Pequenas embarcações pesqueiras ficam fundeadas nas águas onde a praia de Manaíra faz divisa com a de Tambaú. Algumas, avariadas, que ainda resistem, são deixadas sobre as areias, à sombra de uma gameleira.
Dessas, umas estão devidamente aposentadas, enquanto outras parecem aguardar reparos. Fazendo fronteira com o areal, a calçada ampla e um espaço que parece uma praça e, fincado nesse logradouro, o mercado de peixes. Por ali, o vai e vem de turistas, ou gente à procura de peixe fresco, e velhos pescadores, estes frequentadores contumazes daquele logradouro.
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Dois banquinhos de madeira, sobras de algum móvel aposentado e adaptado a essas novas funções. Sobre um deles, uma meiota de cachaça, o copo de pequenas dimensões apropriado às suas funções, o pacote improvisado com os inseparáveis cigarros de manufatura caseira — os "pés-de-burro" —, a caixa de fósforos, duas laranjas-cravo para rebater os arrepios depois dos goles da água que passarinho não bebe. Noutro, nosso herói acomodado, tecendo a rede de pesca, tendo à frente aquela imensidão de águas mansas tingidas de limbo e o cheiro do sargaço trazido à praia pelo regime das marés.
Pressa? Nenhuma! Nove ou dez trançadas com seus fios de nylon na composição daquela teia, e uma talagada de cana, um gomo da laranja-cravo e uma longa baforada no pé-de-burro. Mais uns dez pontos na rede e outra baforada...
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Uma figura bem composta, bermudas, tênis, meias e camiseta de marca. Óculos escuros também. O desconhecido puxa conversa.
— Incomodo?
— De jeito nenhum.
— A rede é de encomenda ou é para o senhor mesmo?
— É pra mim. Fazendo pra pescar quando ficar pronta. Por quê, senhor?
O caba encheu-se de coragem e revelou ao velho pescador o que o incomodava.
— Acho que o senhor podia ir um pouquinho mais depressa. Não acha?
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— Ora, ela ficando pronta, o senhor pode pescar todos os dias. Com sorte, pode ter um bom lucro e economizar para tecer outra rede.
— Também acho. Mas pra quê?
— Se mantiver um bom ritmo de pesca e, sempre que puder, for tecendo suas redes, poderá contratar pessoas para pescar para o senhor.
— Não é que ia ser bom! Já pensou, gente trabalhando para mim? Mas me diga: pra quê?
— Com um bom número de redes a seu serviço, vai ter um bom lucro e, se souber economizar, poderá comprar um barco desses aí, com motor a diesel.
— Verdade. Mas pra quê?
— Se tiver um espírito empreendedor... Sabe o que é espírito empreendedor? Vai ter bons rendimentos e poderá adquirir um barco frigorífico. Nunca pensou nisso?
— Pensei não! Iria ganhar bastante dinheiro. Mas pra quê?
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— Ora, pra quê? Ganhar muito dinheiro? O senhor poderia montar uma indústria no ramo da pesca, vender seu produto com muitas vantagens agregadas. Pode ficar muito rico. Rico como eu!
Mas o pescador deu mais uma talagada de cachaça, puxou a fumaça do pé-de-burro e...
— Mas pra quê ficar rico como o senhor?
— Porque você vai poder fazer o que estou fazendo: tirar dez dias de férias e estar aqui, na frente desse mar, sem preocupação e, me desculpe, ficar à toa na vida por uns dias.
— Fazendo o que mesmo, senhor?
— Nada. Absolutamente nada! Só curtindo um sossego, coçando o...
— O senhor vai me desculpar. Precisou trabalhar muito pra ficar muito rico, pra poder vir aqui passar só dez dias curtindo um sossego...
— Sim, isso mesmo!
Então o pescador...
— O que o senhor acha que eu estou fazendo aqui e agora?











