Dos seus contemporâneos, é provável que reste apenas entre nós Gonzaga Rodrigues, contumaz frequentador do “senadinho”, como alguns chamavam seu gabinete na Praça 1817, sempre ou quase sempre cheio de políticos, jornalistas e amigos, que ali compareciam para o cafezinho e a conversa sobre os acontecimentos do Brasil e do mundo. Uma conversa que, a depender do tempo lá fora, podia ser mais ou menos cautelosa, pois a dura experiência ensinara que até as paredes tinham ouvidos. Não que ali se conspirasse a favor ou
Praça 1817 (Centro Histórico de João Pessoa ▪️ Facebook: João Pessoa Ontem e Hoje
contra nada; ali apenas se jogava conversa fora, sem intenções nem finalidades, salvo ajudar o tempo a passar e construir a impressão ou a fantasia de que, mesmo passivamente, exerciam algum tipo de cidadania, aquela que lhes restara depois do vendaval.
Os habitués eram quase sempre os mesmos, os da planície provinciana, políticos, ex-políticos, intelectuais e amigos: um Pedro Gondim, um Walter Arcoverde, um Gonzaga Rodrigues, um Waldir dos Santos Lima, um Sílvio Porto, um Mário Silveira, um Aloysio Pereira, um Jório Machado, um Biu Ramos, um Rubens Falcão (o tenente Rubinho), um Judivan Cabral, um João Manoel de Carvalho e outros mais cuja lembrança agora me foge. Mas não eram raros os visitantes detentores de cargos brasilienses: um João Agripino, um Antonio Mariz, um José Maranhão, um Wilson Braga, por exemplo. Todos acolhidos pelo sorriso largo do anfitrião, que, com aquelas presenças ruidosas, espantava sua solidão de cassado e ex-cassado, se a tivesse. Digo isso, porque nunca o ouvi lamentar-se do que sofreu durante a tempestade que sobre si (e tantos mais) caiu no dia 13 de março de 1969. E o fato de que não quis retornar à política após a recuperação de seus direitos de cidadão prova a sua capacidade – ou o seu dom – de não voltar o olhar para trás e de seguir adiante.
Dom José Maria Pires ▪️ Fonte: Fundação Margarida Alves
Daí nunca ter procurado identificar o responsável direto por sua cassação, se é que houve. Os nomes de possíveis algozes vez em quando eram levantados por alguém de seu círculo, pois sabia-se que muitos vitoriosos de 1964 aproveitaram a onda favorável para afastar adversários locais, de modo a ampliar suas bases eleitorais. Ele ouvia em silêncio essas hipóteses, sem demonstrar interesse em conferi-las. Mas algumas de suas iniciativas parlamentares bem podem ter contribuído para a cassação, como, por exemplo, a concessão do título de cidadão paraibano a Dom José Maria Pires, persona non grata para os governantes, e o projeto de divisão de uma parte de Camaratuba em lotes de 15 hectares, para 100 famílias de agricultores sem terra. Naqueles tempos, isso era o bastante.
Mas era ele socialista? De modo algum. Era um liberal, mas dotado de uma forte preocupação com a justiça social, como muitos que hoje se situam equidistantes dos extremos ideológicos. O que explica sua ótima convivência, por exemplo, com um Ernani Sátiro e com um Antonio Mariz, o primeiro mais à direita e o segundo mais à esquerda, como se sabe.
Samuel Duarte, jurista, jornalista, escritor e político brasileiro, ex-presidente da Câmara dos Deputados, nascido em Alagoa Nova (PB) ▪️ Fonte: camara.leg.br
O revés da cassação aproximou-o muito de Pedro Gondim, de cujo governo foi líder na Assembleia Legislativa. Entre os dois firmou-se uma bela amizade fundada na experiência comum do ostracismo e das dificuldades pertinentes. Com João Agripino, a relação era mais formal, mas muito cordial, marcada por sua sempre renovada gratidão àquele que, sendo justo e corajoso, deu-lhe a mão para que se levantasse do chão, numa época em que muitos lhe viravam as costas.
Outro nome que não pode ser esquecido em sua trajetória é o de Samuel Duarte, seu iniciador na política estadual. Foi Samuel que o indicou como o candidato de Esperança à Assembleia Legislativa, tirando-o do tabelionato e dando um novo rumo à sua vida. Esperança uniu-se em sua primeira eleição, concedendo-lhe mais de oitenta por cento dos votos do município, quase uma unanimidade. Em retribuição, ele conseguiu levar para a cidade sua primeira maternidade e seu primeiro colégio estadual, além de inúmeros outros benefícios de infraestrutura que alavancaram o desenvolvimento local. Essa a razão de Jório Machado tê-lo chamado de “barganhador de obras”, pois de fato ele sempre tinha em vista levar para a sua região algum melhoramento que de outra forma jamais chegaria.
Sua carreira, iniciada em 1958, foi ceifada no terceiro mandato. Não tivesse sido atropelado pelo arbítrio, como tantos brasileiros da época, poderia, quem sabe, ter galgado outras
Moacir Arcoverde ▪️ Acervo Abelardo Jurema
posições no cenário político paraibano e, quem sabe, nacional. Mas o parlamento estadual parecia-lhe bastante, o suficiente para conseguir para o seu povo e o seu burgo as melhorias possíveis. Não cultivou nunca a ambição, o carreirismo, o poder pelo poder.
Suas generosidade e solidariedade eram notórias. Teve a oportunidade de ajudar muita gente – e ajudou. Moacir Arcoverde conhece algumas dessas benemerências e gosta de lembrá-las. Após a sua partida, muitos dos benefícios que fez chegaram ao conhecimento da família através do espontâneo testemunho de anônimos beneficiários. Tudo isso confortou muito os corações doloridos de então com a certeza de que ele estava com Deus.
A conciliação e a mansidão também foram grandes marcas de sua personalidade. Evitava os confrontos de toda espécie, mas, se fosse o caso, deles não fugia, buscando sempre alternativas que levassem ao entendimento. A espontânea outorga do título de cidadão paraibano a Dom José Maria Pires numa época e em circunstâncias totalmente adversas é uma prova de seu brio. Podia perfeitamente ter se omitido - mas não o fez. Excelente causeur, detestava dois assuntos, em especial: dinheiro e brabeza. Tinha alergia, mesmo que disfarçasse, aos falastrões ambiciosos e valentes. Para ele, estes dois temas eram para ser objeto da mais rigorosa discrição, naquela sábia linha de que “quem tem não precisa anunciar”.
Chico Souto, advogado e influente político paraibano, deputado estadual por três legislaturas consecutivas ▪️ Acervo Rau Ferreira
Esse paraibano exemplar, cuja memória subsiste afetuosamente, deixou-nos, de repente, há trinta anos, ao anoitecer do dia 7 de agosto de 1996, e seu nome é Francisco Souto Neto, o Chico Souto de tantas histórias e realizações.