Da Série: Deixemos Homero falar (Parte II) O argumento de que não se pode comparar uma adaptação cinematográfica com uma obra literá...

A construção do herói homérico

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Da Série: Deixemos Homero falar (Parte II)
O argumento de que não se pode comparar uma adaptação cinematográfica com uma obra literária adaptada não se sustenta. Podemos e devemos. Confunde-se, geralmente, comparar o modo de narrar com a comparação com o fato narrado. Sabemos perfeitamente que a literatura narra por palavras e o cinema por imagens, havendo soluções muito boas, em ambas, para se contar um fato. Vejamos alguns exemplos. No Canto VIIII da Odisseia, Odisseus
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está entre os Feácios e ninguém sabe quem ele é. Dá-se um banquete em homenagem ao estrangeiro, devidamente protegido pela Lei da Hospitalidade, quando o aedo Demódoco começa a cantar os amores de Ares e Afrodite, traindo Hefestos, marido da deusa do Amor (versos 261-366). Depois do canto lírico-jocoso, Odisseus pede ao aedo para cantar o episódio do cavalo de madeira (ἵππου δουρατέου, versos 492-3), na guerra de Troia. A narrativa do aedo, diferentemente da canção anterior, que se estende por mais de 100 versos, é sumarizada em parcos 21 versos (versos 500-520), porque o interesse do Canto VIII é que se abra a oportunidade para o reconhecimento de Odisseus e de suas narrativas, em primeira pessoa, a partir do canto seguinte se prolongando até o Canto XII. Esse mesmo sumário de 21 versos, na Odisseia, se transforma no Livro II da Eneida de Virgílio, que conta com 804 versos. Se a Literatura encontrou meios diferentes de narrar o mesmo fato, é de se esperar que o cinema também o faça através de suas imagens.

No filme de Andrei Konchalosvsky, A Odisseia (1997), um close nos olhos de Palas Atena, interpretada por Isabella Rossellini, nos conta, sem palavras, qual é o epíteto mais conhecido da deusa – a de olhos brilhantes (γλαυκῶπις). Já no filme de Wolfgang Petersen, Troia (2004), a câmera sai de um close no rosto de Aquiles e se abre lentamente, mostrando o mar Egeu coalhado de navios. Em poucos segundos,
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o diretor, sem usar uma única palavra, narrou 480 versos do Canto II da Ilíada, na passagem conhecida como o Catálogo das naus e dos heróis. Muitas vezes as incongruências não se encontram no modo de narrar, mas no que é narrado. Para quem não desejar a comparação, há a solução, simples e óbvia, é não fazer a adaptação.

Não se trata, portanto, de se exigir uma fidelidade ou um purismo, em relação à obra adaptada, mas de saber fazer escolhas. O que não pode acontecer é escolher a superfície, em lugar da estrutura. Gasta-se mais tempo, por exemplo, se falando na guerra de Troia do que na volta de Odisseus e nos seus ensinamentos a Telêmaco. Isso é um grande erro, a guerra de Troia é incidental na Odisseia, que é, por definição, um poema de viagem de volta. Então, a volta é fundamental, e isso não acontece no filme, que apresenta uma fragmentação da volta, incompreensível, para quem não conhece o poema, deslocando a narrativa para Calipso, que faz às vezes de uma psicóloga, misturada com psiquiatra, em lugar de fazê-la acontecer entre os Feácios, onde se dá o reconhecimento de Odisseus, decisivo para que eles, ótimos remadores e encantados com a narrativa sequenciada do herói, o levem de volta para Ítaca.

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É óbvio que mesmo se escolhendo a estrutura, não se pode contar tudo, porque nem o próprio Homero contou tudo. Aristóteles reconhece essa diferença de Homero, em relação a outros poetas, pela sua técnica e habilidade poética, de contar o que é essencial διὰ τέχνην ἣ διὰ φύσιν, (Poética, 1451a, 25).

Feitas essas considerações, tratemos do Herói. Como se dá a criação do Herói, no mundo grego? Hesíodo cria a parte substancial de sua tipologia, na Teogonia. Com a construção do primeiro Herói, Zeus. O herói tem que se afastar de sua origem, se quiser combater o seu oponente, crescer, tronar-se vigoroso, fazer a viagem de retorno, vencer dificuldades em seu caminho, lutar com o seu oponente, vencê-lo e se impor. Assim, faz Zeus, depois de nascido, criado e nutrido em Creta, com o leite da cabra Amalteia e o mel da abelha Melissa, retornando com saber apropriado, para desencadear uma guerra contra o pai, Cronos, libertar os irmãos devorados e encerrar o pai no Tártaro, o ponto mais profundo do Hades. É a Titanomaquia, importante episódio da Teogonia (versos 617-775).

