Há certas leituras que não nos chegam como mero dever intelectual, mas como um sobressalto da existência. Aconteceu comigo nos anos 90, quando abri O Primo Basílio pela primeira vez. O livro constava na lista de leituras obrigatórias para o vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), uma daquelas imposições acadêmicas que costumam afugentar os espíritos mais jovens. Mas o que parecia um fardo escolar revelou-se, no virar das primeiras páginas, uma fulgurante paixão à primeira vista. Não apenas por aquele romance em si, mas pela arquitetura literária de Eça de Queiroz como um todo.
Eça de Queiroz ▪️ GD'Art
O aspecto mais assombroso de retornar a Eça é constatar a atemporalidade e a frescura de sua narrativa. Escrito no coração do século XIX, sob os rigorosos preceitos do Realismo-Naturalismo, o texto possui um vigor e uma leveza urbana que parecem ter sido gestados na imprensa de hoje de manhã. Não há a poeira dos séculos sobre as palavras de Eça. O que há é um espelho dinâmico onde as relações humanas, as vaidades e as motivações mais íntimas continuam refletidas com terrível fidelidade.
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Recordo-me com clareza da sensação de ser gradativamente capturado pelo enredo. Eça possui o dom divino de conduzir o leitor para dentro da intimidade psicológica de suas criaturas. Ficamos tão próximos de Luísa, a burguesa de Lisboa, que quase conseguimos ouvir o resfolegar de seus anseios e a pulsação de seus receios. Tornamo-nos cúmplices involuntários da dinâmica de seus sentimentos e do rumo de suas escolhas.
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"Sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!"
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A descrição do envolvimento entre os dois é magistral. Cada olhar trocado, cada bilhete secreto no "Paraíso" carrega uma densidade psicológica que nos enreda sem remédio.
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O Primo Basílio permanece vivo porque a matéria-prima de Eça de Queiroz nunca caducou: a capacidade de revelar a alma humana em toda a sua complexidade.












