Ela trabalhou desde os treze anos como doméstica. Dedicada. Trabalhou com competência e amor em tudo o que fez. Família humilde. Muitas irmãs, dificuldades, luta. Perdeu uma irmã assassinada pelo marido. Com uma doze. Tiro no rosto. Sabemos bem o que isso significa, a simbologia de uma desfiguração para o feminicídio. Naquela época, nem essa definição existia.
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Mudou-se para a sua casa própria. É ou não uma felicidade divina? Divina, não. Suor de uma vida afora. Realizada e feliz no seu conforto merecido. Mas essa aparente paz durou pouco. Depois de um tempo, o seu bairro foi dominado pelo tráfico. Esse mal que invade todos os lugares. E o seu inferno começou. Tiros. Medo. Afrontas. E muito barulho nos finais de semana. Ensurdecedor. Justo quando achava que iria descansar na sua cama box, um som alto infernal. Sem falar dos
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Até que um dia, uma tragédia maior aconteceu. Uma morte bem pertinho dela. Seguida de torturas, gritos e murmúrios abafados. E ela com os dentes a ranger, o coração a querer pular, coisa que ansiolítico nenhum dá conta. No dia seguinte, arrumou suas trouxas, arrancou os móveis suados com as suas parcas economias e fugiu para outro lugar, onde pudesse dormir sem sobressaltos. Mas qual nada! Ela não pode morar na nossa bolha, aparentemente segura. Teve que ir para qualquer bairro periférico, igualmente violento. Simplesmente em busca de um aconchego familiar. Sabe que a periferia e a Grande João Pessoa estão dominadas pela violência urbana. O poder público, ausente. A polícia? Sem nenhuma autoridade. E que a sua casa, conseguida a tão duras penas, ela perdeu. Não consegue alugar nem vender. Quem é que, com uma vida de respeito, vai querer morar em zona de risco?
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Essas mulheres têm enxaqueca, têm dores menstruais, têm insônia, crises de ansiedade, depressão, síndrome do pânico, rangem os dentes, rangem o estômago, têm refluxo, são sozinhas, trabalham muito e matam muitos leões por dia para terem o mínimo de dignidade.
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Nesse aniversário de João Pessoa, não quero falar da orla, das vias asfaltadas, dos parques que uso para caminhar e contemplar o verde, dos espigões e da especulação imobiliária selvagem, das realizações das campanhas eleitorais, dos feitos dos políticos. Sem falar no medo e na vergonha que assistimos nos jornais nacionais sobre os bairros que nem podemos ousar nomear, nem atravessar. Até Cabedelo! E a minha querida Praia Formosa estourou no noticiário. Neste dia 5 de agosto, quero pedir por segurança, para que essas pessoas trabalhadoras, que conseguiram as suas casas, possam morar em paz, com dignidade e silêncio. Que possam restaurar a sua saúde e a paz de espírito. Que possam viver.
Medidas urgentes precisam estar na agenda dos políticos paraibanos nas próximas eleições. Nem só de asfalto é feito o progresso. Faz-se urgente olhar pela humanização dos bairros. A segurança dos seus habitantes. E uma noite de sono, com direito a sonhar, em sua própria casa, é o mínimo que um trabalhador merece.
Minha solidariedade às mulheres que vivem essas tragédias todos os dias de suas vidas.