Depois, Hesíodo compõe um novo poema, Trabalhos e dias, sobre a Justiça, revelando Zeus como o criador da Raça dos Heróis (γένος ἀνδρῶν, versos 156-173), para combater a Raça de Bronze (γένος χάλκειον, versos 143-155), feita de homens perecíveis, que sonhavam com as obras da desmedida (ἔργα ὕβριες, verso 146). Atentemos para o fato de que o poeta se refere a raça, não a idade. A Raça
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de Bronze é mítica, a Idade de Bronze é histórica. Não há, pois, como os heróis saberem que estão na Idade de Bronze e que ela está acabando. Essa fala, inserida no contexto do filme, é de um anacronismo sem tamanho.

Nesse poema de Hesíodo, os heróis, todos formados, vão combater onde houver injustiça, “diante dos muros de Tebas das Sete Portas, ou além do abismo marinho, em Troia, aonde a guerra os conduziu, em navios, por Helena dos belos cabelos” (versos 161-165). O Herói se forja nas dificuldades que enfrenta e, sobretudo, na guerra, cumprindo o itinerário indiscutível de seu valor: a Aristeia (ἀριστεία), que é a excelência guerreira, refletida pela sua Areté (ἀρετή), a virtude guerreira, que molda a sua Timé (τιμή), a honra, e o faz ser merecedor da Kléos (κλέος ἄφθιτον), a glória imperecível. Sem a têmpera forjada no enfrentamento de dificuldades e dos combates sangrentos, não existem heróis.

Na Odisseia, Homero mostrará a criação do herói, compondo uma narrativa da volta do Herói maior, Odisseus, para concluir a formação do jovem herói, o filho Telêmaco. É, no fundo, uma paideia, uma educação, após vinte anos de ausência, lutando em Troia e retornando para casa. Mas para que o término dessa educação dê resultado, é preciso que o candidato a herói faça a sua viagem iniciática.

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A Odisseia tem uma estrutura bem montada, que dividimos em seis partes, a saber: A Telemaquia (Cantos I-IV), A Nostalgia Física (Cantos V-VIII), A Nostalgia da Memória (Cantos IX-XII), A Chegada a Ítaca (Cantos XIII-XVI), A Paideia (Cantos XVII-XX) e A Andromaquia (Cantos XXI-XXIV). Iniciaremos com a Telemaquia, a luta de Telêmaco, em busca de descobrir se o pai está vivo ou morto, e se, vivo, onde ele se encontra. As outras partes virão, posteriormente, a seu tempo.

Telêmaco é apresentado com ações infantis (νηπιάας, Canto I, verso 297), apesar de seus vinte anos, sem força para tomar o pulso de sua casa, tarefa que cabe ao filho primogênito, no seu caso, unigênito. Palas Atena, a deusa protetora de Odisseus, lhe aparece, como o amigo do seu pai, Mentes, que vai
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recriminar as suas atitudes de criança e aconselhá-lo na escolha do caminho que deverá transformá-lo em homem. A sua contrapartida é deixar Ítaca e realizar a viagem iniciática do herói. Ele deve ir à procura do pai, primeiro, indo a Pilos; depois, a Esparta, mesmo que Palas Atena saiba que Odisseus se encontra na ilha de Ogígia, e que os deuses, em concílio, lhe concederam o retorno, a nóstos (νόστοn, Canto I, verso 87). Viajar, no entanto, é parte intrínseca da personalidade do herói, e Palas Atena age, mais uma vez, agora, sob o disfarce de Mentor, amigo de Odisseus, a quem ele confiou o filho e a casa, não a função de instrutor de armas. Na orientação a Telêmaco, Mentor profetiza a morte e o negro destino dos pretendentes, que não são nem sábios, nem justos (οὔ τι νοήμονες οὐδὲ δίκαιοι, Canto II, versos 281-284).

Telêmaco realiza a sua viagem, acompanhado de Mentor/Palas Atena, dirigindo-se, inicialmente a Pilos, o reino de Nestor, no Peloponeso ocidental, bem distante de Ítaca. Pilos não é um lugar próximo, em Ítaca, onde existe um templo de Palas Atena, incendiado por Odisseus, lutando contra os pretendentes,
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que fizeram emboscada a Telêmaco, no retorno do jovem. Ainda que na estrutura do poema houvesse essa luta, jamais Odisseus profanaria o templo da deusa, incendiando-o. Como também ele não compactuaria com a degola da estátua da deusa, quando da destruição de Troia, conforme apresentado no filme. Além de Palas ser a sua protetora, ao longo do poema, tais atos seriam graves ações contra os deuses. Por causa do estupro de Cassandra, filha de Príamo e sacerdotisa de Apolo, no templo de Atena, Ajax Menor morre afogado pelo ódio da deusa e pela ação de Posídon (Odisseia, Canto IV, versos 499-511).

