Da Série: Deixemos Homero falar (Parte III)
Assim como não se pode sequestrar a Andromaquia do Telêmaco, no contexto da *Odisseia*, não se pode sequestrar a religiosidade de Homero. Num poema produzido no século VIII a.C., documentado em pergaminhos e papiros a partir do século VI a.C., mas cujos fatos recuam até o século XII a.C., a religiosidade não pode ser senão o cerne de uma narrativa representativa de como se entendia o mundo naquele instante.
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A cidade de Atenas nasce, nos tempos míticos, tendo como sua guardiã a deusa Palas Atena, para quem se construiu, na Acrópole, o Partenon, o templo da virgem, um de seus atributos. Nada impediu que os atenienses construíssem também um grande templo a Zeus, na cidade baixa, nem essa medida resultou em heresia ou perseguições de ordem religiosa. O discurso de que a *Odisseia* é baseada em mitos, antes fosse apenas uma obviedade, mas acaba soando como ignorância do que é o mito: uma verdade possível, em um momento em que a Filosofia e a Ciência ainda não haviam encontrado uma maneira estruturada de se desenvolver.
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A *Odisseia* se define como um poema da volta, *nóstos* (νόστος), abrigando em sua estrutura uma nostalgia, como se pode constatar a partir da Proposição, quando se unem as dores (ἄλγεα, Canto I, verso 4) com a volta (νόστον, Canto I, verso 5). E são as dores, porque existem duas nostalgias: a física (Cantos V-VIII) e a psíquica, ou da memória (Cantos IX-XII). Enfrentemos a primeira delas, a Nostalgia Física.
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O sequestro dos deuses e de suas vontades é a tônica do filme de Christopher Nolan. Não há como compreender um poema épico arcaico sem os deuses e suas determinações. O herói épico não tem vontade; ele age de acordo com o que os deuses determinam. Esclareça-se que a *boulé* (βουλή), sendo mais uma determinação do que apenas uma vontade dos deuses, transforma-se em *boúleuma* (βούλευμα), quando o que foi determinado se concretiza. É, pois, para a realização do que foi decidido, em concílio, que os dois deuses, Palas Atena e Hermes, partem para a sua missão. Atena agirá logo no Canto I; Hermes aparecerá no Canto V, início dos episódios da Nostalgia Física.
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Ao terminar esse primeiro bloco, com o início da volta de Telêmaco a Ítaca, a narrativa é cortada para dar início à segunda parte da *Odisseia*, a Narrativa Física (Cantos V-VIII), objeto deste ensaio. Aqui também temos uma narrativa linear, enfocando a situação de Odisseus em Ogígia e a sua partida, até chegar à ilha dos Feácios, como náufrago, ser recebido pela Lei da Hospitalidade, ter um banquete em sua homenagem e começar o processo de reconhecimento de herói. Até então, ele é o estrangeiro, que ninguém sabe de onde veio ou quem é.
Quando termina o segundo bloco, tem início o terceiro, chamado de Nostalgia Psíquica, ou da Memória (Cantos IX-XII), com a narrativa de Odisseus, depois de se dar a conhecer, num processo que se denomina *anagnórisis* (ἀναγνώρισις), e narrar os acontecimentos que o levaram até ali. Destaque-se que o reconhecimento é característico da *Odisseia*, estendendo-se do Canto IX ao XXIV, o que nos levou a classificá-la como *O livro dos reconhecimentos*.
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Enfim, podemos dizer que, mesmo sendo uma narrativa de encaixe, o poema não é fragmentado, preservando sua linearidade, sem perda da inteligibilidade. É importante frisar a preservação da linearidade e da inteligibilidade do poema, porque, como afirmam Carlos Reis e Ana Cristina Lopes, em seu *Dicionário de teoria da narrativa*, “os encaixes são níveis estruturais autônomos, mas não independentes” (p. 156). Assim, a partida de Hermes do Olimpo, no Canto I, se encaixa no Canto V, com a sua chegada a Ogígia; a saída de Telêmaco de Esparta, retornando a Ítaca, no Canto IV, se encaixa no Canto XIII.
