricos — forma tradicional da poesia épica grega —, o texto apresenta uma singular fusão entre linguagem poética, mito e especulação racional. Essa escolha formal não é acidental: Parmênides escreve no limiar entre dois mundos — o da tradição mítica arcaica e o da filosofia nascente —, fazendo de sua obra uma travessia simbólica entre o canto dos deuses e a razão do homem.

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O poema é fragmentário, preservado por citações de autores posteriores, mas sua estrutura fundamental permanece clara: divide-se em três partes — o prólogo, o caminho da Verdade (Alétheia) e o caminho da Opinião (Dóxa). Essa organização não apenas orienta o conteúdo filosófico, como também carrega profundo significado literário e simbólico.

O prólogo: a viagem iniciática
O prólogo do poema é uma das passagens mais belas e enigmáticas da literatura filosófica antiga. Nele, o eu poético narra uma viagem em uma carruagem conduzida por éguas velozes, guiada pelas filhas do Sol, que o conduzem além dos limites do mundo dos mortais até a presença de uma deusa da verdade. Essa cena possui inequívoco caráter iniciático: trata-se de uma passagem ritual do domínio da ignorância para o do conhecimento.

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Literariamente, Parmênides dialoga com a tradição órfica e hesiódica, utilizando imagens solares, portas cósmicas e figuras femininas divinas que guardam o acesso ao saber. Contudo, o que distingue esse prólogo é sua função simbólica: a razão não nasce do cotidiano, mas de uma ruptura; conhecer exige atravessar fronteiras. A filosofia, assim, surge como experiência radical, quase sagrada.

A viagem não é apenas espacial, mas ontológica. O poeta-filósofo abandona o mundo das aparências sensíveis para adentrar o domínio do ser. O mito não contradiz a razão — ele a prepara.

O caminho da Verdade: o ser como necessidade absoluta
Na parte central do poema, Parmênides apresenta sua tese mais célebre e mais perturbadora: o ser é, o não-ser não é. Essa afirmação, de aparência simples, desencadeia uma das mais profundas revoluções do pensamento humano.

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Do ponto de vista literário, o discurso assume tom solene, quase oracular. A deusa fala em sentenças firmes, sem hesitação, como se a própria linguagem fosse submetida à necessidade lógica. Não há metáforas excessivas, mas afirmações categóricas. O estilo reflete o conteúdo: o ser é uno, imóvel, eterno, ingênito e imperecível — e o discurso que o descreve deve possuir a mesma firmeza.

Parmênides rompe com toda tradição cosmológica anterior, que buscava explicar o mundo por meio da transformação dos elementos. Para ele, o devir é impensável. Se algo muda, então deixa de ser o que era — e isso implicaria o não-ser, o que é impossível. Assim, o movimento, o nascimento e a morte pertencem apenas à ilusão dos sentidos.

Literariamente, essa seção do poema produz um efeito paradoxal: o leitor experimenta uma violência intelectual. O texto não seduz — ele impõe. A poesia deixa de ser encantamento e torna-se rigor. É uma poesia que pensa, e um pensamento que exige obediência.

O caminho da Opinião: a aparência do mundo
Após estabelecer a Verdade, a deusa apresenta o caminho da Dóxa, isto é, das opiniões dos mortais. Aqui, Parmênides descreve o mundo tal como aparece: múltiplo, mutável, dividido em opostos como luz e noite, quente e frio, vida e morte.

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Essa parte é profundamente irônica. Embora apresente uma cosmologia aparentemente semelhante à dos filósofos da natureza, ela é declaradamente falsa — útil apenas como concessão pedagógica à condição humana. O mundo sensível é um arranjo ilusório, uma narrativa necessária para aqueles que não conseguem sustentar o peso da verdade do ser.

Do ponto de vista literário, essa duplicidade é magistral: Parmênides escreve um poema que contém, conscientemente, uma parte que ele mesmo considera enganosa. Surge aqui uma tensão estética e filosófica rara — o poeta cria aquilo que sabe ser ilusão, demonstrando que a linguagem humana, quando fala do mundo, inevitavelmente constrói ficções.

A escolha do verso épico é um dos aspectos mais fascinantes da obra. Parmênides utiliza a linguagem da tradição para subvertê-la. Onde Homero cantava heróis e Hesíodo narrava a genealogia dos deuses, Parmênides canta o ser. A epopeia deixa de ser narrativa de feitos e torna-se ontologia.

Essa operação literária marca uma ruptura decisiva: o pensamento filosófico nasce dentro da poesia, mas já anuncia sua superação. O poema é, ao mesmo tempo, culminação
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da poesia arcaica e prenúncio de sua crise. Depois de Parmênides, a filosofia jamais será a mesma — e a poesia tampouco.

A influência do Poema de Parmênides atravessa toda a história da filosofia: Platão dialoga diretamente com ele; Aristóteles constrói sua metafísica em resposta às suas teses; Heidegger, séculos depois, vê em Parmênides o pensador originário do ser.

Mas sua importância não é apenas filosófica. Literariamente, trata-se de uma obra radical, que transforma o poema em espaço de pensamento absoluto. O texto não busca agradar, mas fundar. Sua beleza não está na emoção, mas na gravidade.

Parmênides inaugura uma literatura do essencial — uma escrita em que cada verso carrega o peso do que não pode ser negado.

O Poema de Parmênides é uma obra liminar: entre mito e razão, entre poesia e filosofia, entre o sensível e o inteligível. Sua força crítica reside justamente nessa tensão. Ao afirmar a supremacia do ser e denunciar o mundo da experiência como ilusão, o poema questiona não apenas o conhecimento humano, mas a própria confiança na realidade.

Mais do que explicar o mundo, Parmênides o suspende. E nesse silêncio ontológico que ele inaugura, nasce a filosofia.

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