Por que Telêmaco deve ir a Pilos? Nestor, o rei de Pilos, grande glória dos Aqueus (μέγας κῦδος Ἀχαιῶν, Canto III, verso 202), era o guerreiro mais velho nos campos de Troia, com três gerações acima dos outros combatentes, além disso, ele acumulava a função de conselheiro dos Atridas, pela sua idade longeva, pela experiência e pela sapiência. Elogiando a oratória e a astúcia inigualável de Odisseus (Canto III, versos 120-22), Nestor direciona Telêmaco, na sua busca de informações sobre o pai, enviando-o a Esparta, cujo rei, Menelau,
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dos heróis da guerra de Troia, tivera o retorno mais recente (Canto III, versos 317-8). Nestor concede ao jovem carros e cavalos, e designa o próprio filho, Pisístratos, como guia até Esparta. Como abrir mão da experiência de Nestor, que já por três vezes comandava gerações de heróis (Canto III, verso 245)? Não esqueçamos que o poema é de aprendizagem e a paideia depende da experiência.

Em Esparta, Telêmaco vai encontrar Menelau gozando a felicidade do retorno, ao lado da esposa Helena. É o Atrida, condutor de homens, que vai dar a informação exata de Odisseus: retido à força na ilha de Ogígia pela bela ninfa Calipso, por não ter barcos e tripulação para enfrentar os vastos dorsos do mar (εὐρέα νῶτα θαλάσσης, Canto IV, versos, 555-60). Telêmaco prepara a sua volta a Ítaca, os pretendentes preparam uma emboscada para matá-lo.

Também importante, no Canto IV, é a necessidade aristotélica da presença de Helena, cujo objetivo é a sua exaltação, confirmando as palavras de Príamo (Ilíada, Canto III) sobre ela, quando ambos se encontram na muralha de Troia, de que não é ela, mas os deuses, os verdadeiros culpados da guerra dos Aqueus, que levam todos a verter lágrimas abundantes (πόλεμον πολύδακρυν, versos 164-165). Helena, mais do que aliviar
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as dores da tristeza de Telêmaco, com as poções que trouxe do Egito (φάρμακα, Odisseia, Canto IV, verso 227), ou exaltar as astúcias de Odisseus, no roubo do Paládio, disfarçado de mendigo (versos 244-258), e no estratagema do cavalo de madeira (versos 271-289), está ali, não mais para ser execrada (veja-se o que se diz dela na tragédia As Troianas, de Eurípides, versos 892-3), mas para ser exaltada, por ser filha de Zeus (Διός ἐκγεγαυῖα, versos 184, 219; Διός τυγάτερ, verso 227) e deusa entre mulheres (δῖα γυναικῶν, verso 305). Menelau, por sua vez, a exalta por sua condição de genro de Zeus (γαμβρός Διός, verso 569).

Referida, desde o verso 12, Helena não deixa mais a narrativa do Canto IV, que se alonga por 847 versos (o episódio em Esparta termina no verso 624, os demais versos dizem respeito à emboscada dos pretendentes), com Helena tendo direito a duas falas diretas (versos 138-146 e 235-264), o que só acentua a sua importância. O que menos importa, portanto, é a sua cor, embora continue defendendo que ela seja branca. O que não pode acontecer é mostrar, como escolha, uma Helena humilhada, diminuída, com um rosto mutilado, por um Menelau rancoroso. Apresentá-la desse modo fere a estrutura dos dois poemas, não só da Odisseia. Quando as mudanças são superficiais, a estrutura é preservada, mas a recíproca não é verdadeira.

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Telêmaco, tendo cumprido a parte que lhe cabe, com a viagem iniciática, retornará com outra disposição e outras atitudes, em relação aos pretendentes. O herói está em construção. Faltam-lhe os conselhos do pai e a batalha, a Andromaquia, para a sua completa formação. É nesse ponto que retomamos o primeiro parágrafo desse artigo, o dilema entre o modo de narrar e o que deve ser narrado. Se as cenas da batalha contra os pretendentes são intensas, puro cinema, há o sequestro da participação de Telêmaco, bem como da punição das servas infiéis, cujas explicações virão a seu tempo. Retirar da narrativa ações estruturais, por qualquer que seja o motivo, é mutilar o que se narra.

Finalizando, nessa primeira parte do poema, observa-se que são da sua estrutura, a viagem iniciática, começando pelas informações do mais experiente; a astúcia de Odisseus e a morte anunciada dos pretendentes, por terem invadido a casa de um homem, terem cortejado a sua mulher, dilapidado os seus bens e planejado a morte de seu filho, tendo a seu favor a força e a violência (ὑπέρβιον ὕβριν ἔχοντες, Ι, verso 368)

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Na sequência, Odisseus punirá, por direito, a grave falta dos pretendentes, por suas atitudes, que os levarão a ser tratados por arrogantes (μνηεστῆρας ἀγήνορας, I, verso 106), soberbos (ὑπερφιάλισι, I, verso 134), desavergonhados (μνηστῆσιν ἀναιδέσι, I, 254), com arrogância ultrajante (ὑβρίζοντες ὑπερφιαάλως, I, verso 227), que destroem a casa de um homem ausente (τρύχουσι οἶκον, verso 248), ferindo a lei da hospitalidade, cujas desmedida e violência chegam ao céu de ferro (τῶν ὑβρις τε βίη τε σιδήρεον οὐρανὸν, XV, versos 325-329). Isto, sim, é Homero.
Leia aqui o primeiro capítulo da série Deixemos Homero falar

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