O concílio olímpico é importante para se compreender que Odisseus parte da ilha pela decisão dos deuses, sobretudo de Atena, que age em sua defesa. A ninfa Calipso é contra a sua partida e nada faz para ajudá-lo a ir-se, antes de ser
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Temos, no Canto V, duas coisas importantes. Inicialmente, Calipso diz a Odisseus para se orientar pelo brilho de algumas constelações, Plêiades, Boieiro e Órion, todas a leste, mantendo o Carro, no caso a constelação da Ursa, à esquerda. Navegando, primeiramente, reto, em direção às três primeiras, depois dobrando à esquerda, em direção à Ursa, que se situa ao norte, onde se encontra Ítaca, no Mar Jônio (versos 271-280). Trata-se da primeira navegação pelas estrelas, em um texto ocidental.
A segunda coisa importante é revelar ao leitor o Odisseus muito industrioso (πολυμήχανος, *Ilíada*, Canto II, verso 173), versado em carpintaria (εὖ εἰδὼς τεκτοσυνάων, *Odisseia*, Canto V, verso 250), construindo sua embarcação e costurando a sua
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Odisseus recusa mais, recusa algo que povoa a fantasia dos homens. A bela Calipso, a divina entre as deusas (δῖα θεάων, Canto V, verso 78), lhe oferece a imortalidade e a juventude (ἀθάνατον καὶ ἀγήρων, versos 135-136), para que ele permaneça, como seu esposo, na paradisíaca Ogígia, onde até Hermes ficou maravilhado, contemplando-a (Canto V, θηεῖτο, verso 75). O herói, no entanto, preferiu voltar e envelhecer junto à mulher (versos 215-220). Ao escapar da Ilha dos Lotófagos (Canto IX), Odisseus não come da flor de lótus que lhe faria perder a memória, nem ele narra essa aventura a Calipso, mas aos Feácios. Em Ogígia, Odisseus faz a escolha que permite o seu retorno: em lugar da imortalidade viril, a memória que o levará de volta ao lar.
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Como se trata de uma narrativa de viagens, nesse bloco da *Odisseia* podemos ver duas geografias: uma real, que faz referência, por exemplo, à Trácia, primeira parada de Odisseus quando de sua partida de Troia (Canto IX), e à Sicília, aqui denominada Trinácria, por causa de seus três cumes (Canto XII), embora essa realidade seja transfigurada pelo trabalho ficcional, constituindo uma verossimilhança com o mundo externo.
A outra geografia é a mítica, aqui representada tanto pela ilha de Ogígia quanto pela ilha dos Feácios. O espaço mítico de Ogígia localiza-se, conforme já vimos, no “umbigo do mundo”. Assim mesmo, a partir do espaço mítico, pode-se constatar uma objetividade narrativa com a construção da embarcação, utilizando-se as habilidades da carpintaria, chegando-se ao ponto de se fazer referência ao “fio de prumo” (καὶ ἐπὶ στάθμην ἴθυνεν, Canto V, verso 245),
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São oferecidas, pois, ao leitor algumas localizações que podem nos situar para entendermos melhor a viagem de Odisseus. A orientação pelas constelações a leste e, em seguida, pela Ursa ao norte também faz parte dessa verossimilhança objetiva, dizendo-nos que o herói partiu do oeste. A viagem se alonga por dezoito dias (όκτωκαιδεκάτῃ, verso 279), até atingir a Feácia. Quando associamos esses dados ao fato de que Ogígia se encontra no “umbigo do mundo”, podemos concluir que a ilha de Calipso estaria muito próxima do atual Estreito de Gibraltar, conhecido, no mundo antigo, como Colunas de Hércules, por cujo umbigo as águas do oceano Atlântico alimentariam o Mar Mediterrâneo, espaço do deslocamento geográfico de Odisseus.
Vê-se, portanto, um jogo entre as duas geografias, com uma retroalimentação entre elas: a real se torna ficcional e prepara a mítica, além de relatos míticos, como veremos na estadia de Odisseus entre os Feácios. Já a mítica, se bem entendida, permite-nos chegar à real: é saindo da Feácia que Odisseus chega a Ítaca. É o jogo próprio da ficção na fabricação da verossimilhança.
Leia aqui o segundo capítulo da série Deixemos Homero falar















