Uma biografia por Anna Funder Ed. Companhia das Letras Tradução: Denise Bottmann O livro abre com 3 epígrafes: “O amor sexual ou...

A vida invisível da Sra. Orwell

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Uma biografia por Anna Funder
Ed. Companhia das Letras Tradução: Denise Bottmann
O livro abre com 3 epígrafes:

“O amor sexual ou não é muito trabalhoso” (Georges Orwell) “Todos nós inventamos as pessoas que amamos” (Phyllis Rose) “Homens e mulheres leem livros para amar mais a vida” (Vivian Gornick)

Tudo começa quando Anna Funder encontra em um Sebo uma coleção de ensaios e cartas de Orwell de 1968 e diz que gostava muito do autor por sua visão clara do poder e seu humor auto depressivo. Orwell é um dos maiores escritores do século XX seus livros mais conhecidos são A fazenda dos animais e o maravilhoso 1984.

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A autora parte de seis cartas encontradas da esposa de Orwell e aprofunda sua pesquisa sobre a vida do casal com foco na vida de Eileen O’Shaughnessy, a primeira esposa de George Orwell. A biografia é entremeada pela narração da vida do casal e o seu próprio método da escrita: ao narrar vai cerzindo o texto também com seu cotidiano, assombrada pelo que vai descobrindo sobre a história do apagamento da mulher com o desenvolvimento do patriarcado. Ao descobrir a tirania de Orwell e as “pequenas ortodoxias da sua época” ela diz que também vai se libertar das suas próprias e fugir desse apagamento da mulher.

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O que Anna Funder vai tentar é tirar Eileen da sua invisibilidade. Eileen O’Shaughnessy era formada em Oxford possuía mestrado em Psicologia Educacional, em Londres trabalhava para o Ministério de alimentação. Ela pertencia a uma família de classe média alta e obteve bolsa para Oxford pra estudar língua e literatura inglesas concentrando-se em Chaucer e Wordsworth. Chegou a publicar crônicas em jornais e deu palestras. Quis ser professora, mas as universidades não admitiam mulheres na época. Ela certamente teve um papel valoroso na vida do escritor, contribuindo muito para a sua escrita, pois revisava e datilografava seus escritos, e contribuía com sugestões de temas e de títulos para sua obra. Além de sobrar para ela os cuidados da casa em condições extremamente penosos.

A biógrafa mostra como Orwell nunca a mencionou em seus livros, nem mesmo seus biógrafos falam sobre ela. É como se ela não existisse, entretanto, foi uma mulher altamente participativa e atuante junto ao trabalho do marido e foi inclusive combatente na Guerra Civil Espanhola, como o marido.

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O que o leitor acaba percebendo é a enorme invisibilidade da mulher. E a relação desigual do casal. À medida que vamos desvendando seu comportamento na intimidade, toda a admiração pelo escritor vai desmoronando e tomando o lugar da decepção e sua imagem sendo desconstruída. A própria família de Orwell o tinha como alguém difícil. No dia do casamento a mãe diz pra Eileen: “Você deve ser uma moça de coragem, se sabe onde está se metendo. Ele é uma pessoa impossível de se viver”.

Segundo Engels o patriarcado se desenvolveu quando as sociedades nômades de caçadores se tornaram sedentárias. Os homens passaram a reivindicar a terra, os animais, as mulheres, a progenitura. E foi assim que os homens passaram a controlar a sexualidade feminina, a herança, o comando, o protagonismo em tudo.

Dentro dessa análise a historiadora Gerda Lerner afirmou:

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“As mulheres foram os primeiros escravos”

A autora-biógrafa diz que “a maneira mais insidiosa de omitir as ações das mulheres é o uso da voz passiva ou do sujeito indeterminado.”

Eric Arthur Blair quando começa a publicar cria um pseudônimo: Georges Orwell. Curiosamente o editor que se recusou a publicar seu primeiro texto, “Na pior em Paris e em Londres “acaba se tornando seu editor para o resto da vida.

Não sei explicar, mas gostaria de encerrar esse texto com alguns versos de Borges do poema:

As causas
Todas as gerações e os poentes. Os dias e nenhum foi o primeiro. A frescura da água na garganta De Adão. O ordenado Paraíso. O olho decifrando a maior treva.
O amor dos lobos ao raiar da alba. A palavra. O hexâmetro. Os espelhos. A Torre de Babel e a soberba. A lua que os Caldeus observaram. As areias inúmeras do Ganges. Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou. As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas. Os passos do errante labirinto. O infinito linho de Penélope. O tempo circular, o dos estóicos. A moeda na boca de quem morre. O peso de uma espada na balança. Cada vã gota de água na clepsidra. As águias e os fastos, as legiões. Na manhã de Farsália Júlio César. A penumbra das cruzes sobre a terra. O xadrez e a álgebra dos Persas. Os vestígios das longas migrações. A conquista de reinos pela espada. A bússola incessante. O mar aberto. O eco do relógio na memória. O rei que pelo gume é justiçado. O incalculável pó que foi exércitos. A voz do rouxinol da Dinamarca. A escrupulosa linha do calígrafo. O rosto do suicida visto ao espelho. O ás do batoteiro. O ávido ouro. As formas de uma nuvem no deserto. Cada arabesco do caleidoscópio. Cada remorso e também cada lágrima. Foram precisas todas essas coisas Para que um dia as nossas mãos se unissem.

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